A Copa das Copas foi o triunfo da miscigenação

Se há algo que nenhum brasileiro deveria esquecer ou ignorar é a conquista da Copa de 1958. Mas talvez sejamos o único país no mundo que tem o prazer masoquista de rememorar o fracasso

Gilberto Marinho
Especial para o Jornal Opção

O capitão Bellini segura a Taça Jules Rimet em 1958: o segundo descobrimento do Brasil / Fotos: Reprodução

A história das Copas pode ser dividida em três períodos. A fase inicial, com as Copas de 1930, 1934 e 1938 servindo como ensaio para aquele que viria a ser considerado “o maior espetáculo da Terra”. Interrompida pela 2ª Guerra Mundial, a Copa ressurgiria em 1950, no Brasil, inaugurando a fase de afirmação como maior evento esportivo do mundo, abrangendo as Copas de 1950, 1954, 1958 e 1962. E a fase da Copa como um grande negócio, a partir de 1966.

Na fase inicial, de 30 a 38, e na fase de afirmação, de 50 a 62, ainda havia a predominância do espírito esportivo, um certo cavalheirismo, com a expectativa de que vencesse o melhor. A partir de 1966, porém — como a organização da Copa se tornou um grande negócio —, fatores extracampo, interesses políticos e financeiros, passaram a pesar no resultado da competição. Em 66 e 98, por exemplo, os países-sede, Inglaterra e França, vislumbraram aquela que, talvez, seria a única chance de se sagrarem campeões do mundo. E tudo fizeram para não perder essa chance. E não perderam. O mesmo se deu em 1978. Jogando em casa e num evidente arranjo político-financeiro, com arbitragens capciosas e com a seleção peruana se vendendo comprovadamente aos anfitriões, a Argentina conseguiu se sagrar campeã pela primeira vez.

Quinhentos anos após o descobrimento, uma análise da trajetória do Brasil nas Copas mostra que ainda não nos libertamos do colonialismo. Ainda permanecemos mentalmente colonizados. Na economia, o país é mero fornecedor de alimentos e de matéria-prima para o mundo. Do ponto de vista social, continuamos padecendo de vários males do colonialismo, de modo especial da falta de um forte sentimento de pertencimento patriótico e de elevados níveis de analfabetismo e de analfabetismo funcional.

Entramos no século 20 ostentando a elevada taxa de 65% de analfabetos. Poucos sabem que foi o Clube Militar do Rio de Janeiro que deu um dos primeiros gritos de alerta contra essa amarra mental. Em 7 de setembro de 1915, o Clube Militar, consciente da gravidade da situação como fator impeditivo para o desenvolvimento cultural, político, econômico e social do Brasil, instituiu a Liga Brasileira Contra o Anal­fabetismo, desencadeando uma mobilização em outros setores da sociedade e provocando um importante debate político, uma vez que o Rio era a capital do País. O somatório das ações em torno dessa questão proporcionou uma queda de 15% na taxa de analfabetismo entre 1900 (65%) e 1950 (50%).

Gotemburgo, 1958: Seleções de Brasil e União Soviética perfiladas antes do início da partida que juntaria Pelé e Garrincha pela primeira vez em uma Copa do Mundo

Gotemburgo, 1958: Seleções de Brasil e União Soviética perfiladas antes do início da partida que juntaria Pelé e Garrincha pela primeira vez em uma Copa do Mundo

E foi assim que chegamos em 1950. A nossa economia se sustentava apenas na exportação do café. Ainda estávamos com um pé na senzala. O Brasil era um país de camponeses mestiços, com baixíssimo nível de instrução. Cerca de 50% da população com mais de 15 anos eram de analfabetos, sem contar os analfabetos funcionais. É nesse cenário que se desenrolou um capítulo de nossa história futebolística que os arautos do atraso, da falta de cultura e de instrução rasa insistem em celebrar. O Brasil talvez seja o único país no mundo que tem esse prazer masoquista de rememorar o fracasso e exaltar os feitos dos adversários, em vez de celebrar as suas grandes vitórias e seus verdadeiros heróis.

