Artista plástico escancara violência contra a mulher em prédio de Goiânia

Siron Franco pintou as paredes do Instituto Rizzo com estatísticas de estupro e feminicídio no Brasil

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Fotos e texto: Alexandre Parrode

“A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. A cada 2 horas, uma mulher é assassinada no Brasil”. A partir desta terça-feira (31/5), quem passar pelas ruas Olinto Manso Pereira e Cora Coralina, no Setor Sul da capital goiana, vai ser lembrado dessas (trágicas) estatísticas.

Isso porque, em um projeto de arte-protesto, o artista plástico Siron Franco “pichou” nas paredes do Instituto Rizzo a violência contra as mulheres brasileiras. Em vermelho-sangue, as frases convidam pedestres e motoristas a refletirem sobre o problema que assombra nossa sociedade.

Em entrevista ao Jornal Opção, Siron falou sobre o manifesto, a ser lançado oficialmente na quinta-feira (2/6), que tem como objetivo tirar a “sujeira” debaixo do tapete e debater sobre a cultura do estupro e da violência doméstica.

Como surgiu a ideia da “arte-protesto”?

Essa é uma bandeira minha, um projeto que começou em 1978, chamado Veracidade, que fala de verdade e ver a cidade também. A primeira interferência que eu fiz foi na Praça Tamandaré e acabei levando para vários Estados e até Países. Esse é um tema recorrente na minha obra. Eu fiquei assustado com esses dados de que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e a cada duas mulheres uma mulher é morta vítima de violência. Queria que os homens se tocassem e se engajassem nessa causa. São nossas filhas, esposas, mães, irmãs, que são expostas a essa violência 24 horas por dia. Podemos ser a solução, ou seremos a vítima. Sociedade precisa se conscientizar, o poder público não pode ser essa coisa distante. Temos que fazer nossa parte.

Criei em Brasília, em 1997, um jornal, de 200 metros de largura por 100 de comprimento, no qual as pessoas caminhavam, em que reproduzi matérias de vários veículos do Brasil (inclusive do Opção) que falavam justamente sobre violência doméstica. O curioso é que nessas intervenções temos muito mais participação feminina, o homem parece que não é com ele, que está alheio… Isso é um problema cultural que precisa ser combatido.

Estamos discutindo, neste momento, justamente a cultura do estupro, após o caso horrendo da menor violentada no Rio de Janeiro por 33 homens. Qual a relevância dessa obra tão impactante?

Essa é a minha expressão de indignação. Sempre fiz questão de debater sobre a violência contra a mulher, contra a criança. Em 1992, fiz uma bandeira brasileira com 1200 caixões infantis, que era o número de crianças mortas no Brasil àquela época. É muito ruim fazer esse tipo de arte, mas não podemos fechar os olhos para esses problemas.

A violência doméstica é algo assustador, saber que a maioria dos estupros começa em casa é um filme de terror.

E vemos pessoas relativizando, dizendo que não acontece.

É cultural. Construímos essa ideia de que quando a mulher é estuprada, ela é culpada. A vítima é culpada no Brasil. É um absurdo isso.

Siron Franco durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Alexandre Parrode

Siron Franco durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Alexandre Parrode

O que espera que a obra cause na cidade?

É como tirar sujeira debaixo do tapete. Está sujo, sabemos que há um problema, então precisamos falar sobre ele. Não faço isso como artista, faço como cidadão. Sempre trabalhei com arte-ativismo, como se chama hoje, mas desde 1970 já fazíamos isso. Sou de uma geração que conviveu com uma repressão muito grande, a ditadura militar. Crescemos com um sentimento de coletividade muito grande.

É para assustar as pessoas mesmo, eu não sabia que era assim. A cada 11 minutos uma mulher estuprada? É de indignar. Do momento que iniciei a intervenção até agora, quantas mulheres neste País não foram violentadas? Não podemos não nos envolver.

Não dá para pensar também que é só um problema do governo, né?

Costumo dizer que educação é em casa. A criança vai para a escola para aprender outras coisas, matemática, história, geografia. Educação é em casa. Agora, nossa cultura machista, de tratar a mulher como objeto, é um verdadeiro desafio. O homem sempre foi violento… Começa com a Bíblia, que criminaliza a mulher, “Eva tentou Adão”. Que papo é esse? Então, os pais, maridos, filhos têm que reagir contra isso.

Justificar estupro é uma maneira de criminalizar a mulher…

Olha só, há algum tempo eu fiz uma ação para o Cevam [Centro de Valorização da Mulher], sempre ajudo a instituição. Faço aquelas minhas antas para serem leiloadas e angariar recursos porque lá elas vivem com muita dificuldade. A última vez que fiz estava sobrecarregado, cheio de projetos e trabalhos a serem entregues, mas parei tudo porque vi uma menina contando que o filho que ela estava esperando podia ser do pai, do irmão ou do avô. Eu não posso ouvir um negócio desses e ficar parado sem fazer nada.

É o fim da picada. Fico louco com isso. A mulher chega para fazer uma denúncia na delegacia e sai de lá constrangida, com medo. Tive uma criação muito boa, mãe e pai fantásticos e, por isso, sempre tive um olhar muito carinhoso pelas mulheres. Tenho três filhas e as respeito muito.

O Instituto Rizzo está recebendo a intervenção hoje, como podemos levar isso para toda a cidade?

Espero que outras empresas e também estudantes queiram desenvolver ações assim. Falo sempre aos jovens que tirem pelo menos uma vez ao mês para cuidar do meio ambiente… Eles vão pegar um País cheio de assassinos e de lixo. A garotada vai para a balada e esquece que existe um País. Fazem mal uso da internet, não aproveitam da quantidade de informação que têm… Ficam com piadas escrotas, divulgando baixaria, como foi o caso da menina do Rio… A internet virou um ambiente muito estranho, se lê menos. Uma pena…

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