Mais de 30% dos brasileiros relatam assédio e 58% das vítimas não se sentem seguras para denunciar, aponta pesquisa
30 setembro 2026 às 18h49

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Mais de 30% dos brasileiros afirmam ter sofrido algum tipo de assédio no último ano, segundo levantamento da KPMG. Apesar disso, 38% das pessoas que passaram pela situação permaneceram em silêncio e 58% disseram não se sentir seguras para denunciar. O cenário expõe não apenas a dificuldade das vítimas em buscar ajuda, mas também os obstáculos enfrentados pelas empresas para investigar e responder aos casos.
A Pesquisa Nacional sobre a Maturidade no Combate ao Assédio no Brasil – Panorama 2026 mostra que 49% das organizações não possuem um protocolo específico para investigar denúncias de assédio moral ou sexual. Outros 35% não têm uma política formal que estabeleça quais medidas devem ser adotadas quando uma denúncia é comprovada.
A falta de estrutura também atinge os profissionais responsáveis pelas apurações. Segundo o levantamento, 42% deles afirmam sentir algum grau de insegurança no exercício da função, cenário associado à falta de autonomia, respaldo institucional e mecanismos de proteção para conduzir investigações.
Para Rafael Mendes, CRO da LEME Inteligência Forense, o aumento da disposição dos trabalhadores para denunciar também amplia a responsabilidade das empresas na condução dos casos. “As pessoas estão mais conscientes dos seus direitos e cada vez mais dispostas a denunciar condutas inadequadas. Isso amplia a responsabilidade do compliance, que precisa garantir investigações rápidas, imparciais e bem conduzidas, além de assegurar que as medidas adotadas sejam capazes de evitar a repetição do problema”, afirma.

Por conta disso, empresas têm recorrido a ferramentas capazes de centralizar denúncias, investigações e informações relacionadas aos riscos. A proposta é permitir que casos que antes apareciam de forma isolada possam ser analisados em conjunto, revelando padrões de comportamento.
“O objetivo é produzir inteligência capaz de revelar vulnerabilidades que dificilmente chegariam ao conhecimento da alta gestão pelos canais tradicionais e tratá-las com agilidade e de forma estruturada”, diz Mendes.
Um exemplo citado pelo executivo é o de um gestor que mantém, durante anos, comportamentos abusivos contra a equipe. Sem um canal seguro, os episódios podem permanecer isolados e não chegar à direção. Com uma ferramenta independente e anônima, diferentes relatos podem revelar um padrão que antes permanecia invisível.
A LEME, então, desenvolveu o Farol da Integridade, plataforma que reúne gestão de denúncias, monitoramento de riscos, investigações e treinamentos. O sistema permite o registro de ocorrências de forma identificada ou anônima e concentra as etapas de análise e apuração em um único ambiente. “O mercado amadureceu. Hoje, não basta ter um programa de compliance no papel. As empresas precisam demonstrar que ele funciona, que os riscos são monitorados e que existe capacidade de resposta quando uma irregularidade acontece”, afirma Mendes.
Segundo ele, a existência de um canal estruturado também pode contribuir para aumentar a confiança dos trabalhadores. “O canal é seguro, confidencial e estruturado para o registro e acompanhamento de ocorrências, dando previsibilidade ao processo de apuração e reforçando a confiança de que relatos de irregularidades serão tratados de forma adequada.”
Dados ajudam a mapear riscos
Além de receber denúncias, plataformas desse tipo podem transformar os registros em informações para prevenção. A análise conjunta dos dados permite identificar padrões, acompanhar a evolução dos casos e auxiliar a tomada de decisões. “Dados utilizados de forma inteligente permitem que a empresa tenha uma visão integrada dos riscos, identifique padrões de comportamento, acompanhe a evolução dos casos e tome decisões preventivas com base em informações rastreáveis e auditáveis”, explica o executivo.
As informações também podem subsidiar o levantamento de riscos psicossociais previsto na NR-1 e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A partir dos relatos, empresas podem identificar situações que afetam o ambiente de trabalho e adotar medidas preventivas.
Para Mendes, o combate ao assédio precisa deixar de ser tratado apenas como uma obrigação formal. “O maior erro é acreditar que compliance serve apenas para cumprir uma exigência legal. Hoje, ele protege receita, reduz riscos e preserva a reputação da empresa.”
A tecnologia, porém, não elimina a necessidade de preparação das equipes. Dados da pesquisa mostram que 12% das empresas não realizam treinamentos sobre assédio, enquanto 25% promovem essas ações apenas de forma pontual.
Entre os profissionais responsáveis por investigar denúncias, 26% nunca receberam capacitação técnica para exercer essa função. “Nenhum programa de compliance é efetivo se colaboradores, lideranças e equipes responsáveis pelas investigações não estiverem preparados para prevenir, identificar e tratar irregularidades”, afirma Mendes.
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