Defesa de policial acusado de matar Valério Luiz pede exame de insanidade mental

Em laudo obtido com exclusividade pelo Jornal Opção, policial reformado conta que “um homem o persegue” e que “já atirou em alucinação”

PM é acusado de ser um dos responsáveis pelo assassinato do cronista Valério Luiz, executado em 2012 na porta da rádio em que trabalhava | Foto: Divulgação

A defesa do policial militar Djalma Gomes da Silva, um dos cinco indiciados por planejar e assassinar a tiros o cronista esportivo Valério Luiz,  solicitou à Justiça a instauração de um “incidente de insanidade mental”, ou seja, que o acusado seja submetido a exames psicológicos pela Junta Médica do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO).

O pedido chegou ao juiz Lourival Machado da Costa no dia 5 de março, quase um ano depois do policial ter sido reformado pela PM goiana, conforme o Jornal Opção apurou no Diário Oficial de 16 de maio de 2017.

Aos 43 anos, e 19 anos na PM, da Silva foi reformado por, segundo o texto do decreto, “o servidor militar ter sido julgado incapaz definitivamente para o serviço policial militar pela Junta Central de Saúde”, tendo sido retirado, inclusive, o porte de arma.

Djalma da Silva, no entanto, começou a ser acompanhado em 28 de novembro de 2014. O Jornal Opção apurou que, antes de ser afastado definitivamente das ruas, e depois do assassinato do radialista, Da Silva foi internado pelo menos duas vezes em clínica psiquiátrica. Em uma delas, o Hospital Espírita Eurípedes Barsanulfo, em 25 de agosto de 2016.

Delírios

No laudo médico que serviu de base para o pedido junto à 2° Vara de Crimes Dolosos Contra a Vida para o “incidente de insanidade mental”, o neurologista e psiquiatra Leonardo da Silva Prestes afirma que o policial apresenta “transtorno delirante persistente, com alucinações visuais e auditivas, associado a irritabilidade, crises de disforia intensa, delírios”.

Ainda no relatório, o médico aponta que essas crises provocam no PM “fabulações” e alucinações”, o que fazem com que ele acredite que “um homem o persegue continuamente”. Em abril de 2016, ele teria contado ao psiquiatra que existiria “um complô envolvendo a pax [funerária] e a Polícia Militar para tirarem sua vida”. Ao Jornal Opção, o médico resumiu: “É um caso grave. Não posso dizer mais nada”.

Em uma consulta no dia 28 de novembro de 2014, da Silva revelou que desde 1999, dois anos depois de iniciar carreira na PM, começaram os episódios de alucinações visuais e auditivas. Em 2004, o policial “chegou a atirar na alucinação”, diz o histórico. No dia 4 de março de 2016, a acusado passou por sessões de eletroconvulsoterapia (ECT) – método de choques de pequena voltagem nas têmporas.

O mesmo laudo é utilizado em processos de  “incidente de insanidade mental” por outros dois crimes. “Um na Auditoria Militar por lesão corporal e outro no interior [de Goiás] por tortura.”

“Apesar de [Djalma Gomes da Silva] estar sendo submetido a tratamento, o acusado ainda se encontra abatido, com síndrome do pânico, amnésia, toc, estresse, pressão alta e todas as doenças específicas no relatório do médico psiquiatra”, escreve a defesa. “Completamente incapaz de entender a persecução penal que o rodeia, inclusive sem noção de tempo e espaço, necessitando de amigos e familiares para acompanhá-lo”, complementa o documento.

Para o filho do radialista assassinado e advogado assistente de acusação, Valério Luiz Filho, o pedido de “incidente de insanidade mental muda a tese defensiva de negativa de autoria para inimputabilidade, ou seja, em uma indireta confissão do crime”. 

Reformado pela PM, Djalma Gomes da Silva tenta alegar “insanidade mental” na Justiça| Foto: Divulgação

O advogado de defesa, José Coelho de Oliveira, contudo, nega. “É bom frisar que a defesa permanece a tese inicial de negação de autoria”. Para o representante do acusado, “os laudos deixam claro que o meu cliente tem problemas psicológicos”. “Agora, aguardamos que a Junta Médica do Tribunal de Justiça marque o exame e, no Júri, apresentemos aos jurados se da Silva é parcial ou absolutamente inimputável”, disse à reportagem.

O crime

Da Silva, que tem seu comportamento na ficha funcional da corporação classificado como “excepcional”,  foi denunciado pelo Ministério Público como um dos articuladores do crime que matou Valério com cinco tiros quando o cronista saía da rádio em que trabalhava, no dia 5 de julho de 2012, em Goiânia. O policial, conforme a acusação, teria sido um dos articuladores do assassinato e agido para dificultar as investigações.

Ainda não há data definida para o júri dos acusados do crime, o presidente do Atlético Goianiense, Maurício Sampaio, que é apontado como mandante, Urbano de Carvalho Malta, Ademá Figueiredo, o açougueiro Marcus Vinícius e Djalma Gomes da Silva.

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