Brasil tem 240 mil mortos, não tem vacina e deputado perde tempo com AI-5

Espera-se que Daniel Silveira, ao defender o AI-5 e atacar o Supremo, não esteja sendo porta-voz de desejos ainda mais sombrios do bolsonarismo

A vida não tem estepe. É uma só. Pois mais de 240 mil brasileiros morreram em decorrência da Covid-19. Certo: morreram pessoas em vários países nos quais os governantes agiram rápido. Mas pelo menos não foram negligentes. No Brasil, perdendo tempo com o debate ideológico — que só interessa às seitas políticas —, o governo do presidente Jair Bolsonaro agiu com o máximo de negligência. É provável que, se o governo tivesse sido mais proativo — menos negacionista —, menos pessoas teriam morrido.

Na questão da vacinação, graças à pressão do governador de São Paulo, João Doria, e da sociedade civil, o governo de Bolsonaro teve de reagir e comprar vacinas, inclusive da China — país tão atacado por integrantes de sua equipe e pelo filho Eduardo Bolsonaro. Sem a pressão do governo de São Paulo, Estado que saiu na frente da vacinação — por ser rico e depender menos do governo federal —, é provável que o processo de vacinação estaria ainda mais atrasado.

A questão chave hoje é vacinar o maior número de pessoas — ao menos 70% das pessoas, para criar o que os especialistas chamam de “imunidade de rebanho”. Mas, infelizmente, não é a questão central para o deputado Daniel Silveira, do PSL do Rio de Janeiro.

Daniel Silveira: deputado federal do PSL preso pela Polícia Federal | Foto: Reprodução

Democracia deve se proteger contra seus opositores

Daniel Silveira avalia que mais importante é atacar o Supremo Tribunal Federal — ameaçando-o, talvez com a possibilidade de uma ditadura —, não usar máscaras e sugerir que o AI-5 era boa coisa.

Primeiro, com virtudes e defeitos, o Supremo Tribunal Federal pode ser criticado, mas não atacado. O Judiciário é uma pilastra da democracia. Atacá-lo equivale a atacar a democracia. A diatribe se torna mais grave porque resulta da voz de um deputado federal, ou seja, membro do Poder Legislativo. E um parlamentar ligado ao presidente da República.

Segundo, a defesa do Ato Institucional nº 5 — que foi um golpe dentro do golpe, tonando a ditadura ainda mais dura —, no caso do deputado Daniel Silveira, sugere o óbvio: o fim da democracia. O Executivo, com um novo AI-5, seria o sr. das duas outras pilastras da democracia — os poderes Legislativo e Judiciário. Se não concordarem com o Executivo, simples: seriam fechados. Noutras palavras, o parlamentar do PSL está defendendo uma ditadura. Sua prisão pode ter sido excessiva? Até pode. Mas a democracia tem de se proteger daqueles que a ameaçam.

Terceiro, quanto a não usar máscaras, num país no qual morreram mais de 240 mil pessoas, o deputado sinaliza que a vida alheia não lhe importa. Mas está apenas “obedecendo” seu líder maior, o presidente Bolsonaro, que usa máscara quando quer.

A turma de Bolsonaro quer uma ditadura se o presidente não for reeleito em 2022? Não se sabe. Espera-se que não. Mas as ameaças contra o Supremo — que, ao contrário do Congresso, não se agacha — e as declarações de Bolsonaro e do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, de que um segredo entre eles teria ajudado na eleição do presidente, são preocupantes.

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