Bayer escolhe Brasil para lançar agrotóxico mais polêmico do mundo
12 maio 2026 às 19h16

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A Bayer, líder mundial no mercado de agrotóxicos, pretende lançar um novo herbicida no Brasil para ser utilizado como complemento do Roundup, pesticida mais popular do mundo, em 2028. A substância se chama Icafolin-metil e já recebeu aval toxicológico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
O Roundup já foi alvo de acusações relacionadas ao desenvolvimento de câncer em seres humanos, inclusive em uma tese de doutorado apresentada na Universidade de São Paulo, intitulada “Contaminação passiva por agrotóxico: um objeto fugidio de intervenção”.
A acusação aparece no seguinte trecho de um entrevistado da pesquisa: “Porque a gente não tem como provar que eles passam aí um veneno brabo, mas eles passam o maturador, que é o que prejudica a agricultura. Eles passam glifosato, eles passam Roundup, isso aí tudo acaba com tudo. Roundup dá câncer na pele em tudo quanto é.”
O Icafolin-metil surge como complemento ao Roundup, que vem perdendo eficácia no combate a ervas daninhas. A Bayer também atua no setor farmacêutico, inclusive com medicamentos voltados ao tratamento do câncer, e acumula mais de 192 mil processos apenas nos Estados Unidos, que já resultaram em US$ 11 bilhões em acordos judiciais, conforme informações do Repórter Brasil. A reportagem procurou a assessoria da Bayer e da Anvisa, mas ainda não obteve resposta. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.
Para ser utilizado no Brasil, o Icafolin-metil ainda precisa ser aprovado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. A aprovação em outros países, como Estados Unidos, Canadá e membros da União Europeia, também segue pendente.
Em 6 de maio, a diretoria colegiada da Anvisa aprovou por unanimidade o princípio ativo icafolin, liberando caminho para o uso da substância no país. A agência definiu limites de ingestão diária de resíduos semelhantes aos já aplicados ao glifosato. Para trabalhadores rurais, porém, o nível aceitável de exposição ao produto será três vezes maior.
A Anvisa informou que ainda realizará avaliação dos produtos formulados com a substância. Já o Ministério da Agricultura declarou que o agrotóxico terá prioridade no processo de registro, ou seja, será analisado antes de outros produtos que aguardam na fila de aprovação. A justificativa da pasta é que o novo mecanismo ajudará no combate às plantas daninhas resistentes.
No Ibama, há atualmente 1.308 processos à frente do Icafolin-metil, e a avaliação técnica da substância ainda não começou. Desde que o registro foi solicitado, executivos da Bayer tiveram 62 encontros com órgãos do governo federal, média de três reuniões por mês.
Cientistas da empresa já publicaram um artigo explicando que a substância atua bloqueando funções fisiológicas das plantas invasoras em lavouras. O composto inibe o desenvolvimento dos fios de tubulina, estruturas que funcionam como “esqueleto” das plantas, impedindo seu crescimento.
O mecanismo difere do glifosato, princípio ativo do Roundup, que atua bloqueando enzimas essenciais para a formação de aminoácidos.
O Jornal Opção entrou em contato com a Bayer, mas, até o fechamento desta reportagem, não obteve retorno. O espaço segue aberto.
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