“É preciso planejar Goiânia para o futuro e não só quatro anos”, defende Guilherme Takeda

Autor do projeto participativo do Parque do Cerrado critica modelo político de construção de espaços públicos: sociedade deve tomar as rédeas do processo

Para arquiteto, comunidade deve pensar e construir a cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para arquiteto, comunidade deve pensar e construir a cidade | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Alexandre Parrode e Amanda Damasceno

O Parque do Cerrado promete ser o parque dos sonhos dos goianienses. Pelo menos é isso que o projeto pretende: conduzido pelo arquiteto Guilherme Takeda, um workshop colaborativo que pretende mostrar o que a população deseja acontece em Goiânia nestas quarta e quinta-feira (11 e 12/3).

Com lápis de cor, canetas e papéis quem participar do processo vai desenhar aquilo que acha ideal. Serão feitos exercícios com perguntas do tipo “Como é o parque dos seus sonhos?” ou “Do que vocês têm saudades da infância?”. A proposta, de acordo com Takeda, é de levar ao parque os valores imateriais da cidade.

O importante, destaca o arquiteto, é que o projeto seja feito pela população, porque assim vai atender a quem irá usar o espaço. “Nós estamos fazendo um projeto que não seja de governos e, sim, da população”, explica.

Daqui a 20 dias o projeto será apresentado para a prefeitura. E o financiamento vem da iniciativa privada, e não pode ser de apenas uma só. Hoje, já são cinco empresas envolvidas. A ideia é que um grupo desenvolva as ações para parte da obra já começar.

Takeda esclarece que veio não para construir, mas para mediar a construção deste projeto. O meio escolhido foi o chamado “projeto de Charrette”, ferramenta inventada pelos norte-americanos para fazer projetos colaborativos com a população e na qual a comunidade desenha a solução para determinados locais.

O workshop realizado no Centro Cultural Oscar Niemeyer será transmitido ao vivo e, além das pessoas que vão até o local do workshop, o goianiense pode colaborar enviando desenhos via on-line .

A diferença entre o projeto de Charrette e uma audiência pública é que tudo é desenhado: não há discursos. Com as ideias de pessoas com visões diferentes – esportistas, crianças, idosos, jovens – vai sendo construída uma ideia final que atende todos os anseios da comunidade, em um consenso que é alcançado de forma natural.

Planejamento e execução

O grande problema hoje das cidades, afirma Takeda, é o desenvolvimento de projetos. “Uma licitação de um parque como esse demoraria um ano para ficar pronta. Nós vamos fazer em 20 dias. Quer dizer, a iniciativa privada tem melhores condições de desenvolver projetos e obras. Além de serem mais baratas e executadas em menor tempo.”

Para ele, a prefeitura tem interesse em arrecadar os recursos necessários para a execução do parque. O mais difícil, segundo o arquiteto, não é conseguir financiamento, mas sim desenvolver projetos. “Dinheiro não é problema”, afirma.

Takeda também destaca que, apesar do investimento privado, o parque é público, “nós obedecemos e ouvimos os especialistas da prefeitura  [no caso da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma)]”.

Por enquanto não há expectativa de finalização do projeto. O objetivo é que a sociedade organizada vá atrás dos recursos, das empresas e de instituições que estejam interessadas em executar o projeto. Por isso é participativo: os cidadãos desenvolvem o projeto e a própria sociedade o executa com os recursos da iniciativa privada que tem, no mínimo, dois ganhos:  o nome envolvido em um projeto inovador e uma maneira de dar um retorno à cidade.

Há ainda, claro, a participação do poder público: deputados, vereadores e políticos foram convidados, pois podem colaborar com o projeto garantindo recursos públicos junto aos governos municipal, estadual e federal. “Queremos criação de uma feira no parque. A ideia é descobrir o que o goianiense quer, o que acha interessante para o parque, mas não para o agora. Em uma perspectiva de 30 anos”, relata.

De acordo com ele, o planejamento é tão audacioso, que quer sair do imediatismo e pensar no futuro da cidade muito além do mandato de um prefeito, por exemplo. “O problema é que planejamos pensando nas gestões governamentais, em quatro anos, e qualquer ação urbana a gente tem que pensar em 30 anos”, explica.

Expansão para a cidade

O arquiteto defende a ideia de que o plano colaborativo não deve se restringir só a esse projeto, mas ser aplicado para toda a cidade.  Um parque, por exemplo, traz muito desenvolvimento para a região em que é feito e às vezes falta um planejamento nos arredores.

A ordem ideal, de acordo com Takeda, seria uma discussão da cidade, em primeiro lugar. “Tem que ver para onde a cidade quer crescer, qual seu posicionamento conceitual. Vai ser uma cidade industrial? Comercial? Quem a gente pretende atrair?”.

O espaço urbano deve, então, ser pensado como uma gestão da prefeitura, mas como obrigação dos empresários, universidade, da sociedade e do gestor. Um processo que vai, em última instância, unir interesses e construir a cidade que é desejada por toda a comunidade.

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