O jornalista Cláudio Curado entrou oficialmente na disputa interna do Partido dos Trabalhadores para representar a sigla na corrida pelo Governo de Goiás. Com trajetória consolidada no jornalismo goiano e quatro mandatos à frente do Sindicato dos Jornalistas de Goiás, Curado afirma que sua pré-candidatura nasce da necessidade de fortalecer o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado e mobilizar a militância petista no interior.

Durante entrevista concedida aos repórteres Ton Paulo e João Paulo, Cláudio Curado falou sobre os desafios do PT em Goiás, a demora na definição do nome que disputará o governo estadual e as articulações políticas envolvendo possíveis alianças com outras legendas, incluindo o PSDB. O jornalista também comentou o cenário eleitoral nacional, o governo Lula, a influência do ex-governador Ronaldo Caiado e as dificuldades estruturais enfrentadas pela esquerda goiana.

Ao longo da conversa, Curado ainda abordou temas como segurança pública, valorização do jornalismo, funcionamento das delegacias da mulher e o futuro do PT no estado. Em tom crítico e direto, ele defendeu maior presença do partido no interior e afirmou que, caso seja escolhido candidato, pretende fazer uma campanha voltada à defesa do legado petista e do governo Lula em Goiás.

Ton Paulo: O senhor é pré-candidato ao Governo do Estado. O que está acontecendo? A que se deve essa demora para a escolha do nome do partido?

São coisas distintas. Primeiro, o PT é um partido diferente dos outros. No MDB, no PSD e em outras legendas, normalmente há uma liderança que decide e os demais acompanham. No PT, não. Existe uma presidenta, mas ela está submetida ao Diretório e às decisões coletivas. A decisão final é do encontro estadual. Então, não adianta fechar um acordo apenas com uma liderança, porque tudo precisa ser referendado internamente. Isso naturalmente atrasa negociações e decisões.

Agora, para o PT participar da eleição de forma competitiva, era necessário preparar um nome antes. Se o presidente Lula tem cerca de 42% dos votos em Goiás, o partido precisaria trabalhar para conquistar ao menos metade desse eleitorado. Com aproximadamente 23%, o PT poderia disputar um segundo turno. Mas faltou antecipação.

Nós temos pouca musculatura política no interior. São apenas três prefeitos contra mais de 240 de outros partidos e cerca de 20 vereadores diante de mais de dois mil da base adversária. Isso pesa muito na campanha. Quando um grupo coloca 500 pessoas numa caminhada e o outro consegue reunir 80, isso influencia na percepção de força política. Por isso, a definição precisava ter acontecido antes.

Ton Paulo: Faltou preparo?

Faltou definir critérios. Eu mesmo defendia que, se o professor Edward tivesse sido escolhido lá atrás, em agosto ou setembro, ele já estaria em campanha, percorrendo o estado.

O PT precisa reacender sua militância. Eu ouvi isso claramente num encontro em Vianópolis, quando um companheiro disse que se sentia como uma brasa apagando e que aquele encontro serviu para reacender essa chama. Era isso que precisávamos: um candidato definido, andando pelo interior, conversando com os filiados e mobilizando a base.

O PT é um partido aguerrido, acostumado a fazer campanha com pouco dinheiro e muita disposição. Mas cada dia sem definição reduz o tempo de pré-campanha e prejudica o partido. O presidente Lula merece ter um candidato do PT em Goiás defendendo seu legado. Não faz sentido depender de outros partidos para fazer essa defesa quando o PT possui quadros preparados para isso.

João Paulo: Essa demora pode diminuir ainda mais as chances do PT nas eleições?

Sem dúvida. Como temos menos estrutura, precisaríamos começar antes. Nosso exército é pequeno. Temos poucos prefeitos e vereadores, embora muito comprometidos. Então, precisávamos ganhar tempo.

