Abílio Wolney Aires Neto

Há livros que se leem e livros que se habitam. A Poesia da Literatura Brasileira: do Barroco ao Modernismo, que Maria de Fátima Gonçalves Lima publicou em Goiânia, em 2020, pertence à segunda espécie. Nascido de quinze anos de crítica nos suplementos de O Popular, onde a professora conduziu gerações de vestibulandos pela mão, o volume percorre onze poetas, de Gregório de Matos a João Cabral de Melo Neto, sob a bússola de Ezra Pound: a grande literatura é linguagem carregada de sentido até o grau máximo. Proponho-me caminhar ao lado desse percurso, com a janela aberta para o mundo, a ver que vozes estrangeiras responderam ao que os nossos poetas disseram em português. Porque nenhum poeta escreve sozinho — ou, como diria Cabral, um galo sozinho não tece uma manhã.

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A poesia brasileira começa com uma gargalhada e uma lágrima, ambas do mesmo homem. O Gregório que temperou o português com o tupi e as vozes africanas soube traduzir a brevidade do tempo e a fragilidade do encanto terreno em versos de pura solenidade lírica:

Nasce o sol, e não dura mais que um dia,

Depois da luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

O mesmo poeta pede perdão a Cristo com argumentos de advogado — “Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, / Da vossa alta clemência me despido” —, como o inglês John Donne, que suplicava a Deus que lhe golpeasse o coração. E, como Bocage um século depois, o satírico troca o riso pela súplica à beira do túmulo. Um século mais tarde, em Vila Rica, o ouvidor Tomás Antônio Gonzaga vestiu-se de pastor para amar Marília e aprendeu com Horácio a colher o dia. Preso na Ilha das Cobras, tirou a máscara para dizer que tinha “um coração maior que o mundo” — o mesmo coração que Carlos Drummond de Andrade, cento e cinquenta anos depois, acharia mais vasto que o vasto mundo. Nas Cartas Chilenas, que invocam Dom Quixote e Sancho Pança, o magistrado julgou em verso o governador que não podia julgar nos autos. Por trás de Dirceu está Luís de Camões, a casa paterna da nossa língua lírica, cujo soneto Gregório parodiou e Gonçalves Dias reescreveu:

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer; […]

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

“É querer estar preso por vontade”: é o próprio Dirceu, cativo de Marília antes de ser cativo da Coroa.

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O Romantismo trouxe a saudade. Em Coimbra, em 1843, Gonçalves Dias respondeu à Mignon de Goethe, que sonhava com “a terra onde florescem os limões”:

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Pediu a Deus não morrer sem voltar, e morreu num naufrágio à vista do Maranhão: morreu sem voltar, e no entanto morreu lá. Maria de Fátima mostra, com Manuel Bandeira, que seu indianismo bate no ritmo do tambor; e o bom selvagem, antes de Rousseau, nasceu em Montaigne, das conversas com índios tupinambás levados à França. Álvares de Azevedo, morto aos vinte anos, foi o noivo da morte de “Se eu morresse amanhã” e também o Caliban irônico que zomba do Werther de Goethe — as duas almas do Fausto, uma presa à terra, outra ao infinito. Em sua mesa de estudante, o Digesto de Justiniano dividia espaço com Byron.

Foi Castro Alves quem deu ao Romantismo a voz do protesto. Em “O navio negreiro (Tragédia no mar)”, o poeta desce ao porão como ao inferno de Dante:

Era um sonho dantesco… o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

Interpela o próprio Céu — “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus!” — e termina acusando a bandeira:

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança, […]

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!…

Em “O Século”, recitado no Recife em 1865, a liberdade é crucificada como o Cristo:

O séc’lo é grande… No espaço

Há um drama de treva e luz.

Como o Cristo — a liberdade

Sangra no poste da cruz.

E o mesmo condor, sabendo os dias contados, escreveu aos dezessete anos “Mocidade e morte”, duelo entre a sede de viver e a voz da sepultura:

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio,

Vejo além um futuro radiante:

Avante! — brada-me o talento n’alma

E o eco ao longe me repete — avante! —

O futuro… o futuro… no seu seio…

Entre louros e bênçãos dorme a glória!

Após — um nome do universo n’alma,

Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária:

Teu Panteon — a pedra mortuária!

Viveu ainda sete anos; e o nome que temia ver apagado da lousa está, justamente, no Panteon da história. Como escrevi sobre meu avô, há homens que já nascem póstumos. Por isso o “talento vulcânico” do mais arrebatado dos poetas brasileiros deveria seguir em recital, ao lado da poesia livre de 1922, em todos os teatros do país. A poesia brasileira não precisa escolher entre o condor e o sapo.

