Do sofrimento invisível ao sonho de construir família: o que enfrentam as crianças acolhidas em Goiânia e quem cuida delas?
17 setembro 2026 às 10h06

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Nos últimos dois anos, mais de 700 crianças e adolescentes foram retirados do convívio de suas famílias em Goiânia. Por trás de cada número, há uma história de abandono, violência, negligência, dependência química ou incapacidade dos responsáveis de garantir os cuidados básicos.
Depois da retirada, começa outra etapa, menos conhecida: a vida dentro das instituições de acolhimento. Em Goiânia, parte dessas unidades é administrada por organizações da sociedade civil, que dependem de diferentes fontes de recursos para manter estruturas, contratar funcionários e cuidar das crianças. Além disso, a rede convive com desafios de financiamento, fiscalização e reinserção familiar.
Emerson Rodrigo, que foi acolhido aos 11 e saiu aos 18 anos, sua idade atual, foi o protagonista de uma dessas histórias e conheceu faces opostas desse sistema. Sua família veio de Petrolina, Pernambuco, para tentar melhorar de vida em Goiás, mas sua mãe era dependente química, e ele e mais três irmãos viviam de pedir dinheiro nas ruas e foram retirados do convívio familiar pelo Conselho Tutelar.

No seu primeiro acolhimento, que fica na Cidade de Goiás, conta ter presenciado violência contra os irmãos. Já na capital, diz ter encontrado uma família.
“Eles cuidavam de nós como se fôssemos filhos deles. Davam carinho. Nós éramos muito amados por eles”, lembra, ao falar sobre o período em que viveu no Brazilian Kids. A experiência de Emerson levanta uma questão que atravessa a rede de acolhimento: o que determina a qualidade da vida de uma criança depois que ela é retirada dos próprios pais?

A princípio, explica o juiz da Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), Fernando César, o objetivo é realocar a criança dentro da própria família “O primeiro lugar que a gente busca colocar a criança é na família. É alocar dentro da família. Para depois, não sendo possível colocar na família, dentro da família, aí nós vamos buscar esse atendimento institucional”.
As crianças que não têm onde serem realocadas, vão para os acolhimentos institucionais e têm os seus destinos lançados à sorte. O juiz reconhece os limites que são impostos a essa realidade, mas afirma que é o que possível está sendo feito
“Pode melhorar? Sim. Nós não podemos nunca deixar de ter treinamento, deixar de ter acompanhamento, deixar de buscar meios melhores de atender a criança ou adolescente. Então, nós conseguimos fazer isso? Estamos fazendo. Mas podemos melhorar? Temos que melhorar. Sempre. Não podemos nos acomodar com o que tem, porque uma hora isso estoura”.
Emerson foi uma dessas crianças e viveu diferentes realidades do acolhimento. É possível ir para locais estruturados, com profissionais exemplares, mas também podem cair em ambientes que enfrentam desafios profundos, como falta de mão de obra e pouco investimento, correndo o risco, inclusive, de terem seus direitos violados novamente, dessa vez nas mãos do Estado.
Para evitar que isso aconteça, muitas organizações fiscalizam o funcionamento das instituições de acolhimento. Entre elas está o Ministério Público. O promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) Ricardo Papa explica que o monitoramento é realizado com rigor e que os locais são fiscalizados in loco pelo menos duas vezes por ano.
O membro do Ministério Público detalha: “No artigo 82 do Estatuto da Criança e do Adolescente, nós temos determinados princípios que regem o acolhimento. Ele se chamava abrigo até 2009, atualmente se chama acolhimento institucional. A regra, o que que é? Preservar o vínculo familiar e promover a reintegração. Quando for possível”.
Ricardo detalha as ações de monitoramento e recebimento de denúncias
“Eu, pelo menos, se uma criança pede pra conversar comigo, eu tô sempre aberto. Às vezes ligam aqui, pedem pra falar alguma coisa. Nas audiências concentradas, o que acontece? A cada três meses, a situação de uma criança ou de um adolescente que tá acolhido precisa ser reavaliada. Então, duas vezes por ano, essa reavaliação é feita por audiência. Nos meses de abril e outubro e nos outros três meses, que são janeiro e julho, aí ela é feita pelo exame da documentação. Então, tem condição de voltar pro pai, de voltar pra mãe? Tem, desacolhe. Teve algum familiar que pediu a guarda? Desacolhe”.
