O professor Wolfgang Teske faz um mergulho na história da construção do que chamou de “maior complexo de educação do Tocantins”, por meio de crônicas registradas em livro, e oferece uma fotografia vibrante e chocante de um período da construção de Palmas. “Chegar a Palmas, capital do Tocantins, uma cidade planejada que estava em plena implantação em 1992, e me defrontar com um grande canteiro de obras para aqui iniciar a construção de um Complexo Educacional, desde o maternal até à pós-graduação, iniciando do zero, foi, sem dúvida, o maior desafio da minha vida”, diz, em trecho do livro O Maior Desafio, a implantação do primeiro Complexo Educacional em Palmas –Tocantins, em que resgata lembranças do pioneirismo do início da capital.

Teske destaca que o grande projeto que o trouxe a Palmas sempre foi de oferecer uma educação crítica e emancipadora, que formasse cidadãos, postura que, segundo ele, bateu de frente com o domínio político da época, o que resultou em choques, perseguições e incompreensões, mas que algo não afetou o projeto institucional – pelo contrário, o reforçou. “A grande ideia da época desse projeto [Ulbra] foi realmente ser uma instituição que formasse cidadãos críticos, conscientes do seu papel na sociedade. Tivemos muitos problemas de choque com a situação política da época. No Tocantins, reinava um coronelismo político, um domínio completo que, eu não tenho nenhum receio em dizer, até dominava consciências”, desabafa.

Wolfgang Teske, que, além da docência, atua como analista político, aponta que algo de errado está acontecendo com a sociedade brasileira, que perdeu a noção de respeito às regras constitucionais, que valem para todos. “Se estamos num sistema democrático, ele tem regras que valem para todos. E essas têm de ser seguidas e respeitadas. Que a sociedade aprenda a respeitar e não seja estimulada ao ódio. Nós estamos vendo ódio. Quando predomina essa coisa de espalhar ódio, isso é um braço do fascismo e não podemos aceitar”, alerta o professor, ao enfatizar no fascismo não há liberdade para se formar cidadãos críticos e conscientes dos seus direitos e deveres.

Wolfgang Teske é jornalista, educador e teólogo, com doutorado em Ciências do Ambiente/Natureza, Cultura e Sociedade, pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). É pesquisador com vasta experiência nos estudos da teoria de folkcomunicação e com comunidades quilombolas. É membro efetivo da Academia Palmense de Letras (APL), professor da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) e pioneiro em Palmas. Este é seu quinto livro, o primeiro do gênero de crônicas. Os outros trabalhos são resultado de pesquisa acadêmica.

Minha preocupação foi deixar registrado a construção do maior complexo educacional de Palmas os seus bastidores

Como o sr. avalia a edição dessa obra que registra o início da construção de Palmas pela ótica da memória de um pioneiro na área da educação?

Na verdade, esse é o primeiro livro de crônicas que eu escrevo. E o fiz para mostrar uma história que se passou há 30 anos, quando esta cidade estava em construção. A minha preocupação foi deixar registrado o processo de construção do maior complexo educacional da capital, que começava com o maternal e seguia até a pós-graduação. Foram os primeiros cursos de pós-graduação oferecidos neste Estado. A grande ideia da época desse projeto [Ulbra], foi realmente ser uma instituição que formasse cidadãos críticos, conscientes do seu papel na sociedade. Tivemos muitos problemas de choque com a situação política que estava no poder. No Tocantins na época reinava um coronelismo político, um domínio completo, e eu não tenho nenhum receio em dizer, que até dominava consciências. E qual é o papel da universidade? Exatamente este: fomentar o pensamento crítico e, apesar de muitos enfrentamentos – até com ameaças –, com projetos e programas desenvolvidos conseguimos mostrar a importância de uma instituição que escuta a sociedade.

Como foi para o sr. comandar a construção de uma obra que impulsionou o desenvolvimento da educação de uma cidade quando ela ainda era apenas um canteiro de obras?