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Com o Simbolismo, a poesia buscou o mistério. Alphonsus de Guimaraens, juiz em Mariana, cantou a vida inteira a noiva morta, e sua Ismália, que enlouquece entre duas luas, resolve na morte o impossível:

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par…

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar…

É irmã da Annabel Lee de Poe e da Ofélia de Shakespeare. Ao lado de Alphonsus, embora fora do livro, ergue-se Cruz e Sousa, filho de escravos alforriados e fundador do nosso Simbolismo, a quem Roger Bastide pôs ao lado de Mallarmé — o Cisne Negro, o Dante Negro. Emparedado pelo preconceito do seu tempo, deixou o soneto que, para mim, é o mais belo de sua obra, “Cárcere das almas”:

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades

Do calabouço olhando imensidades,

Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e, sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,

Que chaveiro do Céu possui as chaves

Para abrir-vos as portas do Mistério?!

A prisão é de todas as almas, mas quem a escreveu conhecia grades bem concretas. E, no entanto, a alma emparedada não se resigna ao cárcere: rompe-o pelo alto. Em Broquéis (1893), o mesmo Cruz e Sousa ergueu para o céu uma das mais belas imagens da nossa língua, o soneto “Música misteriosa…”:

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,

Que abris a doce luz de alampadários,

As harmonias dos Estradivarius

Erram da Lua nos clarões dormentes…

Pelos raios fluídicos, diluentes

Dos Astros, pelos trêmulos velários,

Cantam Sonhos de místicos templários,

De ermitões e de ascetas reverentes…

Cânticos vagos, infinitos, aéreos

Fluir parecem dos Azuis etéreos,

Dentre os nevoeiros do luar fluindo…

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,

Na láctea claridade que flutua,

A surdina das lágrimas subindo…

Os “Estradivarius” são os violinos que o luthier Antonio Stradivari fabricou em Cremona, entre os séculos XVII e XVIII — até hoje tidos como os mais perfeitos instrumentos de corda jamais construídos. Cruz e Sousa, que viveu pobre e morreu numa estação de Minas, não precisou possuir um: pôs-lhes o som no céu. O firmamento vira tenda, as estrelas acendem-se como lâmpadas de altar, e a luz da Lua sobe de estrela em estrela como uma surdina de lágrimas. O poeta emparedado transformou o céu numa sala de concerto.

O mesmo mecanismo — a palavra que se acende de verso em verso — já estava em Dante, no canto XXX do Paraíso: “luz intelectual, plena de amor; / amor do verdadeiro bem, pleno de alegria; / alegria que transcende toda doçura”. O Simbolismo brasileiro é um eco tardio dessa litania; e o fecho da Comédia, “o amor que move o sol e as outras estrelas”, bem poderia ser a epígrafe dos concertos para o firmamento — como os fez Cruz e Sousa e nós outros:

Anjos harpejam violinos em arabescos

Miríades pontilham na caligrafia dos astros…

Escrevi esses versos para uma noite do sertão tocantinense, quando a cidade “entretece um firmamento catedralesco que o menestrel pode galopar qual meteoro na vastidão vazia dos sidéreos espaços”. Ao murmúrio do rio, o poeta sai à janela e levanta os olhos para aquela poeira que Castro Alves, em “A Boa Vista”, viu em voo:

A poeira da estrada meu passo levantava,

Porém minh’alma ardente no céu azul marchava

E os astros sacudia no voo violento —

Poeira, que dormia no chão do firmamento.

Nenhum verso da língua junta tão bem o chão e o céu. E peço licença para trazer, dos meus Poemas da 9ª hora (2024) — assim chamados porque a hora nona era, para os antigos, as três da tarde, e os meus versos só se organizaram no outono da existência —, o Jalapão onde aprendi a olhar o céu:

Assentado em vales severos e majestosos

Desdobra-se formoso e desmedido o Jalapão […]

Por ali a mão de Deus cinzela os montes

No mirante entardecer dos planaltos […]

O disco do sol mergulha lentamente

Matizando o calvário nos bulcões do poente

Como hóstia mergulhada no cálice do sacrário

Esbatendo num crepúsculo de maciços calcários

E, no mesmo livro, a noite de junho:

Ó mundos que rolam no azul do outro chão

Ninho de vidas, galáxias, miríades em constelação […]

Esplende o luar, em solidão imponente

Dessa orquestra do Universo, Deus é o regente!

Não tenho a pretensão de me pôr ao lado dos mestres. Mas o poente que mergulha como hóstia no cálice é a mesma liturgia de Alphonsus, e a orquestra regida por Deus é a música das esferas que Pitágoras ouvia e Cruz e Sousa pôs em sonetos. Respondi também ao Cisne Negro, em “Sygnus, o Cisne”, lembrando que o cisne, mudo a vida inteira, “pode cantar triste e belo na hora morte”: no Fédon, Sócrates diz que os cisnes cantam mais belamente quando pressentem a morte, por alegria de irem ao encontro do deus a quem servem. Cruz e Sousa, morto aos trinta e seis anos, cantou-o a vida inteira.