Independentemente de quem seja o candidato, é preciso sair logo para animar a militância e se tornar conhecido. No meu caso, por exemplo, eu sou relativamente conhecido no meio jornalístico por ter presidido o sindicato quatro vezes, mas nunca disputei uma eleição. Isso pode ser um diferencial: um nome novo na política, alguém que não vive exclusivamente da política, disputando contra profissionais da área. É nisso que estou apostando.

João Paulo: Caso o nome seja definido no dia 16, haverá união entre todos os pré-candidatos?

Eu respondo por mim: apoio qualquer nome escolhido pelo PT. Se for a deputada delegada Adriana Accorsi, estarei junto. Apenas lamento porque ela tem grandes chances de ser eleita deputada federal novamente, e o PT trabalha com a possibilidade de ampliar sua bancada em Brasília.

O compromisso principal do PT é fortalecer o governo Lula no Congresso, aumentar a bancada federal, tentar eleger um senador e manter ou ampliar a bancada estadual. A disputa pelo governo vem depois disso. Precisamos trabalhar dentro da realidade. Não adianta lançar um nome apenas por vaidade sem estrutura partidária suficiente.

Ton Paulo: Existe mesmo uma articulação entre PT e PSDB em Goiás?

Essa decisão cabe ao partido. O Flávio Faeda, por exemplo, é um grande quadro do PT. Mas o Marconi Perillo precisa sinalizar com mais clareza que deseja o PT ao lado dele.

A direita tem cerca de 60% do eleitorado em Goiás. O PT possui uma base consolidada com Lula. Então, matematicamente, faz sentido tentar trazer esses 40% para um projeto comum. Mas o PT não pode negociar em posição de fragilidade. Quanto mais tempo passa sem definição, menor fica nosso poder de negociação.

Ton Paulo: O PT pode adiar novamente a decisão sobre a chapa majoritária?

Pode acontecer tudo, inclusive nada. Mas cada dia perdido enfraquece a capacidade do PT de fazer uma campanha à altura do presidente Lula em Goiás.

Se já houvesse um pré-candidato definido, ele estaria realizando encontros em cidades como Anápolis, reacendendo a militância. Cada dia sem mobilização é um dia que a direita e a extrema direita avançam.

João Paulo: Como o presidente Lula enxerga Goiás nesse cenário?

Sinceramente, acredito que Goiás não está entre as prioridades imediatas do presidente Lula. Minas Gerais, por exemplo, é muito mais estratégico eleitoralmente.

Goiás representa cerca de 3% do eleitorado nacional e da economia do país. Lula está preocupado com temas maiores, como a governabilidade nacional e a relação com o Congresso. Por isso, cabe ao PT de Goiás apresentar um projeto competitivo que ajude o presidente.

João Paulo: Uma eventual aliança entre PT e Marconi beneficia mais quem?

Na minha avaliação, beneficia mais o Marconi Perillo. O grande interesse dele é o tempo de televisão do PT. O PSDB possui pouco tempo, enquanto o PT tem uma estrutura de comunicação importante.

Agora, o PT não pode ser tratado apenas como fornecedor de tempo de TV. Precisa haver disposição clara para o diálogo e transparência nas conversas.

João Paulo: As figuras polêmicas ligadas ao PSDB podem prejudicar o PT numa possível aliança?

Acho irônico ver partidos ligados à direita atacando o PT por corrupção quando muitos dos seus próprios líderes enfrentam problemas na Justiça.

O presidente Lula foi inocentado pela Justiça. Já outros partidos continuam acumulando denúncias e investigações. Então, antes de atacar o PT, cada legenda deveria olhar para dentro de casa. Mas política também exige diálogo e construção de projetos. Se houver entendimento entre as direções partidárias, isso será debatido internamente no PT.

Ton Paulo: Como o senhor vê a situação envolvendo a deputada Aava Santiago?

Aava Santiago é uma grande revelação da política goiana. Assim como Adriana Accorsi, ela tem potencial para se tornar uma excelente deputada federal.

Mas existe um problema interno no PSB. Parte dos deputados estaduais e prefeitos do partido já apoiam Daniel Vilela e Ronaldo Caiado. Isso dificulta a construção de uma candidatura unificada. Eu lamentaria vê-la numa disputa ao governo com poucas chances, porque acredito que ela pode contribuir muito mais no Congresso Nacional.

