Por Gerson Tertuliano, presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás — SENGE-GO

A realização de sondagens sob pontes e viadutos de Goiânia, quase um ano após decisão judicial que determinou intervenções emergenciais, revela um problema que ultrapassa essas estruturas: a engenharia ainda é frequentemente tratada como uma despesa adiável, quando deveria ser reconhecida como instrumento de proteção da vida, do patrimônio público e dos recursos da sociedade.

A decisão judicial decorreu de ação do Ministério Público de Goiás e determinou intervenções em pontes localizadas nas avenidas T-63, Universitária e 24 de Outubro, além da Rua Dr. Constâncio Gomes. Também exigiu a elaboração de um plano permanente de manutenção, com estudos técnicos, monitoramento contínuo e participação de profissionais habilitados. O início tardio das sondagens demonstra a distância entre a identificação do problema e a execução das providências necessárias.

Pontes, viadutos, redes de drenagem, sistemas de saneamento e edificações públicas não permanecem indefinidamente nas condições em que foram inaugurados. Sofrem os efeitos do uso, das chuvas, da umidade, das cargas, das vibrações, da corrosão e do envelhecimento dos materiais. A obra pública não termina com a inauguração. A partir dali, começa uma longa etapa de inspeção, operação e manutenção.

A deterioração estrutural, como demonstram estudos, é geralmente progressiva. Fissuras, infiltrações, erosões, corrosão das armaduras e falhas de drenagem podem ser identificadas antes de alcançarem níveis críticos. Quando a intervenção ocorre no momento adequado, os reparos tendem a ser mais simples, seguros e baratos. Quando é adiada, o dano se amplia e pode exigir reforços, interdições e reconstruções.

Em Goiânia, levantamento divulgado pelo CREA-GO avaliou 66 pontes e viadutos e identificou 226 anomalias, incluindo danos em pilares, guarda-corpos e outros componentes. O dado não deve alimentar alarmismo, mas evidencia a necessidade de uma política permanente de inspeção, classificação de riscos e definição de prioridades.

Essa é a lógica da Norma DNIT 010/2024 e da ABNT NBR 9452, que estabelecem procedimentos para a inspeção de pontes e viadutos. Inspecionar não é apenas observar uma fissura visível. É examinar, registrar, comparar resultados, avaliar as condições da estrutura e recomendar medidas de manutenção, recuperação ou reforço.

A engenharia trabalha com o conceito de custo do ciclo de vida. O valor de uma infraestrutura não corresponde apenas ao preço de sua construção. Deve incluir operação, inspeções, manutenção, recuperação e eventuais impactos decorrentes de sua paralisação. O Banco Mundial aponta que, em determinados contextos de infraestrutura rodoviária, adiar a manutenção por cinco anos pode elevar os gastos para até 18 vezes o custo de uma intervenção preventiva. A proporção não se aplica automaticamente a toda obra, mas confirma uma realidade conhecida: prevenir custa menos do que reconstruir.

O custo da omissão também ultrapassa a planilha da obra. A interdição de uma ponte provoca desvios, congestionamentos, aumento do consumo de combustível, prejuízos ao transporte coletivo e dificuldades para a circulação de trabalhadores, mercadorias, ambulâncias e serviços públicos. A sociedade paga pela recuperação da estrutura e pelas consequências de sua indisponibilidade.

É preciso superar a cultura administrativa que privilegia obras novas e visíveis, enquanto a conservação do patrimônio existente permanece em segundo plano. A manutenção não costuma produzir cerimônias de inauguração, mas prolonga a vida útil das estruturas, evita emergências e permite melhor utilização dos recursos públicos.

Valorizar a engenharia significa manter equipes técnicas permanentes nos órgãos públicos, realizar concursos, oferecer remuneração compatível com a responsabilidade profissional e assegurar autonomia para que engenheiras e engenheiros possam apontar riscos e recomendar intervenções. Significa respeitar laudos, projetos, estudos do solo e cronogramas de manutenção.

Essa defesa não interessa apenas à categoria profissional. Trata-se de defender cidades seguras, planejamento público, mobilidade e responsabilidade com o dinheiro da população. Cada inspeção adiada representa um risco acumulado. Cada recomendação técnica ignorada pode se transformar em uma obra mais cara no futuro.

A melhor engenharia é, muitas vezes, aquela que não vira notícia: a ponte que não precisa ser interditada, a estrutura que permanece segura e o recurso público que não precisa ser gasto duas vezes.