“Discussão sobre novo Plano Diretor de Goiânia deve ser comandada pela sociedade”

Vereador eleito pelo PSL diz que lutará por maior transparência na Câmara para evitar interferência de setores privados

Vereador eleito durante entrevista ao Jornal Opção: será oposição responsável | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Vereador eleito durante entrevista ao Jornal Opção: será oposição responsável | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

O advogado Lucas Kitão (PSL), de apenas 25 anos, foi eleito vereador por Goiânia com uma votação que surpreendeu até ao próprio: 4,5 mil votos. Empunhado das bandeiras da renovação e da luta pela juventude, ele pretende levar maior participação popular à Câmara.

Em entrevista ao Jornal Opção, o neoeleito defendeu o uso das redes sociais e de ferramentas online para reaproximar o Legislativo da sociedade. Para ele, o fraco desempenho dos atuais vereadores na eleição de 2016 (apenas 13, de 35, se reelegeram) foi um alerta a todos.

Apoiador das parcerias com o terceiro setor, Kitão quer apresentar projetos que auxiliem na qualificação profissional — em especial de jovens — e que incentivem os cidadãos a ocupar os espaços públicos.

Regulamentação do Uber, parcerias com OSs e implementação do IPTU progressivo também contarão com o apoio do vereador eleito.

Alexandre Parrode – Nós teremos uma renovação na Câmara de Goiânia, apenas 13 conseguiram se reeleger, como o sr. avalia isso?
Foi melhor do que esperávamos, muito positivo para a cidade e acredito que será uma boa legislatura.

Quais suas principais bandeiras?
Chegamos à Câmara com muita independência, sem apoio do poder econômico. Nosso mandato será focado no coletivo, promovendo debates que engrandeçam a cidade e usaremos da nossa independência para discutir os problemas atuais, que são muitos. Falta planejamento, gestão. Temos que auxiliar, em especial, na questão econômica. Para melhorar a qualidade de vida, temos que focar na geração de emprego e oportunidades. Acredito que só melhoraremos a questão da segurança com educação — é a chave de tudo. Os CMEIs, por exemplo, temos que avançar muito.

Alexandre Parrode – Qual a maior demanda da população de Goiânia hoje?
Andei em todas as regiões da capital e a prioridade sempre foi segurança pública. Por outro lado, não é responsabilidade do município, mas não podemos nos furtar deste debate. Podemos usar a guarda municipal, integrada ao trabalho das polícias civil e militar, cobrar uma melhor iluminação das vias e incentivar à população a ocupar os espaços públicos. Temos projetos para revitalizar praças, em parceria com setor privado e com a própria sociedade. O mais importante é retomar a qualidade dos serviços públicos. Isso é uma grande reclamação dos cidadãos. Desde a coleta de lixo até iluminação. Não veem o retorno dos impostos que pagam. O que podemos fazer para melhorar é auxiliar a prefeitura a superar desafios, como as próprias vagas na educação básica.

Bruna Aidar – Falta segurança e infraestrutura para as pessoas ocuparem os espaços públicos. E ainda há um projeto do Executivo que propõe vender as pontas de quadra de Goiânia, que, na prática, permitirá que as praças do Setor Sul sejam vendidas. Como o sr. avalia isso?
É um debate que devemos levar para a sociedade. Vender praças, cercear o espaço público nunca é positivo. Com certeza darei atenção especial a esse tema, se chegar à Câmara, pois já tive informações que não prosperaria.

Alexandre Parrode – O Jornal Opção, durante o ano passado, acompanhou de perto a CEI das Pastinhas, uma comissão da Câmara que desnudou o setor imobiliário da capital e revelou um esquema dentro da Secretaria de Planejamento. Como enfrentar o poderio das grandes construtoras que acham que mandam na cidade?
Independente de ser oposição ou base, temos que defender a contratação de profissionais qualificados, quadros técnicos, muito ao contrário do que vemos hoje. As secretarias estão ocupadas por companheiros, em vez de especialistas. Defendo que indicação do secretariado deve ser consultada. Por exemplo, o secretário de Planejamento: por que não chamar os conselhos de arquitetura, engenharia, para auxiliar na escolha? Não estou dizendo para que os órgãos indiquem, até porque sei bem que tem que ser alguém de confiança do prefeito. Mas, que o prefeito consulte profissionais da área, justamente para evitar que leigos estejam nas áreas estratégicas.

Minha campanha não foi patrocinada por grupos econômicos, sou cristão, mas não defendo segmentos religiosos. Quem me elegeu foi a sociedade que quer mudanças, os jovens que não se sentiam representados. Por isso digo que sou independente. Quero trabalhar junto à sociedade e ajudar o desenvolvimento, a geração de emprego. Sempre digo que a prefeitura ajuda o setor produtivo não atrapalhando. A burocracia emperra o desenvolvimento. Um amigo meu, que tem uma cozinha industrial, ficou pagando três meses de aluguel sem poder trabalhar porque a vigilância sanitária não tinha um fiscal para ir lá.

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Fotos: Fernando Leite

Bruna Aidar – Como governar junto à população? Porque vemos um Legislativo cada vez mais distante da sociedade.
Temos diversos mecanismos para ouvir os cidadãos. As redes sociais deixaram isso ainda mais fácil. Façamos audiências públicas, é isso que defendo. O Senado e a Câmara utilizam bem a ferramenta no site de consulta popular… Vamos trazer isso para cá. É possível.