Um dos maiores jogadores de todos os tempos, o holandês Johan Cruijff, afirmou em uma entrevista, que o futebol mostra a psicologia de um povo. O futebol seria uma espécie de linguagem corporal. Dessa forma, vão para dentro de campo todos os aspectos positivos e negativos de um povo. A racionalidade dos alemães, a agressividade dos ingleses, o fatalismo dos portugueses, a passionalidade dos italianos e a soberba dos argentinos são sinais que saltam aos olhos. Mas é fácil falar sobre os defeitos ou qualidades dos outros. E quanto a nós, brasileiros? O que diz sobre nós o futebol que praticamos? Herdamos algo do fatalismo dos portugueses?

Embora a história das Copas nos seja amplamente favorável, tanto pelo número de títulos quanto pelo grande esforço empreendido para superar amarras de nossa herança colonial, os comentaristas esportivos preferem reforçar a mentalidade derrotista, repetindo infinitamente as lamúrias (fado?) pela derrota de 1950, do que exaltar as vitórias de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Preferem, também, cantar em prosa e verso o fracasso das seleções de 1982 e 1986 que, segundo eles, “perdeu, mas jogou bonito”. Frase cínica. A Copa do Mundo, evento no qual uma seleção tem apenas seis jogos para chegar à final, não é espetáculo, embora pretendêssemos que fosse. A Copa é uma competição.

Ghiggia vira o jogo para o Uruguai: era o Maracanazo

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Sob uma análise racional, a nossa seleção perdeu em 1982 e 1986 porque mereceu perder. Perdeu por seus próprios defeitos. Os jogadores foram individualistas e egoístas, não tiveram espírito de equipe. Era cada por si. Zico, que deveria liderar, saiu do Brasil preocupado em voltar consagrado como “o maior jogador da Copa”, como ele mesmo declarou aos jornalistas. Sócrates, que era bajulado pela imprensa por ser letrado, caía dentro de campo demonstrando uma má forma física decorrente de sua queda pelos destilados. E, ambos, em 1986, erraram pênaltis que foram determinantes para a eliminação do Brasil diante da França.

 

No jogo contra a Itália, em 1982, tínhamos a vantagem do empate diante de uma seleção que vinha aos trancos e barrancos e quase não passara da 1ª fase, empatando os três primeiros jogos. Naquele ano, sem dúvida, tínhamos um time melhor do que os italianos. Bastava apenas jogar sério. O jogo era eliminatório. Mas, contando com a vantagem do empate, o que se viu foi uma grande disputa de egos. Todos foram para o ataque, querendo fazer o gol consagrador. Os dois laterais eram atacantes. O meio-de-campo Cerezo era o “volante-artilheiro” que chutava no gol. Foi por essa “qualidade” que tomou o lugar de Batista, do Grêmio, volante combativo e incansável que dava cobertura às subidas dos laterais. No fim das contas, ficavam na defesa apenas o goleiro e os zagueiros Oscar e Luisinho. Para completar o quadro tragicômico, o zagueiro Luisinho era elevado às alturas pelos comentaristas esportivos como símbolo do jogador clássico, um jogador de defesa que jogava bonito e tomava a bola do adversário, sem fazer falta. Para corresponder a essa imagem, tanto não fez faltas que o jogador que ele deveria marcar, Paolo Rossi, fez os três gols da vitória italiana.

caderno 2

Paolo Rossi marca para a Itália, na “tragédia” do Sarriá, em 82/ Fotos: Reprodução

Mas, qual a relação entre colonialismo, analfabetismo e futebol? Em pleno século 21, o Brasil é um país onde professores da educação básica rimam filosofia com porcaria, ministrando aos seus alunos os “ensinamentos” de Valesca Popozuda et alli, e rasgam o livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, do filósofo Olavo de Carvalho, diante de seus alunos. Se o nível de inteligência de alguém que é responsável por instruir a juventude é tão raso assim; se na Educação ainda imperam ideias ultrapassadas dos anos 60, o que esperar dos 75% de analfabetos e analfabetos funcionais? Nada menos do que celebrar a derrota, a fracassomania, como uma forma de confirmar a nossa condição de vassalagem, de submissão — o decantado complexo de vira-latas.