No livro, descrevo algumas das inúmeras experiências de vida, de muitos momentos marcantes, da elaboração e incentivo da criação de tantos e diversos projetos e programas. Muitos desses programas duram até hoje e eram inovadores. Por exemplo, integrar o esporte à educação e à cultura, fazendo de tudo isso um só projeto, tendo como interesse maior o desenvolvimento de Palmas e do Estado. São muitos projetos que relato no livro, mas podemos destacar a realização do primeiro debate eleitoral promovido neste Estado, foi dentro de uma universidade. Outro projeto que eu destaco foi o seminário que abriu o debate sobre a necessidade de revisão do Plano Diretor. Palmas é uma cidade planejada e como cidade planejada o Plano Diretor era quase que intocável. E nós sabíamos dos problemas que a cidade estava enfrentando. Então, nós propusemos e foi realizado o primeiro Simpósio de Alternativas de Desenvolvimento Regional. Isso mexeu com o governo municipal, com o governo do Estado, com a universidade e com a sociedade de uma maneira geral. Despertou a atenção de várias instituições da sociedade civil e, a partir daí, pela primeira vez ganhou relevo o debate sobre revisão do Plano Diretor. Alterações, modificações do Plano Diretor que precisam ocorrer, finalmente começaram a ser efetivadas.

Trouxemos técnicos e profissionais do Ministério de Ciência e Tecnologia, pessoas que lidavam com plano diretor, profissionais da equipe do governo de Jaime Lerner, do Paraná, que era uma referência em soluções inteligentes em termos de planejamento urbano e outros tantos profissionais, pesquisadores e intelectuais que trabalhavam com a temática. A partir daí, se começou a pensar a cidade de forma diferente, sobretudo criando condições de participação efetiva da sociedade. Então, isso são discussões que fatalmente envolvem a questão política, mas aí você está formando cidadãos críticos, isso sim é liberdade dentro de um processo organizado de construção e organização da sociedade. 

Como se não bastasse o desafio de construir um complexo educacional naquele momento de construção de Palmas em que tudo era provisório, veio ainda a construção do Câmpus Universitário numa avenida que ainda não estava aberta. Como foi esse novo desafio?

Já com dois anos de existência, o espaço já estava ficando pequeno no primeiro local que era a Avenida JK e aí nós tínhamos de procurar um novo local. Foi feita uma negociação com particulares porque o governo se negou a disponibilizar área. O governo dava áreas para todos os seus apadrinhados, mas não favoreceu uma universidade que veio trazer desenvolvimento, de acordo com o seu lema, onde o futuro já começou. Mesmo assim, distante dez quilômetros, no meio do Cerrado, sem acesso, sem estrada, sem energia, sem água, ali nós iniciamos a construção do novo câmpus, hoje instalado na Avenida Teotônio Segurado, isso em 1995, tivemos de abrir a estrada para garantir acesso. O que hoje é perto, mas na época muitos não conseguiam encontrar o local. Nós sabíamos que um dia se tornaria “perto”. Nós fazíamos um planejamento para 20 anos, mas nem precisou tanto tempo. Contar essas histórias e seus bastidores, as negociações, os conflitos e como se venceu, isso tudo está nessa obra.

Espero que a obra repercuta na sociedade, de forma a contribuir com a organização da memória de Palmas

O livro não chega a ser polêmico, mas nos relatos de bastidores, como o sr. diz, revela-se que não foi fácil o diálogo com o governo. Qual a sua expectativa em relação a receptividade da obra junto ao público leitor? Acha que pode provocar algum mal-estar pelas revelações?