Ton Paulo: Existe intenção de seguir carreira política após essa eleição?

Não. Eu coloquei meu nome porque percebi a falta de candidatos dispostos à disputa. Se eu não for candidato a governador, não serei candidato a mais nada.

Minha intenção é ajudar o partido neste momento. Não estou movido por vaidade pessoal.

Ton Paulo, João Paulo e Cláudio Curado | Foto: Juliana Camargo/Jornal Opção

Ton Paulo: Qual o real motivo da sua candidatura?

Muitas pessoas me procuraram dizendo que eu poderia ajudar o PT no debate político, defendendo o governo Lula e os governos petistas.

Tenho mais de 40 anos de jornalismo e experiência em mais de 40 campanhas eleitorais. Conheço os bastidores da política e acredito que posso contribuir neste momento.

Se eu fosse eleito, faria apenas um mandato. Não tenho interesse em construir carreira política. Inclusive, me comprometeria a publicar anualmente minha declaração de bens para prestar contas à população.

Ton Paulo: O PT teve papel importante na vitória de Sandro Mabel em Goiânia. Isso pode se repetir num eventual segundo turno entre Daniel Vilela e Wilder Moraes?

Ainda é cedo para fazer esse tipo de projeção. Mas é possível que o eleitor faça escolhas estratégicas novamente.

A política é muito dinâmica e depende do cenário que se apresentar mais à frente.

Ton Paulo: Como está a situação da deputada Adriana Accorsi dentro do partido?

Adriana enfrentou questões pessoais difíceis nos últimos meses, mas continua sendo um dos maiores quadros do PT em Goiás.

Tenho muito orgulho do espaço conquistado pelas mulheres no PT e na esquerda. São lideranças que chegaram onde estão por mérito próprio, não por herança política.

Ton Paulo: Como o senhor avalia os demais nomes colocados pelo PT?

O PT está bem servido de nomes. Seja Valério Luiz, Luiz César Bueno ou qualquer outro quadro, o partido terá bons representantes.

Se qualquer um deles for escolhido, estarei à disposição para ajudar na campanha.

Ton Paulo: O presidente Lula enfrenta queda na aprovação mesmo anunciando medidas populares. O que está acontecendo?

O PT precisa voltar às ruas para ouvir a população. Essa reflexão foi feita inclusive no congresso do partido.

O governo enfrenta dificuldades porque o Congresso hoje é muito mais poderoso e independente do que em outros momentos. A relação política ficou mais complexa. Ainda assim, Lula continua sendo um grande negociador e alguém que busca governar para todos os brasileiros.

João Paulo: Ronaldo Caiado pode se tornar um adversário forte nacionalmente na pauta da segurança pública?

Existe uma diferença entre a imagem construída e a realidade vivida pelos profissionais da segurança pública em Goiás.

Há reclamações sobre salários defasados, falta de concursos e promoções. O próximo governador herdará um problema sério na relação com os servidores públicos. Isso precisará ser enfrentado com diálogo e planejamento.

Ton Paulo: O que pode ser feito pelos jornalistas em Goiás?

Se eu fosse governador, condicionaria parte da publicidade oficial ao cumprimento do piso salarial da categoria.

O jornalista precisa ser valorizado e remunerado adequadamente. O Estado pode usar sua força institucional para incentivar melhores condições de trabalho e qualificação profissional nas empresas de comunicação.

Existe ainda uma questão gravíssima em Goiás: o funcionamento das delegacias da mulher. Hoje, apenas Goiânia possui atendimento 24 horas. Nas demais cidades, as delegacias funcionam apenas em horário comercial.

Isso é desumano. A violência contra a mulher acontece justamente à noite e nos finais de semana. Se eu fosse eleito, esse seria um dos primeiros problemas que eu enfrentaria: garantir delegacias funcionando 24 horas por dia em todo o estado, oferecendo proteção e acolhimento às mulheres vítimas de violência.