Alexandre Parrode – Na última legislatura tivemos vários projetos como “Dia da Pamonha”, ‘Dia de Ação de Graças”, quer dizer, propostas que não tem resultado à população e acabam maculando a imagem do Parlamento. Como superar a imagem desgastada da Câmara?
A resposta veio das urnas… Uma renovação maior do que muita gente acreditava. A saída é reaproximar das pessoas, deixar o proselitismo de lado. Tão logo comece meu mandato e vou apresentar um projeto que considero muito importante, que aumenta a autonomia dos vereadores, mas prefiro não adiantar todo o teor. Quero devolver à Câmara o poder que ela tem.

Importante ressaltar que, durante minha campanha, fiz questão de colocar meu número pessoal em meu santinho, para que as pessoas possam me cobrar e tenham esse contato direto.

Alexandre Parrode – Qual seu posicionamento com relação ao Uber? Há dois projetos na Câmara atualmente: um que, na prática, proíbe; e outro que regulamenta.
Sou usuário do serviço e acho extremamente importante para a sociedade. Até me lembrei de uma frase que um professor que me disse uma vez: “A sociedade anda de elevador; o poder público, de escada”. Ou seja, nada mais justo que reconhecermos este avanço da sociedade. Mas, claro, sem desmerecer os taxistas.

Bruna Aidar – Até porque o problema não é o motorista de táxi, mas sim os donos de permissão, que as vezes tem muito mais que só uma. Nas feiras também acontece o mesmo, donos de bancas que alugam as barracas.
Sim. Por isso que defendo que temos que regulamentar o Uber, colocar a empresa para pagar o ISS [Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza] e beneficiar os motoristas goianienses.

Alexandre Parrode – Outro tema que também estará na pauta em 2017 é a revisão do Plano Diretor de Goiânia. O grande desafio, segundo especialistas, é que o projeto de 2007 era bom, só que nunca conseguiram regulamentar as leis.
Bom, acho que o mais importante é conseguir implementar as mudanças necessárias para o futuro de Goiânia. Sabemos que muito mudou de dez anos para cá e o novo plano tem que estar de acordo com o que se espera da cidade. Temos que ter planejamento, o que não tem acontecido… Teremos que ser mais técnicos do que políticos.

Alexandre Parrode – Na teoria é isso mesmo, mas, em 2007, por exemplo, houve muita pressão, em especial do setor imobiliário. Como superar esse jogo de interesses?
Acho que é basicamente com o que eu havia proposto antes: participação popular. O novo Plano Diretor deve ser comandado pela sociedade, é o povo quem deve decidir o futuro da cidade, acho que vereadores são apenas interlocutores. Não devem estar ali para atender interesses escusos.

Alexandre Parrode – Qual sua visão sobre privatizações, parcerias público-privadas e Organizações Sociais?
Eu defendo que a prefeitura repasse resposabilidades. Querendo ou não, é fato que a administração não dá conta de atender a todas as demandas. Se fiscalizasse mais que executasse, acredito que seria bem melhor. Executivo, para mim, deve ter papel moderador. Tenho muito cuidado para falar sobre essa tema porque hoje existe um preconceito muito grande. Falou que é OS é sinônimo de desvios.

Alexandre Parrode – Mas é notório que os hospitais do Estado melhoraram com a parceria, não é? A população sente isso.
Sim. É uma resistência muito mais dos servidores, que do público. Mas é falta de diálogo. É melhor para os funcionários também. Defendo parcerias com o terceiro setor, sim. Minha monografia foi sobre isso, trabalhei na Casa Civil à época da implantação das OSs nos hospitais estaduais, acredito que são projetos de sucesso.

A propósito, a Pinacoteca de São Paulo e o Museu do Futebol, dois equipamentos públicos que deram muito certo, são geridos por OSs. Então, acho que o modelo é bom, contudo, pede muita fiscalização

Vereadores durante reunião da CEI das Pastinhas em 2015: Lucas Kitão garante que não sucumbirá aos interesses do setor imobiliário | Foto: Marcello Dantas

Vereadores durante reunião da CEI das Pastinhas em 2015: Lucas Kitão garante que não sucumbirá aos interesses do setor imobiliário | Foto: Marcello Dantas

Bruna Aidar – Há um tema que marcou muito essa gestão, que foi justamente o reajuste do IPTU/ITU. Houve propostas absurdas de aumento e, inclusive, uma aprovação de um projeto em um domingo. No ano passado, o prefeito Paulo Garcia (PT) conseguiu emplacar uma atualização de alguns endereços, mas bem longe do imposto progressivo — que está previsto no Estatuto das Cidades e no Plano Diretor.
Sou a favor de imposto progressivo e, sobretudo, de justiça tributária. Só que não dá para ficar fazendo como o prefeito tem feito aqui: tudo improvisado. Por exemplo, ele prefere aumentar a alíquota a atualizar a planta de valores. Nossa planta está desatualizada há 20 anos. Em vez de promover um estudo, que demanda mais tempo e trabalho, para corrigir o valor venal dos imóveis, não, apenas reajusta. Não é assim que se faz.

Alexandre Parrode – O sr. acredita que a nova legislatura vai conseguir avançar nesses aspectos? Cobrar do prefeito eleito [Iris Rezende]?
Tem tudo para que isso aconteça. Primeiro, porque a renovação foi grande. Segundo, porque os políticos começam a entender o recado das urnas. Da minha parte, farei o que for possível, não vou partidarizar discussões. Agora, sem hipocrisia nenhuma, meu partido é Goiânia.

Bruna Aidar – Qual o maior desafio com os jovens de hoje?
Nós somos 30% da cidade e não temos representantes na Câmara de Goiânia. Nosso maior interesse é levar essa juventude para a política, pois é a única maneira de melhorar o Brasil.

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