Comer apenas duas fatias de peito de peru fatiado por dia já é suficiente para causar um possível problema na saúde cerebral. Isso porque pesquisadores analisaram dados de saúde de quase 500 mil pessoas e verificaram que cada 25 gramas adicionais de carne processada consumida diariamente (quantidade equivalente a aproximadamente duas fatias de frios embutidos) correspondiam a um aumento de 44% a 52% no risco de demência em geral e, especificamente, da doença de Alzheimer.

Publicado no periódico Annual Review of Nutrition, o estudo ‘Alimentos Ultraprocessados ​​e o Cérebro em Envelhecimento: Estado da Ciência’ compilou décadas de investigações sobre alimentos ultraprocessados e envelhecimento cerebral. Os responsáveis pela revisão, no entanto, evitam afirmar que um cachorro-quente provoque perda de memória diretamente. Em vez disso, sustentam que, a longo prazo, existem evidências de que esses produtos podem prejudicar o cérebro ao longo da vida por meio de três mecanismos principais: inflamação, danos aos vasos sanguíneos e interrupção dos sinais químicos que as células cerebrais utilizam para se comunicar.

Ainda assim, os autores classificam a biologia por trás dessas ligações como pouco compreendida e defendem a necessidade de estudos em humanos com melhor delineamento antes que conclusões sejam tiradas.

Além das carnes processadas, como presunto e salsicha, a lista de ultraprocessados inclui refrigerantes, salgadinhos industrializados e outros produtos altamente industrializados. Juntos, esses itens representam mais da metade das calorias que muitos americanos consomem diariamente. Conforme a análise, o que diferencia esses alimentos é que duas coisas acontecem ao mesmo tempo: ingredientes naturais, como fibras e compostos vegetais, são removidos, enquanto açúcar, gordura, sal e aditivos sintéticos (adoçantes, corantes e espessantes) são adicionados.

O consumo desses itens tem crescido em escala global, mas as quantidades efetivamente ingeridas variam bastante entre países. Nos Estados Unidos, os ultraprocessados representam entre 55% e 58% das calorias diárias, uma das taxas mais elevadas do mundo. O Reino Unido também supera a marca de 50%. No Brasil, o índice é de cerca de 21,5% das calorias diárias, enquanto o México registra aproximadamente 29,8%. A Itália apresentou a menor taxa entre as nações analisadas, em torno de 10%.

Paralelamente, uma análise separada dos dados do UK Biobank utilizou modelagem matemática para estimar que substituir 10% das calorias provenientes de alimentos ultraprocessados por alimentos não processados poderia reduzir o risco de demência em 19%. Já no Brasil, um estudo que acompanhou mais de 10 mil adultos por cerca de oito anos constatou que pessoas que obtinham mais de aproximadamente 20% de suas calorias diárias de ultraprocessados apresentavam declínios mais rápidos na memória e nas habilidades de raciocínio. Contudo, esse efeito se manifestou apenas em indivíduos que não seguiam um padrão alimentar benéfico para o cérebro, conhecido como dieta MIND.

A saúde mental também emergiu como área de preocupação. Dados agrupados de várias grandes revisões mostraram que pessoas com maior ingestão de alimentos ultraprocessados tinham entre 22% e 53% mais chances de apresentar sintomas de depressão ou ansiedade, dependendo do desfecho e do conjunto de dados analisados. 

Estudos de neuroimagem associaram o maior consumo de gorduras, refrigerantes açucarados, carnes e produtos cárneos processados a um menor volume cerebral, enquanto refrigerantes açucarados e certos tipos de gordura foram relacionados a danos mais acentuados na substância branca – o tecido que facilita a comunicação entre diferentes regiões do cérebro.

Adicionalmente, pesquisas realizadas em laboratório com animais apontaram para aditivos específicos. Camundongos que receberam aspartame, um adoçante artificial, por longos períodos apresentaram alterações cerebrais associadas à doença de Parkinson. Já o dióxido de titânio, um agente branqueador usado em alguns alimentos processados, prejudicou a memória e o aprendizado em estudos com animais e matou células cerebrais cultivadas em laboratório. Em modelos de Alzheimer, camundongos alimentados com dietas ricas em gordura acrescidas de açúcar ou sal exibiram maior acúmulo, no centro de memória do cérebro, das proteínas tóxicas ligadas à doença.

Os pesquisadores, no entanto, afirmam que a confiança nessas evidências varia consideravelmente e que a ciência raramente chega a um veredicto claro e unânime. Um estudo, por exemplo, mostrou que pessoas que consumiam muito pouco ou muito alimento ultraprocessado apresentaram pior desempenho em testes de memória e raciocínio, sugerindo que a relação pode não ser direta. Além disso, os autores ressaltam que ensaios clínicos capazes de comprovar relação de causa e efeito ainda são necessários.

Mesmo assim, dietas ricas em ultraprocessados continuam sendo associadas a piores resultados para a memória, o humor e a estrutura cerebral, em diversos países e em vários tipos de estudos.

O estudo ‘Alimentos Ultraprocessados ​​e o Cérebro em Envelhecimento: Estado da Ciência’ recomenda intervenções em nível individual, como aconselhamento nutricional personalizado, terapia cognitivo-comportamental e uso de aplicativos de saúde móvel para monitorar a ingestão alimentar. Paralelamente, defende mudanças nos sistemas alimentares para desestimular o consumo de ultraprocessados, com metas alcançáveis e estímulo ao aumento de alimentos in natura ou minimamente processados.

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