Um levantamento do Observatório do Clima, divulgado nesta quarta-feira, 27, mostra que o Brasil registrou um aumento de 6% nas emissões de metano entre 2019 e 2023, alcançando 21,1 milhões de toneladas liberadas no ano passado. O volume coloca o país na quinta posição mundial entre os maiores emissores do poluente, atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia e Rússia.

O dado integra o relatório do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) e representa o segundo maior nível da série histórica. Considerado o “segundo vilão do clima”, o metano (CH₄) é menos abundante que o dióxido de carbono, mas até 28 vezes mais potente no aquecimento global quando analisado em um período de cem anos.

Segundo o estudo, a pecuária bovina é a principal responsável pelo avanço do metano no país, respondendo sozinha por 14,5 milhões de toneladas — mais do que todas as emissões anuais da Itália. Em 2023, o Brasil bateu recorde no tamanho do rebanho: 238,6 milhões de cabeças de gado, quase 20 milhões a mais que em 2020.

De acordo com o estudo, em 2023 o Brasil teve a maior queda percentual de emissões totais de gases de efeito estufa dos últimos 15 anos, registrando 2,3 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e) — uma redução de 12% em relação a 2022.

O corte foi puxado pela queda no desmatamento e fez o país retornar a níveis próximos aos observados em 2009, quando atingiu o menor patamar da série histórica. Ainda assim, especialistas alertam que a ausência de uma estratégia específica para o metano pode comprometer metas internacionais.

Na COP26, em Glasgow (2021), o Brasil aderiu ao Compromisso Global do Metano, que prevê redução de 30% até 2030. No entanto, até agora o país não apresentou um plano detalhado para alcançar esse objetivo.

O relatório do Observatório do Clima foi lançado como adendo à proposta de uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que deve servir de base para negociações na COP30, marcada para Belém.

“O Brasil precisa focar em soluções de regeneração florestal, recuperação de solos, energias renováveis e redução do metano. Isso passa pela magnitude da pecuária, pela gestão de resíduos e pela inclusão social ligada à pobreza energética”, afirmou David Tsai, coordenador do SEEG ao portal G1.

Entre as medidas sugeridas, estão:

  • Agropecuária: melhoria da dieta dos animais, redução do tempo de abate e uso de técnicas de melhoramento genético para reduzir emissões por cabeça de gado.
  • Resíduos: fechamento de lixões até 2028, coleta seletiva, reciclagem e aproveitamento do biogás para geração de energia.
  • Desmatamento: inclusão das queimadas em vegetação nativa no Inventário Nacional de Emissões, hoje ausentes das estatísticas oficiais.

De acordo com os cálculos do OC, reduzir em 45% as emissões de metano até 2040 poderia ajudar a conter o aquecimento global em até 0,3 ºC. A avaliação é de que cortes mais profundos nesse poluente podem gerar resultados mais rápidos que estratégias baseadas apenas no CO₂.

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