Além do MP, o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e a própria Secretaria de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos realizam fiscalizações periódicas. Ainda assim, existem violações de direitos dentro desses acolhimentos institucionais. O Niso Prego, por exemplo, era uma instituição de gestão da Prefeitura que, ainda no mandato de Rogério Cruz, teve que ser fechada a pedido do Ministério Público.
Rede de acolhimento de Goiânia
Atualmente, cinco instituições recebem crianças. Desse total, quatro são geridas por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e uma é de gestão da Prefeitura. Das OSCs, apenas uma recebe dinheiro público (Mãe Zeferina); as outras se mantêm a partir de doações e filantropia. A Prefeitura já realizou um edital para repassar o valor de um salário mínimo por criança às demais instituições. Entretanto, até a publicação desta reportagem, os repasses não começaram a ser feitos.
Ricardo Papa explica quais as responsabilidades e como é calculado o valor de repasse para as instituições “Essas situações (o acolhimento), a responsabilidade é do município pra resolver. Então se ele não resolve ele deve pactuar com uma unidade privada. Normalmente uma unidade filantrópica. Qual é o valor per capita que você vai repassar? E aí cada município tem condição de acolher uma determinada quantidade e de pagar um determinado valor”.
O Radicais Kids e o Brazilian Kids têm, ambos, capacidade para acolher 20 crianças. Sobre a capacidade do Mãe Zeferina e da Casa dos Nossos Filhos Teresinha do Menino Jesus, não encontramos informações especificamente sobre a capacidade, mas o fluxo de crianças é de cerca de dez por ano. O Complexo 24 Horas, de gestão pública, é o que mais recebe crianças por ano, mas também tem capacidade para acolher 20 crianças e adolescentes por vez.
No Brazilian Kids, o local que recebeu Emerson em Goiânia, são 21 crianças e adolescentes de 0 a 18 anos acolhidos e 20 funcionários contratados. A instituição foi fundada por Reinhard Hirtler, um missionário austríaco que pratica filantropia em diversas cidades brasileiras a partir da arrecadação de doações na Europa.

Nurya Catharine, pedagoga na instituição, fala sobre o assunto: “A maior parte das doações vem de fora por ele (Reinhard) ser de lá. Então, ele é missionário, vai em muitos lugares, em muitas cidades e as pessoas doam. A maior parte das doações é de fora”.
Uma dinâmica parecida acontece no Radicais Kids, que acolhe 20 crianças entre zero e sete anos. O prédio foi uma doação, assim como o lote. A organização foi instituída após o fechamento do Niso Prego por ordem judicial.
O Radicais Kids, apesar de receber doações da Igreja Videira, é uma instituição separada da congregação religiosa. A instituição de acolhimento já funciona há dois anos, e o principal desafio é a folha de pagamento.
“O nosso maior desafio é a folha de pagamento, são muitos funcionários. Nós estamos com trinta, cuidador, técnica, administrativos… Fora cozinha, tem mais de trinta. Temos quatro turnos de plantão, dois durante o dia e dois à noite e inclui o final de semana, é muito caro”, disse Dalva Rigonato, diretora do Radicais Kids.

O número de crianças que passou pelo acolhimento institucional em Goiânia em 2024 e 2025 chega a 703, mas as passagens variam em relação ao tempo: há crianças que ficam alguns dias e há outras que ficam anos. O número máximo de crianças por acolhimento regido por OSCs é de 20. Com as vagas todas ocupadas, o Complexo 24 Horas, o único de gestão pública, tem que receber o menor.
Veja o gráfico com as instituições de Goiânia e a quantidade de crianças que passaram por elas por ano no último biênio:

O caminho até o acolhimento
As situações que levam a Justiça a retirar uma criança do convívio familiar variam desde violência extrema até condições de pobreza. Emerson, por exemplo, tinha uma mãe viciada e precisava pedir dinheiro na rua com os irmãos para pagar o aluguel: “Nós pedíamos muito, eu acho que foi por isso que fomos pro abrigo, mas acho que foi uma boa coisa na nossa vida também”.
Ele reconhece que, no seu caso, realmente era necessária a retirada: “Eu acho que era bom, eu ser separado mesmo, porque minha primeira vez que eu fui pro abrigo morar, lá no Goiás Velho [Cidade de Goiás], nós fomos pra lá, só que nós não tínhamos moradia, nós fomos pra lá tentar alguma coisa. Aí, pedíamos na rua, não tínhamos casa”.
