Álcool, sedentarismo e maternidade tardia estão entre fatores de risco do câncer de mama, diz oncologista
29 setembro 2026 às 18h35

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O câncer de mama tem sido diagnosticado com maior frequência em mulheres mais jovens, cenário que, segundo o oncologista clínico Augusto Rodrigues Neto, está relacionado principalmente a mudanças nos hábitos de vida e no comportamento reprodutivo da população nas últimas décadas.
Em entrevista ao Jornal Opção, o médico destacou que gestações mais tardias, redução do número de filhos e menor período de amamentação aumentam a exposição hormonal ao longo da vida. Ele também citou obesidade, sedentarismo, estresse, consumo de álcool e alimentação inadequada como fatores que podem elevar o risco da doença.
“A principal explicação são os hábitos que a sociedade tem tido. Elas têm tido gestações mais tardias, então elas reduziram o número de filhos também e, consequentemente, estão amamentando por menos tempo”, explicou. De acordo com Rodrigues Neto, o uso de anticoncepcionais também representa um fator de risco, embora considerado pequeno.
Para ele, as mudanças ambientais e comportamentais têm maior peso na alteração do perfil observado atualmente. “As pessoas, no geral, imaginam que a parte hereditária contribui bastante, mutações que aumentam o risco de uma família ter câncer, mas isso, contraditoriamente, tem sido estável. A parte genética hereditária não tem aumentado”, afirmou.
O médico ressaltou que mulheres muito jovens diagnosticadas com câncer de mama podem apresentar maior possibilidade de predisposição familiar, mas ponderou que esse fator não explica, isoladamente, o aumento observado entre pacientes mais novas.
Álcool, sedentarismo e alimentação
Entre os hábitos associados ao risco da doença, o oncologista também destacou o consumo de bebidas alcoólicas. Segundo ele, o álcool é reconhecido como fator de risco para diferentes tipos de câncer, incluindo o de mama. “O álcool é um fator de risco para neoplasia no geral, também para câncer de mama”, disse.
Rodrigues Neto também apontou a atividade física como um fator protetor. Em contrapartida, o sedentarismo, o excesso de estresse e uma alimentação baseada em produtos ultraprocessados, embutidos e alimentos ricos em gordura podem contribuir para o aumento do risco.
“A gente sabe que a atividade física é um fator protetor importante”, afirmou. “Uma alimentação saudável, rica em fruta, verdura, legume, variada. E, por outro lado, uma alimentação rica em gordura, rica em ultraprocessados, embutidos, são fatores de risco sim.”

Outro ponto abordado pelo especialista foi a importância do diagnóstico precoce. Segundo Rodrigues Neto, o Ministério da Saúde passou a recomendar o início do rastreamento do câncer de mama aos 40 anos, idade que já vinha sendo defendida por sociedades médicas.
“A partir de 40 anos todas as mulheres têm que fazer o exame, o rastreamento”, afirmou. Ele explicou que, pela recomendação do Ministério da Saúde mencionada na entrevista, a mamografia deve ser realizada a cada dois anos. Apesar disso, o oncologista ressaltou que casos também podem ocorrer antes dos 40 anos.
Para essas mulheres, a orientação é conhecer o próprio corpo e procurar atendimento diante de alterações que não existiam anteriormente. O especialista citou como sinais de alerta o aparecimento de um novo caroço na mama ou o crescimento de um nódulo já identificado.
“Se aparecer um carocinho que não estava ali, esse caroço está crescendo, às vezes rápido, isso é um sinal de alerta que deve desencadear uma consulta com o médico”, orientou. Ele ressaltou, porém, que a presença de um nódulo não significa necessariamente câncer.
Alterações benignas e dores nas mamas são comuns. Ainda assim, qualquer alteração nova deve ser investigada. “É importante também que as mulheres entendam que caroço na mama não quer dizer que é câncer. É muito comum a mulher ter mastalgia, que é a dor na mama. É muito comum terem alguns carocinhos na mama e a grande maioria é benigno”, explicou.
Para o médico, a identificação precoce continua sendo um dos principais fatores para aumentar as possibilidades de cura. “Quanto mais precoce a gente fizer o diagnóstico, maior a chance de cura”, afirmou. O diagnóstico em mulheres mais jovens também traz desafios específicos para o tratamento.
Segundo Rodrigues Neto, alguns subtipos de câncer de mama, como os tumores triplo-negativos e aqueles classificados como HER2, são proporcionalmente mais frequentes entre pacientes jovens e podem apresentar comportamento mais agressivo.
Ao mesmo tempo, o tratamento precisa considerar questões que vão além do controle da doença, especialmente quando a paciente ainda pretende engravidar.“A questão de fertilidade nos preocupa bastante. A mulher hoje em dia tem a tendência de ser mãe mais tardiamente”, afirmou.
Segundo o oncologista, determinados tratamentos, especialmente a quimioterapia, podem provocar infertilidade. Por isso, quando a paciente ainda deseja ter filhos, a possibilidade de preservação da fertilidade deve ser discutida antes do início do tratamento.
“A quimioterapia pode gerar também infertilidade, não é tão comum, mas pode. A gente tem que ter esse cuidado de às vezes preservar o gameta, às vezes fazer algumas medidas para diminuir a chance de dar infertilidade”, explicou.
O cenário pode ser ainda mais complexo quando o diagnóstico ocorre durante a gravidez. Conforme o médico, alguns tratamentos podem ser realizados durante a gestação, mas outros precisam ser adiados. Após o nascimento do bebê, a mulher também pode ser impedida de amamentar em determinadas situações.
Para Rodrigues Neto, o tratamento deve considerar as diferentes dimensões da vida da paciente, incluindo os impactos emocionais e os projetos pessoais. “Existe uma série de cuidados que impactam não só o psicológico relacionado ao câncer, mas tem outras questões que essa mulher vai ter que enfrentar, e que a gente tem que sempre lidar com bastante sensibilidade para tentar acolher ela”, afirmou.
Apesar dos desafios, o médico ressalta que os avanços da medicina ampliaram as possibilidades para pacientes que desejam preservar a fertilidade. “Existem soluções sim hoje em dia, a medicina tem avançado”, concluiu.
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