A pedagogia dominante no Brasil combate a meritocracia. Não se ensina à juventude a pensar, nem que errar é humano, mas que é preciso aprender com os erros para não repeti-los. Decorridos 64 anos, desde 1950, qual a lição que aprendemos? Nenhuma. Então, a derrota de 50 não serviu para nada. Algumas lições que não aprendemos: não se pode menosprezar o adversário; não cantar vitória antes da hora; que futebol é competição e jogo de equipe e, como em todos os empreendimentos humanos, é preciso ser encarado com seriedade, organização e planejamento. Assim, é inconcebível que, diante da patente falta de organização e de planejamento como esta que estamos vendo nos preparativos do País para a Copa de 2014, o coordenador-técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, faça declarações do tipo “estamos com uma mão na taça” e que “o time campeão do mundo” chegou à concentração da Granja Comary. Seria a Copa do Mundo um jogo de resultados arranjados, como acontece no boxe, UFC, sumô e outros esportes? Há adversários de peso em nosso caminho que podem ter outras pretensões. Argentina, Espanha, Itália e Alemanha, por exemplo, não são como a seleção peruana de 1978.

A história do Brasil nas Copas deveria nos ensinar que temos de nos libertar desse colonialismo mental e ter orgulho de sermos como somos. Além da língua e dos limites territoriais – que nós temos o dever de preservar, a qualquer custo –, outro grande legado dos portugueses foi a miscigenação. Não somos brancos, negros ou índios, como a política segregacionista vigente quer impor. Somos tudo isso ao mesmo tempo. Quem pode garantir que é totalmente negro ou totalmente branco no Brasil? Brasileiros é o que somos. Foi esse caldeamento de várias raças que nos tornou aptos para a prática do futebol, um esporte que exige a união de habilidade individual e a capacidade de atuar em equipe. Foi a miscigenação que nos deu Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo, a linha de atacantes que todo país gostaria de ter. Em vez de chamar presidiários de heróis, são esses atacantes, juntamente com os defensores Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos e Zito que são os verdadeiros heróis nacionais dos quais devemos nos orgulhar, celebrar e jamais deixar cair no esquecimento.

Se há algo que nenhum brasileiro deveria esquecer ou ignorar é a conquista da Copa de 1958. A mais importante de todas, porque foi a primeira. Porque revelou Pelé ao mundo. O atleta do século 20, o maior jogador de todos os tempos. Mostrou também Garrincha, “o gênio das pernas tortas”.

O dia que deve ser lembrado é 29 de junho de 1958. O dia do redescobrimento do Brasil. Em Goiânia, externando um sentimento de felicidade que nunca haviam experimentado antes, as pessoas saíram às ruas, com latas d’água, jogando água umas nas outras. O país estava, literal e instintivamente, lavando a alma. Treze anos após o final da 2ª Guerra Mundial, em plena Escandinávia, na terra dos loiros, de olhos azuis, fazendo um contraponto a “O Triunfo da Vontade”, filme de Leni Rie­fenstahl premiado no Festival de Veneza de 1936, a conquista da Copa de 1958 foi o triunfo da miscigenação.

Gilberto Marinho é jornalista e graduado em Psicologia.

Futebol é cultura

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O Milagre de Berna
Título original: Das Wunder von Bern
Alemanha, 2003
Gênero: Drama
Diretor: Sönke Wortmann
Com: Louis Klamroth, Peter Lohmeyer, Johanna Gastdorf, Sascha Göpel,

Menos de uma década depois do fim da guerra em que acabou dilacerada, os alemães superariam limites para vencer a Copa de 54, vencendo a incrível Hungria do gênio Puskas. Em meio a isso, o filme conta a história de uma família que têm de lidar com o novo momento do país e do mundo.

Tocantins_1885.qxdNA PRATELEIRA

O Jogo Bruto das Copas do Mundo
Autor: Teixeira Heizer
Editora: Manual X
Páginas: 336

A história de todas as Copas do Mundo, desde a primeira, em 1930, é o objetivo do livro do veterano jornalista Teixeira Heizer. Ele utiliza o conhecimento adquirido na convivência com técnicos (Flávio Costa, Zezé Moreira e Telê Santana, entre outros) e jogadores (entre eles Pelé, Leônidas da Silva, Zizinho, Ademir Menezes e Nilton Santos) para detalhar cada evento, com atenção especial à participação do Brasil.

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