O presidente do Colegiado dos Conselheiros Tutelares de Goiânia, Rondinelly-Ná Barbosa, conta que essa situação de negligência é crescente em Goiânia: “A quantidade de crianças que ficam sozinhas, eu falo crianças de 4, 5 anos, que não têm condição de estar na creche, pela falta de vaga de creche, também os pais precisam trabalhar, aí eu tenho crianças de 6 a 10 anos de idade que ficam sozinhas em suas casas”.
Rondinelly também destaca o abuso sexual como um problema que se torna cada vez mais preocupante na cidade: “Nós temos os casos das meninas e dos meninos que sofrem abuso sexual que a lei garante que o agressor deveria sair, mas que a família não proporciona a segurança adequada e nem a Justiça prende imediatamente o abusador”.
O conselheiro também explica que, até chegar ao acolhimento, muitas medidas são tomadas quando o caso não é emergencial: “Os pais vão passar por uma situação de ser advertidos verbalmente, por escrito, também vão ser encaminhados para a rede de proteção da família, porque eles precisam de assistência social, nós vamos encaminhar para a educação, nós iremos encaminhar para a saúde”.
Se esgotadas todas as medidas e a situação da criança não melhorar, o processo de acolhimento é iniciado e o Ministério Público é acionado. Sobre a relação do Conselho Tutelar com o Ministério Público, Rondinelly explica: “Nós temos uma relação harmônica de muita confiança, de procurar o Ministério Público, de encaminhar todos os nossos relatórios, notícias de fatos, daquilo que precisa ser feito”.
Ele compartilha que, inclusive, para saber o que eles podem fazer do ponto de vista jurídico, o Ministério Público é consultado e complementa: “O Conselho Tutelar tem um respeito muito grande pelo Ministério Público e eles nos têm com muito respeito e confiança também. É um trabalho harmônico e muito sério, feito tanto pelo Ministério Público como pelo Conselho Tutelar”.
O promotor Ricardo Papa explica o processo de retirada das crianças do convívio familiar. Segundo ele, é preciso que seja determinado pelo juiz da Vara da Infância. Entretanto, é possível que o Conselho Tutelar realize o processo de forma emergencial, desde que informe o juiz em até 24 horas.
Ele ainda explica o processo legal: “Chegou ao conhecimento do Juiz, ou do Conselho Tutelar, e dizem: olha, é realmente inviável, não tem quem receba aquelas crianças. A família é que é o foco da violação dos direitos, então, vai para a unidade de acolhimento. Aí, o caso é comunicado para o Ministério Público, nós propomos uma ação contra os pais daquela criança ou daquele grupo de crianças”.
O promotor ainda estabelece as prioridades diante de diferentes situações: “A regra, o que que é? Preservar o vínculo familiar e promover a reintegração, quando for possível. Quando não é possível, não é. Vamos imaginar, por exemplo, uma violência sexual, uma tentativa de homicídio. Não dá para você tentar retornar aquela criança para a família, que é o foco da violência”.
Mas há situações em que a reintegração é possível: “Agora, se é uma situação de extrema pobreza só, ou alguma coisa pontual, uma sujeira, que não seja exagerada, não tem problema. É possível voltar, se for uma coisa moderada”. Ricardo também diz que, nessas situações, o Ministério Público e a Secretaria de Direitos Humanos procuram ajudar a família a se reestruturar com eventuais bolsas, ajuda para conseguir emprego ou moradia.
Sobre a realidade no Radicais Kids, Dalva afirmou: “A maioria são tiradas da rua, dos pais com problema de droga e negligência. Também tem crianças que sofrem abuso sexual. Outras sofrem abusos físicos. Pais que machucam muito elas. Mas assim, acho que a maioria é negligência”.
Também fala sobre o processo de entrega legal: “Que são as mães que engravidam e decidem que não querem o bebê. Ela vai no juizado, assina uns papéis que chamam de entrega legal. Quando ela vai para o hospital, ela já entregou o filho para adoção. Então, a mãe ganha o bebê, sai do hospital e o bebê fica. Depois o Conselho traz para nós”.
