Aluga-se a Avenida 85

Quantidade de imóveis comerciais para alugar escancaram realidade do que já foi um dos principais eixos comerciais de Goiânia

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Texto e fotos: Alexandre Parrode

Quando dizem por aí que a empresa mais bem sucedida no Brasil hoje é a fabricante de placas de “aluga-se” e “vende-se” pode até parecer piadinha de almoço de família, mas basta um giro por Goiânia para se perceber que a brincadeira não é tão surreal assim.

Uma das mais importantes avenidas da capital, que abriga desde grandes concessionárias a pequenas lanchonetes, a 85 está cada vez mais abandonada. No lugar de comércio pujante, portas fechadas e vitrines vazias.

Na manhã desta quinta-feira (22/9), o Jornal Opção percorreu a totalidade da avenida, desde a Praça Cívica até o Extra do Serrinha — quando muda o nome para S-1 — e identificou pelo menos 41 placas de “aluga-se” e mais de dez “vende-se”. São salas comerciais, lojas e até prédios aguardando inquilinos.

Apesar da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estar registrando, há quatro meses consecutivos, aumento no Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) — na comparação entre setembro de 2016 e o mesmo período do ano passado, a variação positiva é de 15% –, a situação ainda é crítica na capital goiana.

Geovar Pereira

Geovar Pereira

A avaliação do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, Geovar Pereira, é que a crise financeira que se abateu sobre o País desde 2014 contribuiu para derrubar o comércio em várias regiões da cidade. “Polos de desenvolvimento, como das avenidas 24 de Outubro, Bernardo Sayão, T-63 e a própria 85 têm sofrido quedas vertiginosas de movimento e, consequentemente, de procura de comerciantes”, argumenta.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas-GO), José Carlos Palma Ribeiro, concorda que o principal motivo é a situação da economia nacional e destaca que há, ainda, a migração do segmento de moda da 85 — em especial no Setor Marista — para a região da Rua 44. “Lá, a infraestrutura é melhor, construíram-se estacionamentos, há hoteis, maior comodidade, que levaram o comprador”, explica.

Não obstante, ambos apontaram ao Jornal Opção que a implantação do corredor exclusivo de ônibus na avenida contribuiu (e muito) para a atual situação. Segundo o responsável da CDL, a decadência começou quando, em 2007, iniciaram a construção do viaduto na antiga Praça do Chafariz. “Hoje, não tem mais como estacionar, o acesso às lojas ficou comprometido e as pessoas têm medo de invadir a faixa exclusiva e serem multadas. Tudo isso contribuiu”, completa.

José Carlos Palma Ribeiro

José Carlos Palma Ribeiro

Justamente por isso, Geovar Pereira aponta que, enquanto outros pontos experimentaram queda de 10% a 15% nas vendas, na 85 há casos de até 80% de diminuição do movimento. “As lojas migraram para outras avenidas, onde conseguem atender melhor o cliente, oferecem estacionamento, mais segurança e até se destacam mais visualmente”, completou. Para ele, a tendência é que a situação piore ainda mais: “Quem está lá é porque é dono do imóvel.”

O presidente do Sindilojas-GO faz questão de dizer que não é contra os corredores exclusivos de ônibus, mas diz que deveriam ter sido implantados na faixa da esquerda (como é na Avenida Goiás) e não na direita. “Não tem comércio que vá para frente do jeito que está. Eu mesmo já entrei em contato com uma das empresas que operam o transporte coletivo e me garantiram que é só uma questão de trocar os veículos para os com portas à esquerda. São algumas rotas que operam na Av. 85, enfim, é uma questão de prioridade”, sustenta.

Questionados se o preço do aluguel na avenida não influenciaria na debandada dos comerciantes, os presidentes explicam que não tem muita relação e funciona a lei da procura e da oferta. “Houve um boom imobiliário, os preços aumentaram, mas agora já caíram demais… E mesmo assim não encontram locatários”, completa Geovar Pereira.

Realidade

Depois de 11 anos, a agência de turismo Luna Viagens trocou a Av. 85 pela Av. Portugal há cerca de seis meses. Funcionário da loja, Luciano Silva explica que havia tido uma queda de 30% no movimento desde o ano passado. Como a maioria dos clientes é atendida pelo telefone ou online, a questão do estacionamento não foi decisiva.

Antiga sede da Lune Viagens

Antiga sede da Luna Viagens

A empresa decidiu se mudar mesmo pelo alto valor do aluguel. “Encontramos uma loja no mesmo tamanho, 40% mais barata”, justifica ele.

O Jornal Opção entrou em contato com alguns dos telefones de imóveis para alugar na Av. 85. Uma das maiores áreas da região, a grande loja localizada ao lado do Burguer King — onde funcionou o comitê de Iris Rezende (PMDB) ao governo em 2014) –, ainda não conseguiu encontrar um inquilino. Diogo Marques, o corretor, explica que não é por falta de propostas: “O cenário é ruim, mas temos grande procura. O problema é que não encontramos uma empresa com nosso perfil. O aluguel é bem alto [R$ 36 mil mensais]”.

mdo

Prédio da MDO que foi alugado

Já acima do viaduto da T-63, a MDO Imobiliária acaba de alugar um prédio relativamente novo nas proximidades do supermercado Extra. Com aluguel de R$ 5 mil, o imóvel foi locado por uma empresa de grande porte que deixa o Setor Oeste. “Ficamos dois meses fechado, mas esperamos que agora a situação melhore em toda a cidade. Sabemos que recuperação efetiva só no final de 2017”, explica o responsável.

O imóvel que abrigou a panificadora Cacauê, próximo à Praça Cívica, está também à procura de locatários. São dois pavimentos: um estava locado até há pouco tempo, mas acaba de ficar vago. “As locações comerciais caíram bastante, comerciantes estão tendo dificuldade, não conseguem manter os negócios. A locação comercial diminuiu bastante. Esperamos que haja uma melhora a partir do ano que vem”, arremata o corretor Vilmondes Batista, da Xangai Imóveis.

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