Alunas de escola pública em Goiás desenvolvem bioplástico e larvicida natural com jatobá
20 outubro 2026 às 17h45

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Três estudantes da rede estadual de Goiás transformaram um fruto típico do Cerrado em objeto de pesquisa científica. Gabriella Gomes das Neves, Isadora Rodrigues Rapatoni e Ana Luiza Mendes Barfknecht, do Colégio Estadual em Tempo Integral (Cepi) Osvaldo da Costa Meireles, em Luziânia, desenvolveram um bioplástico para a produção de copos descartáveis e um larvicida natural a partir do jatobá.
Iniciado em 2024, durante as aulas da eletiva de Biotecnologia, o projeto busca alternativas sustentáveis para dois problemas: a poluição provocada pelos resíduos plásticos e a proliferação de mosquitos transmissores de doenças. A pesquisa, orientada pela professora Gabrielle Rosa Silva, ganhou visibilidade nacional e foi selecionada para a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada no campus da Universidade de São Paulo (USP), no primeiro semestre de 2026.
A proposta surgiu da busca por matérias-primas renováveis. Para produzir o bioplástico, as estudantes investigaram o potencial da polpa do jatobá, rica em amido e fibras. A escolha também levou em consideração a necessidade de evitar o uso de alimentos, como o milho, que poderiam ser destinados à alimentação humana.
“A gente começou a pensar: isso é totalmente sustentável, já que você tem que usar um alimento, ou até mesmo comprar no mercado para produzir o produto”, explicou Ana Luiza ao Jornal Opção. Após pesquisas e testes com diferentes formulações, o grupo chegou a um resultado considerado consistente para o bioplástico.
Segundo as informações apresentadas pela professora orientadora, 200 gramas de polpa do jatobá permitem produzir quatro copos biodegradáveis. Os testes do projeto indicam que o material se decompõe em até 60 dias. A pesquisa também levou as estudantes a investigar as propriedades da casca do jatobá.
O interesse surgiu em 2024, quando o grupo observou a presença de água parada na escola, em um período de preocupação com o avanço da dengue. “Com as pesquisas para o bioplástico, a gente descobriu que a casca do jatobá tem muitas propriedades larvicidas”, contou Ana Luiza.
A partir dessa descoberta, as estudantes passaram a estudar o potencial da casca para o desenvolvimento de um produto voltado ao controle de larvas de mosquitos. A proposta é investigar uma alternativa natural para o combate ao Aedes aegypti, transmissor da dengue, da zika e da chikungunya.
Isadora Rodrigues Rapatoni, uma das integrantes do projeto, afirmou ao Jornal Opção que a pesquisa também busca avaliar possíveis impactos do larvicida sobre as plantas. O grupo realiza testes com espécies como o feijão para verificar se o produto provoca danos.
“A gente está olhando mais para plantas reais, com feijõezinhos, para ver se ele causa mal à planta, como os outros que são quimicamente manipulados, ou se não causa”, explicou. A estudante destaca que a iniciativa ainda precisa avançar nos testes, mas considera importante investigar alternativas que conciliem o controle de pragas e a preservação ambiental.
Para Ana Luiza, o projeto também pode estimular o aproveitamento de recursos naturais e fortalecer a economia circular. A estudante afirma que o grupo considera a possibilidade de comercializar os produtos no futuro, tanto para aplicações industriais do bioplástico quanto para a distribuição do larvicida. A eventual comercialização, porém, depende do avanço das pesquisas e da avaliação da eficácia e da segurança dos produtos.
Pesquisa valoriza biodiversidade do Cerrado
Além da busca por soluções ambientais, as estudantes querem ampliar o conhecimento sobre o jatobá e outras riquezas naturais do Cerrado. Isadora conta que a participação em feiras científicas permitiu apresentar o fruto a pessoas de outras regiões do país. “Quando a gente viaja para fora, para São Paulo, ninguém sabia o que era o jatobá. Então, a gente levou essa cultura para fora. Fortaleceu o que a gente tem aqui dentro, que é uma biodiversidade tão diversa”, afirmou.
A pesquisa também proporcionou às alunas a oportunidade de participar de eventos científicos. Além da seleção para a Febrace, o grupo participou da Feira Brasiliense de Tecnologia e Ciência (Febratec), na qual conquistou medalha. As estudantes também ficaram entre os 30 projetos selecionados em uma competição científica promovida pela Samsung, que reuniu mais de mil iniciativas, segundo Isadora.
Embora não tenham avançado à etapa final, a classificação foi considerada importante para a trajetória do grupo. “É muito gratificante, porque a gente tenta escrever desde 2024, há muito tempo trabalhando, e poder chegar onde a gente chegou hoje, conseguindo colher muitos frutos com esse projeto, é muito importante”, disse Isadora.
Apesar das dificuldades, a estudante considera que a experiência demonstra a capacidade de jovens da educação básica de desenvolver pesquisas e propor soluções para problemas concretos. “Muitas pessoas ainda têm estigma com relação à escola pública. Acho que é mostrar que os estudantes são capazes de tirar as ideias do papel e botar na prática”, afirmou.
A experiência está relacionada à importância dos laboratórios de Ciências nas escolas estaduais, que permitem aos alunos formular hipóteses, realizar experimentos e analisar resultados. No caso do Cepi Osvaldo da Costa Meireles, a pesquisa começou em uma atividade curricular e avançou para feiras e eventos científicos.

Professora destaca protagonismo feminino
Para a orientadora Gabrielle Rosa Silva, a participação em projetos científicos ajuda os estudantes a relacionar os conteúdos escolares com a realidade e a ampliar suas perspectivas profissionais. “Participar desses projetos, principalmente na educação básica, faz com que eles enxerguem a realidade e os próprios conhecimentos e hipóteses de uma forma diferente. A ciência aproxima muito mais da realidade”, afirmou a professora ao Jornal Opção.
Gabrielle também destaca a importância de incentivar a presença de meninas na pesquisa científica. Para ela, a experiência permite que as alunas reconheçam suas capacidades e considerem a ciência como possibilidade de carreira. “Sobre as meninas inseridas na ciência, é importante porque nós temos muito poucas meninas e mulheres na ciência. O meu foco sempre foi trabalhar com meninas e mulheres”, disse.
A orientadora desenvolve outros projetos com estudantes da escola, incluindo iniciativas de divulgação científica em Libras, uma luva mecânica voltada à comunicação e um aplicativo para conectar produtores de resíduos a pessoas interessadas em reaproveitá-los.
Entre as integrantes do grupo, a experiência com o jatobá já influencia as escolhas para o futuro. Ana Luiza pretende seguir na área de biotecnologia ou Ciências Biológicas, enquanto outras participantes demonstram interesse por áreas como psicologia e biomedicina.
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