Durante a ocupação nazista de Roma, médicos de um hospital localizado às margens do rio Tibre criaram uma doença que nunca existiu para esconder judeus perseguidos pelas tropas alemãs. A falsa enfermidade ficou conhecida como Síndrome K e ajudou a proteger dezenas de pessoas da deportação.

Entre setembro de 1943 e junho de 1944, Roma esteve sob domínio das forças nazistas. Em meio à perseguição contra a população judaica, médicos do Hospital Fatebenefratelli colocaram em prática uma estratégia arriscada: registrar judeus que buscavam abrigo na instituição como pacientes portadores de uma doença altamente contaagiosa e mortal.

A suposta enfermidade provocaria sintomas graves, como convulsões, paralisia e asfixia. O objetivo era simples: fazer com que os soldados alemães tivessem medo de entrar na ala onde estavam escondidas as vítimas da perseguição.

A iniciativa envolveu os médicos Giovanni Borromeo, Adriano Ossicini e Vittorio Emanuele Sacerdoti. Borromeo participava secretamente da resistência italiana, enquanto Sacerdoti era judeu e continuava trabalhando no hospital graças ao fato de a instituição ser privada.

A ocupação nazista ocorreu após a queda de Benito Mussolini e o armistício firmado entre a Itália e os Aliados. As tropas alemãs ocuparam grande parte do território italiano e chegaram a Roma em 10 de setembro de 1943.

Pouco mais de um mês depois, em 16 de outubro, soldados alemães invadiram o gueto judeu de Roma. Mais de 1,2 mil homens, mulheres e crianças foram presos. A maioria acabou deportada para Auschwitz.

Alguns conseguiram escapar e encontraram refúgio no Fatebenefratelli, que já prestava assistência clandestina à comunidade judaica. Foi por conta disso que os médicos decidiram criar a Síndrome K.

Os judeus escondidos no hospital eram registrados como portadores da chamada Morbo di K, ou Síndrome K, e encaminhados para uma área isolada. Os médicos diziam aos soldados alemães que se tratava de uma enfermidade extremamente contagiosa. A estratégia funcionou.

O nome também ajudava a dar aparência de legitimidade à farsa. A letra “K” fazia referência ao general alemão Albert Kesselring, comandante das forças nazistas na Itália. Há ainda relatos de que os alemães poderiam associar a denominação à doença de Koch, nome relacionado à tuberculose.

Segundo relatos posteriores de Sacerdoti, o temor de contaminação fazia com que os soldados evitassem entrar na ala.

Até mesmo as crianças escondidas no hospital eram orientadas a colaborar com a encenação. Em um dos relatos, uma delas recebeu instruções para tossir caso os alemães entrassem no local, reforçando a impressão de que havia pacientes gravemente doentes.

Quantas pessoas foram salvas?

Não existe consenso sobre o número exato de judeus protegidos pela operação. As estimativas citadas variam de pelo menos 20 a mais de 100 pessoas.

A farsa, contudo, não conseguiu impedir todas as prisões. Alguns judeus foram capturados dentro do próprio hospital, enquanto outros podem ter sido presos posteriormente. Ainda assim, a estratégia se tornou um dos episódios mais singulares da resistência civil durante a ocupação nazista de Roma.

Os documentos que registravam a Síndrome K não descreviam uma doença verdadeira. Segundo Adriano Ossicini, tratava-se de uma espécie de código utilizado para indicar que aquela pessoa era judia e precisava ser protegida.

Décadas depois, Giovanni Borromeo foi reconhecido pelo Yad Vashem, memorial do Holocausto em Israel, como Justo entre as Nações, título concedido a pessoas não judias que arriscaram a própria vida para salvar judeus durante o Holocausto.

A história da Síndrome K ficou marcada pela combinação de coragem e criatividade. Em uma época em que os nazistas utilizavam documentos, registros e identificação para localizar e deportar judeus, os médicos do Fatebenefratelli utilizaram a própria burocracia contra os perseguidores.

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