Clínicas goianas aderem projetos de parto humanizado para diminuir índice de cesáreas

Quando não necessário, procedimento pode oferecer riscos tanto para mãe quanto para o bebê 

Almê e Ísis- Foto: Reprodução

Há três anos, a dona de casa Rafaela, 28, sepultava seu bebê que nasceu morto depois de uma cesárea mal sucedida. Sem dar detalhes ou culpar alguém pelo que aconteceu, a jovem admitiu que sentia mais medo do parto normal do que da cirurgia por “confiar mais no procedimento do que no próprio corpo”.

Rafaela faz parte dos dados que colocam o Brasil em segundo lugar no mundo em percentual de cesarianas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O primeiro é a República Dominicana. Por aqui, de acordo com o Ministério da Saúde (MS), 57% dos nascimentos acontecem cirurgicamente, bem acima dos 15% recomendados pela OMS.

Em Goiás, a porcentagem é ainda maior, acima da média nacional e, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de cirurgias cesarianas. O Estado aparece com 66,76% dos partos cesáreos em 2013, e 69,13% em 2017, de acordo com levantamento divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado de Goiás (SES-GO).

Preocupado com os números, o Ministério da Saúde anunciou no último mês dois projetos para controlar a situação dos partos no Brasil. O primeiro, um sistema online que monitora a quantidade de cesarianas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país e, um segundo, que deve chegar em breve às maternidades, chamado de Parto Cuidadoso, propõe investir na capacitação de enfermeiras obstétricas para atenção ao parto normal.

Um terceiro projeto é o Parto Adequado, desenvolvido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), também com o apoio do Ministério da Saúde. O programa tem o objetivo de identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas sem indicação clínica.

O Parto Adequado está na sua Fase 2, a qual será desenvolvida ao longo de dois anos (até maio de 2019). Nesta etapa, participam hospitais e operadoras de todo o País. Foram selecionadas 136 maternidades e 68 operadoras de planos de saúde que manifestaram interesse em atuar como apoiadoras do projeto. A Fase 1, que durou 18 meses, evitou a realização de 10 mil cesarianas desnecessárias. Participam da ação três instituições em Goiás: Hospital Femina, a Maternidade Modelo, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes.

Para a enfermeira e coordenadora do curso de Enfermagem Obstétrica do Instituto Health, Fabiana dos Santos Carvalho, o objetivo dessas ações é reduzir intervenções médicas desnecessárias porque o excesso de cesarianas pode causar consequências negativas para a saúde , aumenta a mortalidade materna e dos bebês, aumenta o tempo de internação e aumenta custos. “Isso não traz nenhum benefício para as mulheres, apesar de trazer benefícios econômicos para os hospitais”, Alerta.

Além desses pontos, a enfermeira explica que um parto normal ainda faz a mãe ter total participação em relação ao que acontecerá no momento do nascimento de seu filho, podendo escolher a presença de acompanhantes ou não, a posição no momento do parto e o local onde o bebê nascerá, em casa ou no hospital, na água ou no leito. “Nesses casos, deve haver a mínima intervenção médica, porém sem deixar de colocar a saúde da mãe e do bebê em primeiro lugar”, afirma Fabiana.

Ela também relata que a incorporação de doulas (mulheres sem experiência técnica na área da saúde, que orientam as novas mães no parto e nos cuidados com bebê), nas práticas de nascimento, representa resgatar aquilo que é um acontecimento fisiológico natural em qualquer mulher. “Doula é uma contribuição efetiva à humanização da assistência ao parto e ao empoderamento feminino e sobre a diminuição dos partos cesarianos”, conclui.

O presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego), o Dr. Leonardo Mariano, confirma a preferência da medicina pelo parto normal às mulheres. “É importante, claro, que a escolha seja feita pela mãe e pelo médico, de acordo com as indicações de cada caso e garantindo a autonomia do médico, da paciente e a segurança do binômio materno fetal”, esclarece.

A gestora comercial, Almerinda de Araújo Gomes, de 32 anos, mãe da Ísis de quase seis meses, é o exemplo de genitora que deu preferência pelo parto humanizado. “Quando engravidei, foi uma fase muito tranquila, a Ísis estava encaixada corretamente e, quando eu pensava no dia de dar à luz, só pensava na opção do parto normal, porque minha médica dizia que o faria. Só que, chegando nas últimas semanas, eu estava com o líquido [amniótico] baixo, acima do nível permitido, foi quando a doutora começou a induzir a ideia da cesárea e eu me desesperei”, relembra.

Almerinda, ou Almê, como é conhecida pelos amigos disse que essa indução do médico ao parto de cesárea é uma coisa que acontece muito. “Eu me acalmei e neste processo acabei encontrando uma doula, que foi essencial para a decisão e apoio que precisava. Também procurei um segundo hospital, pra uma segunda opinião. Com a aproximação da semana de dar a luz, com apoio da doula e de outros profissionais, tomei a indução corretamente, caminhava pelo hospital para acelerar o rompimento da bolsa, consegui entrar em trabalho de parto e, assim, reverter a necessidade de uma cesárea”, conta.

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