Brasileiro não gosta de futebol, gosta de ganhar

Aqui, torcedor só enche estádio se seu time vai bem e só grita se sair gol. Cultura bem diferente dos fanáticos ingleses ou mesmo dos “barras-bravas” da Argentina

Gustavo Kuerten e Ayrton Senna viraram mitos nacionais por serem vencedores; Neymar seria o salvador da Pátria da vez. O brasileiro, que nem gosta tanto de futebol assim, precisa é de saciar sua fraqueza por conquistas

Gustavo Kuerten e Ayrton Senna viraram mitos nacionais por serem vencedores; Neymar seria o salvador da Pátria da vez. O brasileiro, que nem gosta tanto de futebol assim, precisa é de saciar sua fraqueza por conquistas


Elder Dias

Essa história de que o Brasil é o país do futebol é balela. Quem gosta de futebol é alemão, que compra o pacote de arquibancada para o ano inteiro antes de começar o campeonato, e inglês, que sai de campo sorrindo mesmo se o English Team perder, desde que tenha visto um jogaço.

Brasileiro gosta mesmo é de ganhar. O futebol é só um detalhe. Aliás, é detalhe qualquer esporte, desde que o vencedor seja um compatriota. Ayrton Senna é a maior prova disso. O piloto elevou nossa autoestima carente até os píncaros, pelos pódios do mundo todo, juntando a isso uma cereja no bolo: suas glórias vinham a bordo de um carro, outra mania que importamos, americanizada que é nossa cultura. Sua morte trágica o transformou em mito e sua dedicação ao que fazia virou filosofia de vida e até manual de autoajuda. Depois dele, os brazucas da Fórmula 1 estão condenados a serem versões de Rubens Barrichello e as TVs, se ligadas, buscam qualquer canal nas manhãs de domingo.

Então veio Gustavo Kuerten. Brasileiro gostava tanto de tênis que 99,9% da população não sabia quem tinha sido Maria Ester Bueno, uma grande estrela de Wimbledon nos anos 50. Mas Guga ganhou uma coisa importante e todos passaram a, então, saber pronunciar Roland Garros e a analisar “backhands”, “top spins”, “slices” e “aces”. Co­locar menino na aula de tênis virou febre. Até que o catarinense simpático parou de jogar em alto nível por uma contusão e todos guardaram a raquete no armário.
Mas futebol é a paixão nacional. É? Mais preciso seria dizer “vencer no futebol”. Vencer no futebol no domingo para tirar sarro do colega de trabalho na segunda. Santa Cruz à parte — lá no Recife a torcida prestigia até inauguração de gramado —, o torcedor só enche estádio se seu time vai bem. Só grita o tempo todo se sair gol o tempo todo. Uma cultura bem diferente dos fanáticos ingleses ou mesmo dos “barras-bravas” da Argentina e da América do Sul hispânica em geral.

Talvez seja por isso que agora, com a Copa ocorrendo no Brasil, haja uma crise de identidade nas arquibancadas: ao ver chilenos, colombianos, uruguaios e, pior, argentinos darem show de cantos e festa, muitos de verde e amarelo estão desencantados com a própria torcida, que só sabe repetir eu-sou-brasileiro-com-muito-orgulho-com-muito-amor desde quando ainda queríamos ser tetra. Falta encontrar a essência do pertencimento, unir de verdade o que ocorre dentro de campo a um estágio bem mais avançado de identidade cívica. E são anos de vivência para passar a entender e amar o que há além daqueles 22 marmanjos perseguindo uma bola. Não se compra no Carrefour nem se parcela no cartão em dez vezes.

Como disse uma vez o treinador escocês Bill Shankly, futebol não é questão de vida ou morte: é muito mais que isso. O brasileiro em geral não quer saber se a seleção está jogando um bom futebol. Isso fica para os comentaristas de televisão — e para a minoria que gosta de verdade do esporte. O “brasileiro em geral” gostaria é que Neymar carregasse o time nas costas que Thiago Silva erguesse a Taça Fifa no dia 13 de julho. Depois, a não ser que seu time esteja bem no campeonato — ou que esse time seja o Santa Cruz — iria colocar o futebol no armário e aguardar a próxima Copa. A eterna espera do próximo título.

Suárez e um mundo sem noção: de craque a bandido e de bandido a herói

Suárez com a mão à boca logo após morder Chiellini e recebido como herói em Montevidéu após ser expulso da Copa: promovido de vilão a injustiçado

Suárez com a mão à boca logo após morder Chiellini e recebido como herói em Montevidéu após ser expulso da Copa: promovido de vilão a injustiçado

O Mundial do Brasil já não contou com Ibrahimovic (da Suécia, que não se classificou), Falcao García (da Colômbia, lesionado)e Frank Ribéry (da França, também machucado). Viu saírem prematuramente, com suas seleções eliminadas, os espanhóis Xavi e Iniesta, os italianos Pirlo, Buffon e Balotelli, o inglês Rooney e o marfinense Drogba. Mas a perda mais sentida, até pelo modo com que ocorreu, é a de Luis Suárez.

Em um ato sem noção o uruguaio mordeu o zagueiro italiano Giorgio Chiellini e foi pego no flagra por dúzias de câmeras de TV. Como punição, foi linchado à base de zoeiras pelas redes sociais e suspenso em partidas (nove), tempo (quatro meses) e dinheiro (mais de R$ 200 mil) pela dona Fifa. Não bastasse isso, a entidade mostrou-se tão ensandecida quanto o jogador: assim que saiu a decisão, foram até a delegação do Uruguai, em Natal, retiraram a credencial do rapaz, levaram-no do hotel sem deixá-lo se alimentar com os colegas e, sob escolta, fizeram sua deportação sumária do País. Foi tratado como bandido de alto calibre. Mais absurda a Fifa ou a mordida?

Para entender melhor o que Suárez é, basta dizer que ele foi considerado o melhor jogador da última temporada no Campeonato Inglês, o que concentra mais astros do futebol em todo o planeta. O atacante do Liverpool representa para seu país o que Neymar é para o Brasil e Messi para a Argentina.

Isso de modo algum lhe dá salvo-conduto para sair mordendo adversários. Suárez é reincidente, e pela segunda vez: em 2010, jogando pelo Ajax, havia atacado o volante Otman Bakkal, no clássico com o PSV; no ano passado, em um Liverpool x Chelsea, a vítima de seus dentes foi o braço do zagueiro Branislav Ivanovic. Parece um caso incorrigível e, mais do que isso, psiquiátrico. Questões que remetem a uma infância miserável e violenta. Precisa de tratamento mais do que castigo.

O “modus operandi” da Fifa para o caso de tão rigoroso ficou ridículo. Mais do que ridículo, cruel. Só podia dar no que deu: Suárez levantou voo como bandido no Brasil e desembarcou no Uruguai como herói nacional. Uma terceira distorção, que levou à insensatez até o presidente do país, José Mujica. Descobrimos, enfim, que de maluco na história não há só Luis Suárez. E que falta de noção contagia. (Elder Dias)

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