A prisão e a deportação de Jacsymon Fonseca Magalhães, conhecido entre brasileiros da Flórida como “Doctor Jack Botox”, levaram uma advogada brasileira que vive em Orlando a tornar pública, pela primeira vez, a própria história. Em entrevista ao jornalista Fernando Machado Borges, ela afirmou que precisou reconstruir o nariz após um procedimento estético realizado por ele em 2024.

A vítima, que pediu para não ter a identidade revelada, contou que aceitou fazer uma intervenção estética acreditando que receberia uma aplicação de ácido hialurônico no nariz. Segundo ela, somente dias depois descobriu que o produto utilizado era PMMA, substância permanente cujo uso estético é alvo de controvérsias e exige indicação específica.

Ela decidiu relatar o caso após a repercussão da prisão do chamado “Doctor Jack” entre a comunidade brasileira de Orlando. Segundo a advogada, Jacsymon era conhecido entre brasileiros da região e realizava atendimentos em residências.

“Conheci ele através de amigos que fizeram procedimento com ele. Ele ia até a casa dessas pessoas. Ele se apresentou como médico no Brasil e eu não questionei se tinha licença para exercer aqui nos Estados Unidos. Pela conduta dele, me pareceu que sim.”

Ela conta que aceitou fazer o procedimento durante um encontro social, quando o profissional realizava uma harmonização facial em uma amiga. “Ele se propôs a fazer um procedimento no meu nariz. Na verdade, fiz muito por pressão das pessoas que estavam ali. Eu não tinha problema nenhum no nariz. Perguntei o que seria aplicado e ele deixou entender que era ácido hialurônico.”

Inchaço, dor e a descoberta do PMMA

Poucos dias após o procedimento, a advogada afirma que começaram as complicações. “Quando tirei o curativo, a ponta do meu nariz estava muito pesada, caída. Meu rosto começou a inchar muito, o nariz ficou vermelho e doendo.” Ela disse que entrou em contato com Jacsymon pedindo a retirada do produto, acreditando que se tratava de ácido hialurônico.

“Pedi que ele fosse até minha casa porque queria retirar o produto. Foi quando ele disse: ‘Isso não é ácido hialurônico, isso é PMMA’. Fiquei completamente desesperada.” Segundo a brasileira, a revelação provocou uma discussão. “Fiquei extremamente irritada. Meu marido precisou intervir porque comecei a questioná-lo. Eu dizia que agora teria de fazer uma cirurgia para retirar aquele material.”

“Tive de refazer meu nariz” A advogada afirma que Jacsymon ajudou com parte das despesas, mas não arcou com todos os custos do tratamento. “Ele ajudou financeiramente, mas de forma muito irrisória. Pagou apenas o que achou justo. Quando chegaram os orçamentos médicos, dizia que não pagaria determinados valores.”

Sem conseguir resolver o problema nos Estados Unidos, ela viajou ao Brasil para realizar uma cirurgia reconstrutiva. “Basicamente tive de refazer meu nariz. Os médicos retiraram um pedaço da minha costela para fazer um enxerto. Foi uma cirurgia muito complicada.”

Segundo ela, o processo de recuperação durou cerca de um ano. “Graças a Deus ficou tudo ótimo, mas foi um ano inteiro de recuperação. Quando retiraram o produto, havia cerca de quatro centímetros de material dentro do meu nariz. Parecia uma minhoca amarela.”

“Não denunciei por dó da família”

Apesar das complicações, a brasileira afirma que optou por não registrar denúncia na época. Segundo ela, a decisão foi motivada por pena da família de Jacsymon. “Não prestei queixa porque tive dó. Pensei na família dele. Fiquei com muita pena. Muitas pessoas diziam que, uma hora, ele faria isso com alguém que não teria a mesma compaixão.”

Ela afirma que acabou vendo essa previsão se concretizar. “Foi exatamente o que aconteceu. Ele fez a mesma coisa com outra pessoa, e essa pessoa teve a coragem de fazer o que eu não tive: denunciar.”

De acordo com documentos da investigação conduzida pelas autoridades da Flórida, os investigadores identificaram mais de 130 transações via Zelle supostamente relacionadas ao exercício ilegal da medicina atribuído a Jacsymon Fonseca Magalhães na região de Orlando.

Relembre

O médico goiano Jacsymon Fonseca Magalhães, conhecido nos EUA como “Doctor Jack Botox”, foi deportado ao Brasil após passar cerca de nove meses preso por atuar ilegalmente na área da saúde na Flórida. Preso em outubro de 2025, ele é acusado de realizar procedimentos médicos sem licença, apesar de ter autorização apenas para trabalhar como técnico em estética.

A investigação identificou mais de 130 atendimentos e apontou que ele aplicava PMMA em pacientes como se fosse Botox, colocando a saúde das vítimas em risco. No Brasil, Jacsymon já havia sido indiciado por homicídio culposo após a morte de uma paciente durante uma lipoaspiração, em 2016, quando também teve o registro profissional suspenso pelo Cremego.

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