Dele descende, em parte, Augusto dos Anjos, poeta de um só livro, Eu (1912), cujos “Versos íntimos” terminam em vertigem:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

A autora lê o poeta com Schopenhauer e reconhece nele o Expressionismo: no mesmo ano de 1912, em Berlim, o médico Gottfried Benn publicava Necrotério, poemas escritos sobre a mesa de autópsia. Por trás de ambos está Baudelaire.

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Esses poetas, lidos à luz dos grandes clássicos, revelam outra profundidade. Homero, no canto VI da Ilíada, já sabia que “como a geração das folhas, assim é a dos homens” — o que Cecília Meireles diria vinte e oito séculos depois. Ovídio, banido para o Mar Negro, chorou nos Tristes a última noite em Roma com a mesma lágrima de Dirceu na Ilha das Cobras e do estudante maranhense que ouvia em Coimbra o sabiá. Antero de Quental, mestre de Augusto e de Cruz e Sousa, encontrou o repouso que este último procurava: “Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração”.

E há os místicos do Oriente. Rabindranath Tagore, Nobel de 1913, viu a mesma corrente de vida que corre nas veias dançar pelo mundo — a unidade cósmica que Augusto viu como decomposição. Onde Álvares temia a morte, Tagore despediu-se da vida com uma serenidade sem igual. Eis, em tradução minha, o poema da despedida do Oferenda lírica:

Recebi a minha licença. Dizei-me adeus, meus irmãos!

Inclino-me diante de todos vós e parto.

Aqui devolvo as chaves da minha porta, e renuncio a todo direito sobre a minha casa.

Peço-vos apenas as últimas palavras de bondade.

Fomos vizinhos por muito tempo, mas recebi mais do que pude dar.

Agora o dia amanheceu, e a lâmpada que iluminava o meu canto escuro apagou-se.

Chegou o chamado, e estou pronto para a minha viagem.

Há na tradição indiana um provérbio que Tagore ajudou a trazer ao Ocidente e que comentei num posfácio: o sândalo perfuma o próprio machado que o derruba. Gonzaga no cárcere, Gonçalves Dias recusado pela família da amada, Cruz e Sousa emparedado: foram todos golpeados — e todos perfumaram o machado.

Khalil Gibran, nascido nas montanhas do Líbano, deixou em O Profeta (1923) a página sobre o amor que transcrevo, também em tradução minha, em suas passagens centrais:

Quando o amor vos chamar, segui-o,

Ainda que seus caminhos sejam ásperos e íngremes.

E quando suas asas vos envolverem, entregai-vos,

Ainda que a espada escondida entre suas penas vos possa ferir.

Pois, assim como o amor vos coroa, assim vos crucifica.

Assim como vos faz crescer, assim vos poda. […]

O amor nada dá senão a si mesmo, e nada recebe senão de si mesmo.

O amor não possui, nem quer ser possuído;

Pois o amor basta ao amor.

Quando amardes, não digais:

“Deus está no meu coração”, mas antes:

“Estou no coração de Deus”. […]

Despertar de madrugada com o coração alado e agradecer por mais um dia de amor;

Repousar ao meio-dia e meditar o êxtase do amor;

Voltar para casa ao entardecer com gratidão;

E então dormir com uma prece pelo amado no coração e um cântico de louvor nos lábios.

Leio essa página e penso em Dirceu, que amou Marília através das grades; em Gonçalves Dias, a quem o amor foi negado por ser mestiço; em Alphonsus, que amou uma morta a vida inteira. Todos conheceram a espada escondida entre as penas. Nenhum deixou de seguir o amor. Cecília Meireles, tradutora de Tagore, é a ponte viva entre os dois mundos.

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Entre os dois séculos ergue-se a Semana de Arte Moderna de 1922. Filha do Futurismo e de Apollinaire, encontrou sua resposta brasileira no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que trocou o “ser ou não ser” de Hamlet por “tupi ou não tupi”: a cultura estrangeira não seria copiada, mas devorada. A Antropofagia apenas deu nome ao que a nossa poesia fazia desde Gregório. No Theatro Municipal, sob vaias, leu-se a sátira de Manuel Bandeira contra os parnasianos:

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: “Meu cancioneiro

É bem martelado”.

E o poeta, ao saber das vaias, riu gostosamente. Tuberculoso aos dezoito anos, Bandeira fizera da morte uma vizinha íntima, inventou em Pasárgada um paraíso de humor e cotidiano e, em “Noite morta”, viu passar pela estrada vazia uma “procissão de sombras” — as mesmas que Ulisses encontrou no Hades.

