Dia da Mulher: “Estão tomando de assalto esta data”

Nada de flores ou bombons. Doutora em Antropologia Social fala ao Jornal Opção sobre apropriação mercadológica de um dia destinado para rememorar a luta feminina

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De acordo com Luciene Dias, a mulher precisa compreender o que o mercado faz com a data ao transformar a importância histórica do 8 de março em um mero impulsionador do consumo e da figura estética feminina | Foto: Reprodução/UFG

Bruna Aidar e Augusto Diniz

“Enquanto mulheres, devemos ter inteligência para tomar esse assalto da data pelo mercado, principalmente, para marcar nosso lugar.” Luciene Dias, doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora e coordenadora de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Goiás (UFG), não há problema no fato de a mulher cuidar de sua beleza, desde que isso seja feito para ela, e não para satisfazer uma necessidade estética como algo feminino.

Para Luciene, é preciso entender o “roubo” que a sociedade de mercado comete contra a mulher. “Estão tomando de assalto essa data, jogando pro lado mercadológico. Acontece isso muito com datas quando está se falando de subalternidades, das mulheres, da negritude, por exemplo”, explica.

O 8 de março, Dia Internacional da Mulher, não pode deixar de lado uma contextualização histórica, desde a sua criação, proposta em lembrança às lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres.

“É claro que o resgate histórico, a historicização da data é fundamental para a gente rememorar. Mas acho muito legal fazer uma análise da importância desta data histórica pelo contemporâneo. Estas datas têm um potencial para nos chamar a pensar nossa conjuntura, pensar políticas eficientes”, destaca a pesquisadora.

Desvio

De acordo com Luciene, o desvio da importância da data com uma proposta mercadológica da mulher que ganha flores, que se embeleza, deve ser levado como um marcador do quanto o Dia Internacional da Mulher ainda é importante. “A mulher ainda vive uma condição de subalternidade e são batalhas de longa data, a gente tem muita coisa para vencer ainda.”

Desde a condição de subalternidade e as batalhas de longa data, como a igualdade nos postos de trabalho, da função ao salário pago, e o respeito à capacidade feminina, devem ser discutidas, segundo Luciene. “A mulher não pode ser consumismo, queremos mais que isso: queremos equidade, leis que sejam contra a violência contra a mulher, oportunidades”, exemplifica.

Sobre a tentativa de fragilizar a mulher com o discurso do “dê presente às mulheres da sua vida”, “leve uma flor no dia 8 de março” ou “a trate com carinho”, a pesquisadora é direta: “Tentam passar que mulher é estética. Historicamente, nossos corpos estiveram à serviço de homens que nos viam pela ótica estética”.

Reconhecimento como mulher

“Cuidado envolve solidariedade, engajamentos, envolve eu me reconhecer como mulher, reconhecer outras como mulheres e pensar o que a gente precisa de fato para se cuidar. Queremos ter um corpo bonito, queremos estar perfumadas, mas de acordo com a nossa concepção do que é beleza e de como nos sentirmos bem com nós mesmas”, pontua Luciene.

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