Em relação aos casos de abuso sexual, Rondinelly conta que o principal aliado do Conselho no encaminhamento é a rede de educação: “Essas crianças dentro das escolas, como elas têm um contato no dia a dia muito próximo com os profissionais, então eles conseguem identificar o comportamento, as formas que eles estão tendo, se tem alguma coisa extravagante naquela criança, sinais de estupramento, ou possíveis sinais de abuso sexual”.

Ele explica que os abusos, quase sempre, acontecem dentro de casa e são praticados pelo que o conselheiro chamou de “pessoa de acesso”. Ele explica: “É a pessoa que tem a confiança da família, que tem a confiança da criança, que convive muito próximo, que tem um elo de amizade muito próximo daquela família, é aquela pessoa que sempre tem que dar uma vantagem pra aquela família”.
Sobre o monitoramento e como identificar possíveis situações de abuso, Rondinelly afirma: “A primeira coisa que nós temos que ter é desconfiar de todos, antigamente nós tínhamos aquele negócio do vôzinho que botava a criança no copo, do tio, bonzinho que sempre colocava a criança no colo, hoje nós não podemos mais confiar nisso”. Em seguida, faz o seguinte alerta: “Identificou qualquer comportamento estranho, imediatamente precisa ser tomada uma atitude drástica e rápida, porque ou o abusador pode estar tentando, ou já conseguiu até mesmo consumar o ato, a criança dá sinal, ela dá indícios de que está acontecendo alguma coisa com ela”.
Os sinais que as crianças transmitem podem ser medo, vergonha, desconforto ou até mesmo dores físicas. Os abusadores, explica o conselheiro, praticam ameaças e fazem chantagem emocional, o que cria um ambiente de terror psicológico para as vítimas. Rondinelly conta: “Ele (o abusador) gera uma forma de oprimir essa criança ou de oprimir mesmo, vou matar seu pai, sua mãe ou seu irmão, alguma coisa ali próxima, pra causar, trazer um medo pra essa criança, pra que ela não possa falar”.
A rotina dentro do acolhimento
Emerson, ao lembrar da sua vivência no acolhimento, tem memórias antagônicas. Sobre o de Goiás Velho, o que mais marcou sua passagem por lá foi a violência que viu ser praticada contra seus irmãos. Já sobre o Brazilian Kids, afirmou: “Deus me colocou lá”.
Além de ter acesso a atendimento psicológico, acompanhamento de assistentes sociais, comida de qualidade, educação e saúde, também revela que recebeu carinho, afeto e que foi tratado como filho, tanto ele quanto seus irmãos.

Nurya explica como é a recepção e os desafios que enfrentam ao receber as crianças: “Elas chegam assim, são pessoas totalmente estranhas. Me retiraram do meu pai e da minha mãe, pode ser a pior mãe, o pior pai, pode ser agressivo, tudo… Eles chegam assim: meu pai e minha mãe eram o melhor que eu tinha. Eles chegam sem querer contato. Até que a gente consiga ganhá-los, que eles possam entender que aqui é um lugar seguro”.
Ela conta que muitos pais visitam os filhos e, alguns, conseguem se reestruturar e recuperar a guarda das crianças, após decisão judicial. Já no Radicais Kids, o principal desafio elencado foi a relação com os Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).
“O nosso maior desafio, hoje, é o funcionamento do CREAS. Porque nós precisamos do CREAS para o acompanhamento das famílias. Nosso maior trabalho aqui é o acompanhamento das famílias. É a procura da integração familiar”. Foi dito que há poucos funcionários e acaba não sendo possível acompanhar todas as famílias da forma devida.
Em ambos os locais, as crianças têm uma rotina compartilhada e também individual, tanto para alimentação quanto para escola e atendimento psicossocial. Há estruturas voltadas para o lazer também, como parquinho, campos de futebol e espaços de convivência.
Rondinelly conta que uma das funções do Conselho Tutelar é fiscalizar o Executivo e que as crianças que vão para o acolhimento são acompanhadas individualmente. Ele explica que Goiânia vive um problema com a estrutura e a mão de obra dos Conselhos Tutelares.
O ideal seria ter pelo menos 15 conselhos para atender uma população do tamanho da capital Goiânia, mas aqui há apenas seis, com cinco conselheiros cada, ou seja, 30 no total. Além disso, eles não têm acompanhamento psicológico, não têm seguranças e precisam lidar com situações que exigem esse tipo de apoio. Rondinelly exemplifica: “Para você ver, eu sou pai de menina, eu chegar em casa e ver uma menina estuprada, pegar uma menina estuprada, isso aí, você tá doido… Isso aí acaba com o nosso psicológico. Dá vontade de chorar”.
