Viva Palmas, horizonte da nova civilização do cerrado

A cidade guarda contradições importantes, mas foi capaz de se reinventar e moldar o seu jeito próprio de ser

Vista da região central de Palmas, com o Palácio Araguaia ao fundo | Foto: Divulgação

Por pouco Palmas não seria vaias.

No dizer da inteligente e provocativa charge do talentoso Jorge Braga. “Palmas se der certo, se não der vai ser vaias”, quando do lançamento da pedra fundamental da capital definitiva do Tocantins. A falta de habilidade política do então governador Siqueira Campos, a pressa em fazer história, aliado à esperteza política, fez com que parte do Estado não aderisse ao projeto de construção da capital. E isso custou caro à nova cidade, pelo menos no começo.

O sentimento de indiferença com Palmas surge um pouco antes do lançamento da sua pedra fundamental. Tem origem na escolha da cidade que sediaria a capital provisória. Araguaína não aceitou a indicação de Miracema e fechou a Belém-Brasília em um protesto que repercutiu nacionalmente. Gerando o primeiro movimento contra o governo antes mesmo do governador Siqueira Campos tomar posse. O movimento acusava o governo de traição. E usava como argumento a palavra dita do governador, ainda em campanha.

Esse sentimento foi compartilhado em parte por Gurupi, Paraíso e Porto Nacional, cidades que também se sentiram desprestigiadas na escolha da capital. Não se manifestaram de forma barulhenta quanto Araguaína, mas também não aprovaram a escolha. Siqueira foi o grande responsável pela resistência. Durante a campanha eleitoral fez compromisso que a capital deveria ser instalada na maior cidade do Estado e permitiu que Araguaína sonhasse. No final optou por  Miracema, uma cidade improvável, já planejando a construção de uma cidade nova para sede da capital e prevendo que se colocasse em Araguaína ou Gurupi, dificilmente conseguiria transferir depois para a capital definitiva. Neste prognóstico o governador estava correto. Até Miracema, que recebeu a indicação como um grande presente de Siqueira Campos reagiu contra a transferência, imagina se como seria retirar a capital de Araguaína ou Gurupi?

Por essa e outras rações Palmas por muito tempo pareceu uma cidade fantasma, um canteiro de obras abandonado. Que corria o sério risco de não vingar. As obras caminhavam lentamente enquanto Miracema explodia em crescimento inflada pelo repasse de FPM de capital. Uma frase célebre do secretário de Administração da época chamou muita atenção. O secretário confessou que era tanto dinheiro que o prefeito e seu equipe não sabiam o que fazer.

O governador Siqueira Campos até tentou ajudar a Prefeitura de Miracema a empregar bem os recursos da capital. Solicitou empréstimo para o Estado construir obras prioritárias para o Estado. O então prefeito Sebastião Borba, na sua linguagem de homem simplório que era, disse que para o Siqueira não emprestava, pois conhecia a sua fama de “velhaco”. Restava ao governador transferir a capital o mais rápido possível, mas o canteiro de obras não avançava.

Nem mesmo a transferência da capital, em 1º janeiro de 1989, foi capaz de despertar o seu crescimento de Palmas. O governador transferiu a capital e o capital, mas não os servidores. Os prédios públicos para abrigar o governo estavam em construção, bem como a vila residencial (Vila dos Deputados) das autoridades – deputados, secretários, magistrados – mas não para os servidores.

O governador Siqueira Campos que escolheu o nome, desenhou os símbolos, deu nomes a ruas e avenidas, criou ainda os slogans que marcaram cada época da Palmas. O primeiro, “última capital planejada do século”, com retirada à força dos antigos proprietários, desapropriados de suas terras para doação de terreno em regime de comodato para abrigar os novos moradores. Depois “capital ecológica do ano 2000” enquanto toda a vegetação do cerrado era destruída para ceder espaço para a urbanização e replantio de mudas exóticas. O grau de violência que jamais seria reparado, nem mesmo anos depois quando a Justiça deu ganho de causa aos antigos proprietários, com direito a pagamento justo pela desapropriação. Palmas era identificada ainda como a cidade mais central do Brasil, no centro geodésico do país.

