O professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e doutor Wilian Vaz Silva, que liderou a pesquisa que resultou na descoberta da Vitreorana micaelae, conhecida rã-de-vidro por ter uma pele transparente, destaca que Goiás ainda possui diversas áreas pouco exploradas, que podem abrigar informações relevantes e desconhecidas sobre a biodiversidade do Estado. Segundo ele, o último levantamento mais abrangente sobre o tema, publicado em 2020, identificou 114 espécies de anfíbios em Goiás. No entanto, dados mais recentes apontam para a existência de mais de 120 espécies.

A espécie foi encontrada em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal e contou ainda com colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade de Brasília (UnB). O pesquisador explica que a confirmação da nova espécie ocorreu em um período relativamente curto, após a realização das análises necessárias. “Algo entre um e dois anos. Entretanto, o processo de descrição que resulta na publicação do artigo científico demorou mais alguns anos”, esclarece em entrevista ao Jornal Opção.

Apesar de a descoberta ter ocorrido em Luziânia, o professor ressalta que a perereca de pele transparente também pode ser encontrada em outros municípios goianos. “Sim. Existem muitas lacunas de amostragem no estado, ou seja, locais que não foram investigados e que possuem características similares que permitem a ocorrência da espécie”, destaca.

Wilian também explica por que a presença da Vitreorana micaelae em território goiano chamou a atenção dos pesquisadores. “Nos últimos anos, os pesquisadores têm conduzido diversas pesquisas com foco no mapeamento da biodiversidade do Cerrado. A espécie pertence a um grupo de anfíbios que são típicos da Amazônia e da Mata Atlântica. O registro no Cerrado, por si só, nos chamou a atenção de imediato. A partir daí, foram realizadas análises morfológicas e moleculares, que resultaram na identificação de uma nova espécie”, relata.

Professor Wilian Vaz Silva lenciona na PUC Goiás | Foto: arquivo pessoal

Espécie pode desaparecer antes mesmo de ter sua população conhecida?

O pesquisador destaca que diversos grupos de pesquisa e especialistas devem contribuir, nos próximos anos, para novas descobertas, ampliando o conhecimento sobre a biodiversidade goiana. Entretanto, questionado sobre a possibilidade de a nova espécie estar ameaçada de extinção antes mesmo de se conhecer o tamanho de sua população, Wilian afirma que os dados disponíveis ainda são insuficientes para uma avaliação conclusiva.

Além disso, o professor explica que a espécie é especializada em ambientes florestais, sendo encontrada principalmente em áreas preservadas, como matas de galeria que acompanham pequenos córregos.

“A espécie depende desses ambientes de mata de galeria, o que remete à importância da preservação dessas áreas para a manutenção de suas populações”, afirma.

Popularmente conhecida como rã-de-vidro, a espécie possui uma característica peculiar: a transparência da pele permite visualizar órgãos internos, como o fígado e o coração. Segundo o professor, essa particularidade funciona como um mecanismo natural de camuflagem, dificultando a identificação do animal por predadores.

“As principais vantagens adaptativas dessa característica, a translucidez, estão relacionadas à difusão do contorno do corpo, permitindo que a espécie permaneça críptica, ou seja, camuflada, protegendo-se contra predadores sem grande gasto energético. A translucidez suaviza sombras e bordas. Quando a luz passa pela pele translúcida, elimina as linhas nítidas do contorno do corpo e as sombras que revelariam sua silhueta para potenciais predadores, como aves e cobras”, explica.

Pela pele transparente, rã-de-vidro tem os órgãos internos visíveis | Foto: Cezar Rocha

O pesquisador acrescenta que essa característica também permite que a luminosidade do corpo do animal varie conforme a incidência de luz sobre a folha em que está, favorecendo sua integração ao ambiente.

Impactos das mudanças climáticas

Wilian explica que os anfíbios, de maneira geral, são especialmente sensíveis às mudanças climáticas e à poluição dos ambientes terrestres e aquáticos devido às suas características morfológicas e fisiológicas.

“Os anfíbios possuem uma pele extremamente permeável, que os deixa vulneráveis a quaisquer alterações do ambiente devido a fatores físicos, como as mudanças climáticas, e químicos, como os poluentes”, explica.

Outro aspecto destacado pelo pesquisador é a importância da vocalização para a comunicação e a reprodução desses animais. Segundo ele, os cantos desempenham diferentes funções nas interações entre indivíduos da mesma espécie.

“Os cantos mais característicos são chamados de cantos de anúncio, nos quais o macho emite sons para atrair a fêmea para a reprodução. Cada espécie possui um canto específico, ou seja, é um atributo único de cada espécie”, pontua.

Para o pesquisador, a descrição de uma nova espécie reforça a necessidade de incentivar, valorizar e ampliar os investimentos em pesquisa básica. Além da importância ecológica, ele destaca que os anfíbios apresentam potencial para estudos científicos voltados ao desenvolvimento de medicamentos.

“No caso específico da Vitreorana micaelae, além de toda a sua importância ecológica, os anfíbios secretam uma série de substâncias pela pele. Essas substâncias químicas representam uma das fronteiras mais promissoras da biotecnologia e da farmacologia para o desenvolvimento de novos medicamentos”, conclui.

Leia também: Saiba mais sobre a perereca de pele transparente que foi descoberta em Goiás