Quanto é investido nas crianças acolhidas?
A Prefeitura de Goiânia promete um repasse de um salário mínimo por criança. Entretanto, ambas as gestões de acolhimentos institucionais (Radicais e Brazilian Kids) alegam que esse valor não é suficiente e que eles ainda não começaram a receber.
O Mãe Zeferina recebe um apoio da Prefeitura no valor próximo de mil reais por criança ao mês. Ao todo, a Prefeitura de Goiânia informou ter investido R$ 458.531 em serviços de alta complexidade voltados a crianças e adolescentes. O valor não se restringe ao acolhimento institucional e inclui outras modalidades de atendimento.
Apesar do aumento no número de acolhimentos, o orçamento destinado à alta complexidade para crianças e adolescentes caiu. Em 2024, Goiânia destinou R$ 230.717,41 para a área. Em 2025, o valor foi de R$ 227.814,18.
Segundo a Secretaria, o Ministério do Desenvolvimento Social repassou R$ 164 mil a Goiânia em 2025 para investimentos no acolhimento institucional. Considerando apenas os recursos federais e a rotatividade das crianças nos acolhimentos (a média de crianças acolhidas de forma constante fica em 65), o valor equivale a cerca de R$ 2.500 por criança ao longo de um ano. A verba federal, no entanto, é complementada por recursos do Estado e próprios da Prefeitura.
Sobre os repasses que ainda serão feitos pela Prefeitura, Dalva afirmou: “Dá para a gente pagar treze funcionários e meio. Mas, assim, para quem não recebia nada…”. Nurya também faz as contas, e um salário por criança não daria para pagar a folha de salários e ainda faltaria dinheiro para comida e outros gastos.
A vida após o acolhimento
Rondinelly conta que muitas famílias que têm seus filhos acolhidos conseguem se organizar para reaver a guarda: “A grande maioria tenta, pelo menos se esforça, a tentar mudar de vida. Tem um aspecto melhor de vida”. Ele também conta que, após o acolhimento, é realizado um acompanhamento específico pela Prefeitura, mas há falhas nessa rede de proteção: “A criança é a obrigação de todos. Todos precisam fazer o melhor. E quando a criança sai de uma instituição de acolhimento, ou quando ela vai para uma instituição de acolhimento, isso já está claro, ficou esclarecido que o Estado falhou. Não só a família, o Estado também deixou de proporcionar alguma coisa para essa criança”.
Dalva Rigonato, do Radicais Kids, diz que, na sua experiência, a maioria das crianças vai para a família extensa, ou seja, é criada por avós, tios ou irmãos. Outras, a menor parte, ou são adotadas ou voltam para a família de origem.
Nurya conta que, depois dos sete anos, a adoção fica muito improvável: “A maioria das pessoas querem bebê”, afirma. Sobre os processos de adoção, o promotor conta: “O Ministério Público, ele fiscaliza 100% dos processos de adoção”.
Ainda complementa sobre as determinações passadas às instituições: “Nós temos uma postura muito clara com relação às unidades de acolhimento. Não [colocar] voluntários que estejam interessados em adotar. Por quê? Eles começam a se apegar a determinadas crianças e aí começam a se chamar de papai, de titia. Aí, eles vão e se utilizam disso pra furar a fila que está prevista em lei, que é do Sistema Nacional de Adoção”.
Emerson, até por ter sido acolhido depois dos sete anos, chegou à maioridade no Brazilian Kids. Ao ser questionado se guardava rancor de sua mãe, ele respondeu: “Eu não tenho mais contato com ela. Acho que não tenho mais sentimento, mas se um dia encontrar de novo, vou tentar falar alguma coisa, mas eu acho que o sentimento por ela sumiu”.
A instituição que cuidou dele até os 18 anos encontrou um parceiro para ajudá-lo a pagar o aluguel até ele conseguir um emprego. Emerson está treinando para se tornar cabeleireiro em um spa no Alphaville (onde diz também ser tratado como filho), vai à igreja e o sonho da sua vida agora é construir a própria família e cuidar dos filhos.
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