Foi preciso tempo, paciência e injeção de recursos públicos para Palmas experimentar o seu primeiro surto de crescimento. A propaganda ostensiva que o governo veiculava fora do Estado, explorando a ideia de eldorado, atraiu uma leva de empreendedores que impulsionaram o crescimento da cidade. Mas foram mesmo as obras estruturantes bancadas com recursos público e a força da mão de obra operária que movimentaram a economia da insipiente capital.

A mudança de governo em 1991 fez bem a Palmas. Sai Siqueira e entra Moisés Avelino, de Paraíso, tido como um dos líderes da oposição pouco empolgado com a construção da capital. No governo Avelino mostrou o contrário. Iniciou um conjunto de obras estruturantes que impulsionou o desenvolvimento da cidade. Palmas entraria num circulo virtuoso de cidade líder em crescimento no país.

Lei seca
Muita gente hoje não faz a menor ideia de como foi difícil a construção de Palmas. Para manter a disciplina o governo teve que adotar restrições e fechamento, editando a lei seca. Que proibia a venda de bebida alcóolica no plano diretor da cidade. O governo temia perder o controle em função da situação de privações que viviam os operários, com muito tempo longe da vida social e convívio com a família.

Era proibido no Plano Diretor, não no distrito de Taquaralto, que ficava a 20 quilômetros. A medida manteve a segurança do canteiro de obras e despertou o desenvolvimento do distrito que rapidamente se transforma na primeira cidade satélite de capital. Para se ter uma ideia, a região é hoje a mais habitada de Palmas, com mais 100 mil pessoas, uma cidade paralela, com vida própria. É o comércio popular de Palmas. Taquaralto está para Palmas como Campinas, está para Goiânia.

Pois bem, como medida para atrair os servidores públicos para Palmas o governo teve que bancar transporte público, saindo das cidades de Miracema, Paraíso e Porto Nacional e ainda Vale Refeição. Vários ônibus deslocavam todos dias para Palmas transportando servidores.

Como a oferta de restaurantes em Palmas era muito pequena os servidores passaram a buscar opção em Taquaralto e logo descobriram que poderiam usar o Vale Refeição para outros gastos como bebidas e etc. Não demorou muito para o vele refeição virar moeda bastante aceita em todo o comércio do distrito. Até em estabelecimentos que o governo não gostaria de ter como prestadores de serviços. Um dia o governo desconfia que algo parecia sair do controle.

O então secretário da Casa Civil, Adjair de Lima, passa a interrogar os proprietários de estabelecimentos que o procuravam para quitar os vales recebidos e ouviu de uma proprietária que que seu estabelecimento ficava em Taquaralto e que funcionava a noite toda. O secretário finalmente se deu conta que o benefício oferecido pelo governo aos servidores estava tendo desvio de finalidade, criando um precedente perigoso.

O governo manteve o controle social da cidade, mas viu uma de suas instituições, o Vale Refeição, usado para atrair os servidores para capital, ser desmoralizado. Quer dizer, o governo achou que a destinação que estava sendo dada comprometia a imagem do Estado. Imediatamente decretou a extinção do benefício. E teve que montar às pressas um restaurante popular para atender a clientela já acostumada com o benefício.

Hoje, mais do que nunca Palmas merece Palmas. A jovem capital do Tocantins, cada dia mais se consolida como uma cidade moderna, bela e atraente. Cultiva diversidade que vem da sua formação com tente vinda de todos os lugares, por isso chamada de esquina do Brasil, que nem esquina tem, sendo a cidade das rotatórias, ou rótulas, ou mesmo “queijinhos”. Desponta como a metrópole regional, horizonte da nova civilização do cerrado.

“Antes havia um espaço, a natureza.

Hoje há um palco, teatro de nossa vida coletiva, de nossas rixas e de nossos pactos, o gênio e a cultura peculiares de um povo mestiço.

Horizonte, quem sabe, da primeira civilização do cerrado.  

(Ruy Rodrigues, Exercícios de Admiração)

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