Entenda como os preços dos produtos primários afeta a economia mundial

Cilas Gontijo

Em 2020, o mundo começava a viver a tragédia causada pela pandemia do coronavírus, que tirou a vida de milhares de pessoas. Ainda em 2022, a crise sanitária causa mortes. Com a escalada sem precedentes de casos da doença, governantes se viram obrigados a fecharem as cidades e decretarem lockdown com fechamento total ou parcial de comércios e serviços. Tudo isso provocou um menor consumo,  principalmente do petróleo, provocando queda nos preços das commodities desse produto em cenário global.

Já em 2021, a partir do recuo dos números de casos da Covid-19 e da reabertura dos comércios em vários países, os baixos estoques inevitavelmente causaram aumento nos preços dos combustíveis e nas commodities. É a lei da oferta e da procura – quando a procura por um determinado produto é muito alta e a oferta desse produto é pequena, a tendência no mercado é que os preços subam. 

Entretanto, no momento em que a possibilidade de retomada total das atividades representava uma ‘luz no fim do túnel’, a Rússia invade a Ucrânia e causa uma nova alta avassaladora no preço das commodities. 

Nos últimos dois anos, a palavra “commodities” veio à tona em uma quantidade considerável de vezes. Do inglês, ela significa “mercadoria”; as mercadorias na sua forma bruta sem industrialização ou com baixa industrialização. Ou seja, são matérias-primas que, normalmente, são produzidas em larga escala e retornam para seus países de origem em forma de produtos para o consumidor final. 

Completamente relacionadas ao orçamento da população, as commodities são bens de consumo e são comercializados em todo o mundo através de bolsas de valores, tendo seus preços alterados diariamente de acordo com fenômenos diários relacionados à demanda e oferta dos produtos.

Entre os tipos de commodities estão as agrícolas, minerais, ambientais e financeiras. Como exemplo, nas agrícolas podem comercializados laranja, milho, café, soja, trigo, açúcar e algodão. Já entre os minerais, estão o petróleo, gás natural, etanol e ouro. São consideradas commodities ambientais a madeira, água e a geração de energia. Além disso, entre as financeiras, estão o dólar, euro, o real, títulos do tesouro direto.

O Brasil é um dos países que mais tem se destacado na produção de commodities agrícolas, por ter muito potencial nessa área e grande abundância em recursos naturais. Seu destaque se dá, principalmente, no comércio de soja, minério de ferro, petróleo bruto, açúcar e melaço, boi gordo, celulose e milho. Inclusive, todas essas commodities sofreram um aumento de preços considerável no último ano, não somente no Brasil, mas no mundo. De forma geral, a população mundial sofre com os aumentos constantes nos preços de combustíveis e alimentos.

Um exemplo é quanto à demanda internacional por determinada commodities está muito alta, que pode acarretar uma supervalorização daquela mercadoria no mercado exterior. Nesse cenário, os produtores podem preferir vender tais produtos ao mercado externo, de modo a ocasionar a falta dos produtos no mercado interno, inflacionando os preços. 

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o agronegócio bateu recorde de exportações em 2021, principalmente devido ao uso intensivo de commodities e a incrementação dos preços dessas mercadorias ao nível mundial. Além disso, não há dúvidas de que desde o início da pandemia, e no atual contexto de guerra, houve um aumento significativo no uso das commodities.

As commodities energéticas são o grande vilão em relação à alta dos preços em toda a cadeia produtiva, uma vez que as indústrias, as máquinas do campo, o transporte e armazenamento dependem totalmente desse produto. Inclusive, para a organização dos países exportadores de petróleo (Opep+), não há perspectivas de baixa nos preços, haja vista que o consumo desse produto só aumenta a cada dia e existe uma diminuição de sua tiragem por parte de tais países – com pouco produto para tanta demanda.

O economista e professor da UEG, Júlio Paschoal, avalia que o preço do petróleo, que é definido pelos 23 países ligados à Opep+, afeta diretamente nos preços das demais commodities no mundo. Isso, porque quando os países elevam o preço, pode acarretar em um efeito em cadeia sobre todas as economias que dependem dos derivados do petróleo.

Segundo o economista, o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo. No entanto, cerca de 40% desse produto se encontra em sua forma bruta e que demanda um nível de tecnologia melhor do que a existente na Petrobrás para poder refiná-lo, transformando-o em combustível pronto para ir para a bomba do posto de combustível em um preço melhor do que os praticados atualmente. Assim, como ainda não há essa tecnologia, o Brasil exporta o óleo cru, isto é, a matéria-prima (commodities), e importa os seus derivados: gasolina, óleo diesel e o gás. 

