A incômoda homossexualidade

“Sempre existem outras formas de fortalecer a teoria da reversão sexual, sob aplausos de uma legião de defensores, inclusive fora do universo religioso”

Cristina Lopes

Autorizar terapias que prometem reorientar a sexualidade dos gays confirma a sutileza do comportamento discriminatório brasileiro. Tutelada pela falsa boa intenção, tal perspectiva na verdade favorece a perseguição e a opressão de gênero, corroborando com o cenário estarrecedor de violência, que coloca o país no topo das nações onde mais se matam homossexuais. Só em 2016, foram 343 mortes, sem contar outras formas de agressão.

Sob o discurso velado da terapêutica, persiste o argumento de que há algo errado na natureza dos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Um traço que incomoda, foge ao modelo da família tradicional, sem a qual ninguém pode ser feliz, segundo os conservadores que querem submeter o mundo ao seu próprio olhar, sem qualquer referência científica ou filosófica.

O ser humano que carrega tal tendência é conduzido, muitas vezes por correntes religiosas, a se entregar a um processo profundamente opressor. Abre mão de seu próprio desejo ao se submeter à promessa falaciosa de que conseguirá se livrar do pensamento pecaminoso e da culpa que dele advém. Isso tudo para ser aceito pelo julgo alheio.

Mas costuma surgir um obstáculo aos defensores da cura gay: como operá-la se essa “terapêutica” não é aceita? Desta vez, a via judicial foi o caminho. Mas sempre existem outras formas de fortalecer a teoria da reversão sexual, sob aplausos de uma legião de defensores, inclusive fora do universo religioso.

A essa perspectiva, somam-se outros argumentos absurdos, dignos de serem mencionados. Atribuir à psicoterapia a capacidade de reorientar a personalidade revela profundo desconhecimento do poder desta ferramenta na busca do entendimento e da aceitação de si mesmo.

A ideia da reversão também sugere a hipótese de que o heterossexual pode se transformar em gay, o que não tem qualquer fundamento. A forma de designar o comportamento sexual está longe de traduzir a complexidade humana, que pode se manifestar das mais diversas formas, independente de nomenclaturas.

A perspectiva de alterar a orientação sexual desconsidera pesquisas e práticas clínicas que levaram a Organização Mundial de Saúde e o Conselho Federal de Psicologia a proibirem a classificação da homossexualidade como doença e, em conseqüência, qualquer terapia de reversão sexual. Caberia então à Justiça decidir sobre o tema, desconsiderando o que os especialistas em comportamento dizem, referendados por seus órgãos de representação?

Os que têm algum compromisso com a Humanidade precisam abrir a mente para combater toda e qualquer opressão, especialmente no âmbito da sexualidade. Poucos refletem sobre as consequências para aqueles que precisam se esconder do julgamento social, da família, de amigos, de colegas de trabalho, simplesmente para serem o que realmente são.

Jamais viveremos em um mundo pleno, enquanto um padrão for imposto como forma de terapia para igualar o diferente.

Cristina Lopes Afonso é fisioterapeuta especializada no tratamento de queimaduras, vereadora em Goiânia e presidente da Comissão da Pessoa com Deficiência da Câmara Municipal

 

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