Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Com Lula livre e Bolsonaro no poder, ventos da América do Sul podem chegar por aqui

Soltura do petista em momento em que o continente é varrido por convulsões sociais torna o Brasil um possível palco de manifestações populares

A América do Sul parece viver em um looping infinito. A queda de Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, é o mais recente capítulo da convulsão social que se espalha pelo continente. Venezuela, Chile, Peru, Equador e Uruguai, em menor ou maior grau, estão vivendo suas versões da primavera latino-americana. Nada muito diferente do que sempre ocorreu abaixo na linha do Equador.

A crise política atual é democrática, atinge governos de direita e de esquerda – prova de que não são as ideologias, mas a capacidade de gestão, a articulação e a liderança que fazem um bom governo. A história é pendular: esquerda e direita se revezam no poder porque a melhor é sempre a que está fora do poder.

A Bolívia deu o passo mais arriscado até o momento. Enquanto no Chile o presidente Sebastián Piñera acena com uma nova Constituição – a atual foi herdada do regime ditatorial de Augusto Pinochet –, na Bolívia há um golpe em andamento cujo combustível é a possível fraude eleitoral cometida por Morales (com possibilidade de contragolpe, o que pode levar o país à guerra civil). Em cenários assim, não será surpresa se houver derramamento de sangue.

Na Bolívia, por enquanto o que há é uma presidente autodeclarada, Jeanine Añez, que tem toda a pinta de ultraconservadora. No início do ano, Juan Guaidó tentou algo semelhante, se autoproclamando presidente da Venezuela. Mas, ao contrário de Añez, não contou com o imprescindível, nesses casos, apoio das forças armadas, que ainda estão ao lado de Nicolás Maduro mediante bons salários e mordomias que são negadas ao restante da população venezuelana.

Os ventos que sopram nos países vizinhos, por enquanto, chegam como brisa ao Brasil – mas, com a soltura de Lula, pode ser que ela se transforme num tufão por aqui, já que os ânimos entre o lulopetismo e o bolsonarismo estão exaltados. Em discurso, o ex-presidente conclamou os brasileiros a seguirem o exemplo dos chilenos. Poucos dias antes, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) havia dito que, caso a esquerda “radicalize”, seria necessário um novo AI-5.

Dos dois lados, as palavras são perigosas. Como dizia a canção do rádio de um antigo compositor baiano: será que a incompetência da América católica sempre precisará de ridículos tiranos?

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