“É um tratamento menos invasivo”: médico goiano explica nova técnica que trata hidrocefalia em bebês
04 maio 2026 às 16h09

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A hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo de líquido cefalorraquidiano no cérebro, pode ser diagnosticada ainda durante a gestação ou nos primeiros dias de vida. Em recém-nascidos, no entanto, os sinais costumam ser sutis, o que reforça a importância do acompanhamento médico especializado, segundo o neurocirurgião pediátrico William Andrade.
“O principal sinal, muitas vezes, é o crescimento da cabeça. Como a fontanela ainda está aberta, o organismo consegue acomodar esse aumento de pressão por um tempo, então os sintomas clássicos podem não aparecer de imediato”, explica ao Jornal Opção.
Ele destaca que, em bebês, também podem ocorrer sonolência excessiva, diminuição da sucção e menor atividade. De acordo com o médico, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar prejuízos ao desenvolvimento neurológico da criança.
“Mesmo antes de apresentar sintomas mais evidentes, a hidrocefalia já pode impactar o desenvolvimento. Por isso, o acompanhamento e a avaliação precoces são essenciais”, afirma. Para identificar a condição, o primeiro exame indicado costuma ser o ultrassom transfontanelar, por não oferecer riscos ao bebê.
A tomografia, apesar de utilizada em alguns casos, é feita com cautela. “A gente procura evitar a tomografia inicialmente por conta da radiação. O ultrassom já permite avaliar o tamanho dos ventrículos e levantar a suspeita diagnóstica”, diz.
Segundo Andrade, a tomografia entra como exame complementar quando há confirmação ou forte suspeita da doença. “Ela é importante para detalhar melhor as medidas, mas usamos com parcimônia em crianças”, completa.
Uma das principais alternativas no tratamento da hidrocefalia é a neuroendoscopia, procedimento minimamente invasivo que pode dispensar o uso de válvulas permanentes — método tradicional ainda amplamente utilizado.
“As válvulas funcionam desviando o líquor para outra parte do corpo, como o abdômen, mas podem apresentar complicações, como infecção, rejeição ou mau funcionamento”, explica o especialista.
“Com a neuroendoscopia, conseguimos restabelecer a circulação do líquor de forma mais fisiológica, sem a necessidade de implantar uma prótese.” Ele ressalta que, quando o procedimento é bem-sucedido, a criança pode ficar livre de dispositivos permanentes.
“Se a técnica funciona, a gente trata a hidrocefalia, e a criança pode evoluir sem válvula”, afirma. Além do tratamento, a neuroendoscopia também pode ser utilizada de forma preventiva em casos específicos, como em bebês prematuros que apresentam hemorragia cerebral — condição relativamente comum em nascimentos antes de 33 semanas.

“Nesses casos, a gente pode realizar uma espécie de ‘lavagem cerebral’ com o endoscópio para retirar resíduos do sangramento. Isso reduz a chance de o bebê desenvolver hidrocefalia depois”, explica Andrade.
Segundo ele, quando não há acesso a esse tipo de intervenção precoce, o paciente muitas vezes já chega com a doença instalada. “Não dá mais para prevenir, apenas tratar”, diz.
Apesar dos avanços, o acesso à neuroendoscopia ainda é restrito, principalmente fora de grandes centros. Entre os principais entraves estão o custo dos equipamentos e a necessidade de formação especializada.
“O endoscópio não é um equipamento barato e nem todos os hospitais possuem. Além disso, nem todos os neurocirurgiões têm treinamento específico para realizar o procedimento”, afirma.
Para o especialista, ampliar o acesso passa por investimento em tecnologia e qualificação profissional. “Com estrutura e treinamento adequados, não é um procedimento dos mais complexos. O desafio hoje é justamente expandir essas condições para mais centros”, conclui.
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