O resultado disso, para Júlio Paschoal, é que o Brasil acaba preso tanto à variação do dólar nos mercados interno e externo, quanto às variações do preço do petróleo. Isso ocorre, porque a paralisação das atividades econômicas em 2020, em decorrência da pandemia, teria causado uma baixa na produção dos bens de consumo, que estavam com procura elevada, em vista do alto consumo destes produtos. Dessa forma, a combinação entre uma maior procura e uma menor oferta acarreta maiores preços. 

O economista ainda destaca a guerra entre a Rússia e a Ucrânia como um fator fundamental para o aumento de preço do petróleo, óleo de soja e trigo. Além disso, como se não bastasse toda essa crise, Paschoal relembra a redução do óleo de palma na Indonésia e nos Tigres Asiáticos. No mercado internacional, o aumento da demanda pela soja acaba por inflacionar o preço deste produto. Isso torna sua venda mais atraente aos produtores e acaba por elevar ainda mais o preço do óleo de soja no país.

Somada à pandemia e à guerra, questões internas no Brasil, como a crise hídrica, o economista também aponta a falta de insumos e componentes importados no país como um problema. Para ele, não há uma boa perspectiva em curto prazo quanto à diminuição dos preços – alta que consequentemente pode ser sentida pelo consumidor final. Segundo Paschoal, tudo deve depender do desfecho da guerra. “O mais correto é afirmar que este ano ainda será muito difícil ter uma redução”, pontua. 

Ao considerar esse cenário de dificuldades, Júlio Paschoal apresenta três possíveis alternativas a serem adotadas pelo consumidor: o efeito substituição – trocar o produto mais caro por um mais barato -, a pesquisa de preços e as promoções. 

Em Goiás

Em meio a esse contexto de dificuldades causadas pela pandemia e pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, o cenário goiano não seria diferente. Ao Jornal Opção, o doutor em Economia e diretor do Instituto Mauro Borges (IMB), Guilherme Resende Oliveira, pontuou aspectos em que o estado de Goiás foi atingido pelo cenário internacional. 

“A China acaba de decretar em lockdown algumas cidades grandes, e ela é o maior importador da economia goiana. Na verdade, a China é responsável por diversas cadeias produtivas no mundo, causando um abalo na economia do nosso estado”, explica, ao relembrar que Goiás é grande exportador de soja, milho e alguns minerais. 

Apesar disso, Guilherme ainda considera difícil avaliar se os produtores goianos estão sendo afetados de forma negativa ou positiva em todo este cenário. Isso, porque se por um lado estão sendo importados produtos mais caros, também se exportam com preços elevados. No entanto, para ele, de forma geral, os efeitos à economia são negativos. 

Dados do IMB ainda mostram que Goiás exporta mais do que importa. Entre os produtos exportados, as commodities, se destacam as sementes, os grãos, plantas medicinais ou industriais, carnes e miudezas, resíduos e desperdícios alimentares das indústrias de alimentos, ferro fundido, ferro e minérios, sendo que quase 60% estão ligados ao agronegócio.

Quanto às importações, os produtos de maior peso são os combustíveis (23%), adubos e fertilizantes (21%) e produtos farmacêuticos com 19,9%. Neste cenário a guerra entre os países europeus volta a ser destaque, já que tanto a Rússia, quanto a Ucrânia são exportadores de adubos, fertilizantes e trigo. “Com certeza os valores dessas commodities impactarão de forma negativa à vida dos goianos, causando uma alta nos preços dos bens de consumo”, disse o diretor.

Guilherme ainda acredita que mesmo que Goiás seja um grande produtor de grãos e um dos maiores produtores de alimentos do Brasil, será impossível ficar fora da inflação dos alimentos. “Tudo isso porque [os alimentos] são commodities e, na realidade, acabam nem ficando no estado, sendo na sua grande maioria exportados”, complementa. 

Para os líderes mundiais, enquanto durar a guerra entre Rússia e Ucrânia à economia mundial ainda fragilizada pela pandemia, agonizará. Entretanto, todos os esforços serão tomados para tentar amenizar os efeitos catastróficos da guerra na economia global. Como exemplo, tem-se o petróleo, considerado o grande vilão dos elevados preços dos bens de consumo. Isso, porque o mundo ainda é totalmente dependente dessa forma de energia. Recentemente, o presidente Joe Biden, mais de 30 países se uniram aos Estados Unidos na liberação de suas reservas de petróleo, com o objetivo de manter o preço do barril estável. 

Cilas Gontijo é estudante de Jornalismo na Faculdade Araguaia.