Não sei dizer que impacto este livro vai ter na opinião pública. Mas eu espero que essa obra impulsione muitos a refletir sobre o nosso passado e tenham a coragem de se manifestar, de contestar, se for o caso, de propor alternativas para algo que não está correto. E, se necessário, mobilizar a sociedade para mexer com políticos que se julgam donos do poder. Jamais devemos nos curvar a políticos que se comportam como donos do poder. Devemos, sim, propor uma sociedade mais justa, que lida não só com igualdade, mas principalmente com equidade. Acho que isso é uma falha por parte de muitos governantes, que querem propor igualdade, mas se esquecem que o mais importante é a equidade. Com equidade, aí sim, nós vamos propor uma sociedade que se respeita, que respeita o diferente, em suas mais diferentes formas, acho que isso deve ser respeitado. Nesse livro de crônicas, eu deixo um exemplo. Espero que a obra repercuta na sociedade, de forma a contribuir com a organização da memória de Palmas. Acho que devemos registrar a história. Muitas coisas passam e não ficam registradas. Eu sempre me preocupei com isso quando vim para cá, em filmar e em fotografar tudo que estava acontecendo.

Passaram por esta instituição, que teve início em prédio de madeira, vereadores, deputados, governador, vice-governador, senadores

O senhor começou na educação, passou pelo mundo dos negócios, militou na política, foi candidato a deputado federal, e agora está em sala de aula novamente. Como o sr. avalia o desafio da reconstrução da educação, depois dessa tentativa de desmonte?

Eu penso que a educação precisa de um suporte maior de recursos. Os professores precisam ser qualificados constantemente. Eu também diria que remunerados de acordo, e que possam com liberdade agir dentro de uma sala de aula. É uma questão de liberdade de cátedra. Sou favorável aos concursos. Então, eu continuo lidando com educação, fazendo pesquisa. Lá se vão mais de 35 anos que milito no magistério superior, são sementes que vamos espalhando e que vão dar seus frutos. Veja o que aconteceu aqui nestes 30 anos: passaram por esta instituição, que teve início em prédio de madeira, vereadores, deputados, governador, vice-governador, senadores. Passaram por esta instituição em sua formação. Quantos estão em cargos de chefia, de direção, tanto em órgãos públicos quanto na iniciativa privada, como empreendedores. Então, isso mostra que realmente a educação é fundamental, pois sem ela a sociedade está perdida.

Nossa sociedade, sob o ponto de vista político, está doente

Em sua visão de analista político, que avaliação fazer do resultado das eleições? Qual foi o recado das urnas em 2022?

Sou muito franco em dizer isto: nossa sociedade, sob o ponto de vista político, está doente. É possível ver que alguma coisa está errada. Não é possível passarmos por um processo eleitoral e seu resultado, proclamado de forma transparente, ser contestado por um grupo de pessoas impulsionado por grupos de WhatsApp e outros meios para não aceitar o resultado das urnas. Pense você se fosse o contrário. Por exemplo. Se o atual governante tivesse conseguido se reeleger e a oposição com agrupamento de vários partidos tivesse perdido e fosse fazer a mesma coisa nas ruas. O que aconteceria com esses grupos? Com certeza já estariam dispersos, muitos de seus integrantes presos, respondendo por crimes. A gente tem de analisar isto. Se estamos num sistema democrático, ele tem regras que valem para todos. E essas regras têm de ser seguidas e respeitadas. Que a sociedade aprenda a respeitar e não seja estimulada ao ódio. Nós estamos vendo ódio. Quando predomina isso de espalhar ódio, vemos um braço do fascismo e não podemos aceitar, porque, a partir desse momento, não teríamos mais liberdade para formar cidadãos críticos e preparados para realmente propor e ajudar a construir uma sociedade melhor.

Lutar faz parte do meu DNA

O sr. ainda tem esperança de mudança, com este cenário de radicalismo tosco, sem causa?

Esperança eu tenho sempre. Esperança nunca deixei de ter e luto por ela. Como também luto por um sistema democrático sempre. Ele está frágil no Brasil, mas isso é o que temos e é o que temos de defender. Lutar faz parte do meu DNA.