O alvo dos sapos, Olavo Bilac, deixou ele próprio a mais bela definição da alma mestiça deste país, em “Música brasileira”:

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

O índio de Gonçalves Dias, o africano de Castro Alves e o português saudoso de Camões cabem num só terceto.

Depois de 1922, a poesia brasileira pôde ser coloquial, livre e irônica. Cecília, no Romanceiro da Inconfidência, devolveu Gonzaga à cena, como Lorca fizera com a Andaluzia cigana; ali as palavras aéreas, que “nas mãos dos juízes” condenaram homens à forca, não voltam mais. Drummond retomou a máquina do mundo de Camões para recusá-la, onde Vasco da Gama a aceitara, e pôs no meio do caminho uma pedra que não se gastou em quase um século. Quintana, tradutor de Proust, fez da memória a sua “difícil simplicidade” e definiu o poema como uma pedra no abismo, cujo eco faz ouvir a profundidade. E João Cabral, “educado pela pedra”, fez do Capibaribe um rio que fala — tema do capítulo mais original do livro, fruto da tese de doutorado da autora: um rio que desce do sertão ao mar, atravessa a Usina que mastiga a cana e os homens, e chega a uma cidade partida em duas. Heráclito já sabia que não se entra duas vezes no mesmo rio; Tales de Mileto, que tudo começa na água. Os versos desses quatro ainda pertencem aos herdeiros, e por isso os evoco sem transcrevê-los.

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Uma constatação me comove, a mim que venho do púlpito, do pretório e da tribuna: muitos desses poetas vestiram a toga. Gregório foi desembargador da Relação; Gonzaga, ouvidor e desembargador; Alphonsus, juiz em Mariana; Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos passaram pelas Arcadas e pelas faculdades de Direito. Lá fora, Petrarca estudou leis em Bolonha, Goethe e Heine foram juristas, e Wallace Stevens escrevia poemas a caminho do escritório de seguros. E a própria Maria de Fátima, nascida em Araguaína, passou pelo Direito antes de abraçar as Letras, e ocupa desde 2018 a Cadeira 5 da Academia Goiana de Letras. A toga ensina a pesar a palavra; a lira ensina a fazê-la cantar. Rui Barbosa escreveu que todo bom magistrado tem muito de heroico em si mesmo; eu acrescentaria que tem, também, muito de poeta, porque julgar é, no fundo, dar à dor alheia a forma justa.

Resta a pergunta que me acompanha: ainda temos poetas? Em 2018, num prefácio, perguntei se não seria tempo de tirar a arte da cruz onde a modernidade líquida de que fala Bauman a pregou — a cruz da pressa, do consumo, do esquecimento. Respondo hoje que sim, temos. Hölderlin já perguntava “para que poetas em tempo de penúria?”, e o cânone, sabemo-lo bem, só se faz depois: Cruz e Sousa morreu desconhecido, Augusto publicou um único livro, Cora Coralina estreou aos setenta e cinco anos. As máquinas compõem versos, mas nada arriscam neles; o poeta arrisca a vida em cada linha. Neruda disse que a poesia é de quem precisa dela; e os poetas, digo eu, são feitos de brasas que o vento do tempo não apaga, apenas aviva. Tagore escreveu para o leitor de daqui a cem anos — e nós somos esse leitor.

Escrevi um dia, para Cora, a velha doceira da Casa da Ponte, versos em que a vejo de pé na varanda do mundo, na sacada da fonte, a ver passar o Rio Vermelho como quem vê passar a história. E em “De volta às origens” deixei a síntese que agora devolvo a este ensaio: a história é a lápide, a poesia são as flores.

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Goethe encerra o seu Fausto com a promessa dos anjos: “Quem se esforça sempre a aspirar, esse podemos nós salvar”. Os poetas deste livro foram assim: seres em chegada, nunca em repouso. Maria de Fátima Gonçalves Lima os recolheu com mãos de professora e coração de poeta. Suas escolhas, como toda antologia, elegem umas vozes e deixam outras à espera — e essa espera não o diminui: é o convite natural a um segundo volume, onde caibam Castro Alves, Cruz e Sousa, Bilac, Cora e tantos outros que aqui chamei à conversa.

Fecho o livro e abro a janela. A poesia brasileira não é um quarto fechado; é uma varanda debruçada sobre o mundo.

Ainda há poetas. E há, sobretudo, quem os guarde.

Observação: As citações de autores estrangeiros — Homero, Ovídio, Dante, Goethe, Tagore, Gibran e outros — são traduções livres do autor. Os poemas de autores brasileiros cuja obra ainda não caiu em domínio público foram evocados, e não transcritos.