Por Isabela Preto Junqueira

Tem uma coisa sobre certas DJs que não dá pra explicar só pela técnica. É presença. É clima. É o tipo de energia que faz você ficar mais um pouco — mesmo quando já estava indo embora.

A Gabi Matos é assim.

Nascida no Pará e construída em Goiânia, ela opera nesse lugar que eu gosto de chamar de Brasil Central expandido — esse território atravessado por migrações, onde o Norte nunca vai embora completamente e o Centro-Oeste nunca é só interior. E talvez seja justamente por isso que o som dela não cabe em uma prateleira só.

Tem pesquisa ali, e dá pra perceber. Não é um set montado pra agradar algoritmo. É escuta de repertório, de território, de memória. Guitarrada, tecnobrega, piseiro, carimbó, lambada, sertanejo, cumbia… tudo aparece, mas nada como citação. É continuidade.

Mas o que mais me interessa na Gabi não é só o que ela toca. É o que ela articula.

Ela organiza. Conecta. Cria cena.

A atuação dela com o coletivo Selvática, por exemplo, não é só sobre festas — é sobre reposicionar mulheres na cabine, no line-up, na curadoria, no comando. E isso muda tudo. Muda quem toca, quem dança, quem se vê ali.

E tem uma camada que acho muito bonita: essa força do feminejo como referência política e sensível. Não no sentido superficial, mas como linguagem que abriu espaço pra mulheres ocuparem o centro da narrativa — e não só o refrão. Marília Mendonça talvez seja a chave mais evidente disso. Existe uma linha invisível que liga essa virada no sertanejo à possibilidade de outras mulheres também se organizarem, se afirmarem e criarem seus próprios circuitos.

A Gabi faz parte disso.

E aí entra o Piranhão.

Porque não dá pra falar da trajetória dela sem falar da festa. Em algum momento, as duas coisas deixam de ser separadas. A Gabi não toca no Piranhão — ela é o Piranhão.

Ela é a cara da festa de rua, do carnaval fora de época, do corpo suado que não quer ir embora. Existe uma dimensão performática ali que não está só no som, mas na presença. No figurino. No gesto. No jeito de ocupar o espaço. Eu lembro exatamente do dia em que a gente se encontrou pela primeira vez — a gente estava com o mesmo look. E aquilo virou uma conversa, depois parceria, depois criação. Aos poucos, fui acompanhando ela construir figurinos, testar possibilidades, pensar a imagem como extensão da pista. Porque, pra Gabi, tudo comunica.

E comunica muito.

A vida noturna em Goiânia acontece em muitos lugares, para muitos públicos, com muitas propostas. Mas o que a Gabi faz é raro: ela cria um ponto de encontro. Quando ela pega o microfone no meio de um set, não é só a voz dela que ecoa — é uma multidão inteira que responde, que canta, que sofre e celebra junto. É quase um coro. Um tipo de pertencimento que não se ensaia, só acontece.

Talvez seja isso que faça o Piranhão ser o que é.

Uma festa onde o Brasil se mistura sem pedir licença. Onde o molho é outro. Onde o jambu encontra o pequi — e ninguém precisa explicar por quê.

Por Isabela é mestra em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Atua como mediadora, curadora e articuladora cultural em Goiânia.