Câncer causado por próteses de silicone é raro e não deve preocupar, diz especialista

Médico onco-mastologista explica que não há proibição de implantes, mas mulheres devem ficar atentas a qualquer sintoma de linfoma

Foram registradas nove mortes e 359 casos de linfoma ligados aos implantes| Foto: Wikipedia Commons

A agência americana responsável pelo controle de alimentos, cosméticos e medicamentos, a Food and Drug Administration (FDA), publicou na última terça-feira (21/3) um alerta sobre a ligação entre casos de um tipo raro de câncer e o implante de silicones. Segundo o órgão, a conexão entre as próteses e a doença é estudada desde 2011 e até o dia 1º de fevereiro de 2017 a agência recebeu relatos de nove mortes e 359 casos do câncer ligados aos implantes.

Médico onco-mastologista do Hospital Araújo Jorge, o doutor Rubens José Pereira explicou que o câncer detectado é, na verdade, um linfoma anaplásico de células grandes: uma alteração no sistema linfático já conhecida e comum na pele, mas que passou a ser observado também nos tecidos cicatrizados que se formam ao redor das próteses. “Esse tipo de linfoma é muito relacionado a traumas. O que se acredita é que o tecido cicatricial funcione como uma espécie de trauma”, afirmou.

Onco-mastologista explicou que no Brasil não há registro de nenhum caso do linfoma ligado aos implantes | Foto: Reprodução / Facebook

Outro ponto importante é que a maior parte dos registros ocorreu com as próteses texturizadas. Dos 359 casos relatados pela FDA, 231 incluíam informações sobre o tipo de implante e mostraram que 203 eram próteses texturizadas e 28 lisas. As próteses são feitas com textura, de acordo com o médico, para evitar que saiam do lugar após o implante e ainda não se sabe o porquê de elas terem mais casos de câncer associado que as lisas.

Apesar dos relatos de linfomas causados pelas próteses de silicone, ainda não existe motivo para alarde, garantiu o especialista consultado pelo Jornal Opção. “Essa é uma condição muito rara. Em todo o mundo existem mais de 11 milhões de mulheres com próteses e os casos não chegam a 400. No Brasil ainda não foi registrado nenhum caso. O que a Organização Mundial de Saúde [OMS] recomenda é que as mulheres fiquem atentas, mas quem quer implantes não precisa deixar de colocar e quem já tem não precisa retirar”, apontou.

As mulheres que já colocaram os implantes devem fazer os exames periódicos e prestarem atenção a qualquer sintoma da doença: vermelhidão, nódulos, inchaço, dor ou secreção em volta das próteses (detectável com ultrassom). Se qualquer um dos sinais aparecer, o médico deve ser procurado para investigar o caso. Uma vez confirmado o linfoma, o tratamento costuma ser simples: basta retirar a prótese e parte do tecido, ressecando a lesão, explicou dr. Rubens.

As mortes registradas foram, em geral, de casos em que o diagnóstico demorou e o linfoma acabou se espalhando para outras partes do corpo e, por isso, a OMS ainda não proíbe a colocação de próteses. “Apesar do estudo, ainda não há uma certeza sobre o que causa o linfoma. Então a orientação é que o cirurgião plástico alerte sobre os riscos, que há uma condição rara que ainda é estudada, e que as pacientes façam os exames e fiquem atentas a qualquer alteração”, ressaltou o especialista.

O médico do Hospital Araújo Jorge lembrou, ainda, que estes casos de câncer não têm qualquer relação com o escândalo de 2010 envolvendo a marca de próteses francesa PIP. Na época foi descoberto que as próteses continham um tipo de silicone não cirúrgico e eram revestidas por uma membrana mais suscetível a rupturas. Assim, o risco do conteúdo vazar em casos de choque era maior.

Entretanto, as próteses não eram consideradas tóxicas pela vigilância sanitária francesa, que também descartou a possibilidade de elas causarem câncer de mama, apesar do registro de 20 mulheres que desenvolveram a doença usarem as próteses da marca. A agência declarou apenas que o vazamento do material poderia causar irritação.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomendou que quem tivesse implantes da PIP procurasse atendimento no Sistema Único de Saúde e fizesse uma avaliação. Em caso de rupturas, a substituição das próteses seria feita. Caso contrário, eles deveriam marcar nova consulta para avaliação. Mulheres com histórico de câncer de mama deveriam fazer as trocas mesmo sem apresentarem qualquer sintoma.

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