“Vaga em creche deve ser preferencialmente para famílias carentes, e não para classe média”

Eleita vereadora em Palmas pelo SD com 1.784 votos, servidora pública promete mandato com priorização para as questões sociais

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Dock Júnior

Mulher do suplente de deputado federal Junior Coimbra, a servidora pública de carreira do Estado (licenciada do cargo de professora de Ensino Médio) Laudecy Coimbra foi eleita vereadora em Palmas com 1.784 votos pelo partido SD, do qual é filiada há pouco mais de um ano. Natural de Lago da Pedra (MA), 47 anos, ela está radicada no Tocantins desde a década de 1990, primeiramente na cidade de Itaporã e posteriormente em Palmas. Sempre esteve intimamente ligada às campanhas e à vida política do seu marido, quer seja como prefeito daquela cidade do interior, quer seja como parlamentar, inicialmente como vereador em Palmas e depois como deputado estadual e deputado federal.

Com fulcro nesse conhecimento político, ambos visitaram as bases eleitorais de Junior Coimbra e após quase 90 dias de caminhadas, visitas e reuniões com a população, Laudecy se elegeu vereadora e promete exercer o cargo com preocupação com as causas sociais. Diz estar convicta que a construção de mais creches municipais não resolverá apenas problemas sociais — porque as mães poderão trabalhar —, como também contribuirá para o processo produtivo na capital.

A sua base eleitoral se restringiu à região norte da capital ou esteve espalhada por toda a cidade? A que fatores a sra. atribui sua chegada à Câmara de Vereadores de Palmas?
Basicamente meus votos foram no plano diretor, muitos deles entre a quadra 1.206 e a Avenida JK. A metade dos votos foi praticamente na região norte da cidade. Na região sul, Taquaralto e adjacências, foram pouco mais de 300 votos. Pelos meus cálculos e dados cadastrados, conversei com mais de 2 mil pessoas. Se obtive mais de 1.700 votos significa que a ampla maioria deles foi alcançada.

Quanto aos fatores que me levaram a obter êxito nessa eleição, posso dizer que o principal deles é sempre ter participado ativamente das campanhas eleitorais e mandatos do meu marido, Junior Coimbra. Por esta razão, os eleitores me conheciam, sabiam do meu trabalho social. Em 2012, coordenei a campanha do então candidato a prefeito Marcelo Lelis na região norte e mobilizei aquela comunidade. Isso também contribuiu para que meu nome fosse lembrado pela população. Evidentemente que o círculo profissional e religioso – sou católica praticante – também trouxe vários votos.

Meu eleitorado é consciente, os votos que foram depositados nas urnas para minha pessoa são votos na confiança que eu posso fazer a diferença. Não tenho pretensão de mudar o mundo, entretanto, farei a minha parte e o que estiver ao meu alcance. Tenho consciência também da minha responsabilidade e honrarei os votos recebidos.

Dados e enquetes eleitorais constataram que o ex-prefeito Raul Filho (PR), caso necessário fosse, seria capaz de transferir grande parte dos seus votos à mulher dele, Solange Duailibe (PR), bem como Marcelo Lelis (PV) também conseguiria transferir votos à candidata Claudia Lelis (PV). No seu caso, o seu marido Junior Coimbra – no momento sem partido, mas um importante político do Estado – lhe transferiu votos neste pleito, contribuindo para sua eleição?
Tenho plena convicção que sim. Junior Coimbra é um político conhecido e o fato de ter ficado, momentaneamente, sem mandato, fez com que seus eleitores clamassem pela minha candidatura a vereadora. Eles queriam estar representados e o meu nome era a opção que atendia àquelas expectativas. Fizemos uma pré-campanha de basicamente um ano, visitando nossos amigos que votavam no Junior desde o ano 2000 e discutimos as necessidades da população. Acredito que mais de 50% da minha votação está interligada diretamente ao prestígio político do meu esposo.

Aponte dois projetos que a sra. teria em mente para serem apresentados imediatamente de forma a serem colocados em pauta o mais rapidamente possível, e naturalmente começassem a surtir efeitos?
Até mesmo por ser profissional da área da educação, nas minhas caminhadas em razão da campanha, algo que me chamou a atenção foi a falta de creches para atender as famílias mais carentes. Lógico que centros que possam atender essas crianças não surgem de uma hora para a outra. Por isso pretendo chamar a sociedade civil organizada, Ministério Público, Defensoria Pública, OAB e demais órgãos que zelam pela infância para juntos encontrarmos mecanismos capazes de cotizar as vagas nas creches. Hoje muitas pessoas mais abastadas conseguem as vagas nas creches, em detrimento daquelas em condições de miserabilidade. Há que se prever uma reserva de vagas de acordo com renda per capita das famílias. Aqueles que vivem em condições sub-humanas ou recebem um salário mínimo ou menos, devem ter preferência. Não sou contra pessoas com mais recursos usufruírem dos benefícios públicos, não é isso, mas no caso de Palmas precisa haver uma espécie de revisão dos critérios para a concessão dessas vagas.

Outra situação que me preocupa é o grande número de idosos, assim como as crianças, que estão sem assistência. Muitos familiares precisam trabalhar e não podem pagar ninguém para cuidar deles no período diurno. Muitas vezes eles deixam de se alimentar ou tomar os remédios nos horários pré-determinados. Há um centro de convivência construído pela prefeitura, que não é asilo, vez que eles voltam para suas residências no período noturno. Entretanto, o certo é que esse centro não consegue atender todos aqueles que necessitam de cuidados especiais. Precisamos organizar isso de uma forma diferente e também estimular o voluntariado, mesmo porque muitas pessoas querem ajudar, contudo, não sabem como fazê-lo. Em Belém-PA, por exemplo, há um cuidador social que visita as casas dos idosos todos os dias. Evidentemente que para implantar um projeto desta natureza há custos, no entanto, é uma ideia a ser estudada.

Enquanto o município não constrói novas creches e novos centros de convivência, precisamos adequar e otimizar esses espaços, apresentando bons projetos.

O seu partido apoiou a candidatura de Claudia Lelis e, naturalmente, a sra. foi eleita nesse palanque. É sua pretensão continuar na oposição ao prefeito Carlos Amastha (PSB) ou as composições e alianças ainda não estão definidas? Como será o seu convívio com o Paço Municipal a partir de sua posse?
Meu partido realmente apoiou a campanha majoritária da vice-governadora, porém, fiz uma campanha independente. A Claudia acabou por comparecer em algumas reuniões que eu estava porque às vezes os líderes que organizaram os encontros também a apoiavam. Contudo, não houve um engajamento. Do mesmo modo, também não obtive ajuda na campanha nem da própria Claudia nem tampouco de qualquer outro candidato a prefeito. Exatamente por isso, não houve compromisso eleitoral com qualquer um deles, caso ganhassem a eleição. Por tal razão, tenho tranquilidade para apoiar ou não o prefeito Carlos Amastha.

Ainda não há definição, mas já iniciei conversações com o prefeito para fazer parte da base de sustentação dele. Já deixei claro, contudo, que caso isso ocorra jamais adotarei uma postura de subserviência. Fui eleita para atender a população e não os interesses do prefeito. Se os interesses convergirem, evidentemente que também serei favorável.

Amastha foi reeleito, todavia, havia um sentimento popular que a gestão dele não atendeu todas as expectativas a que se propôs, apresentando índices de impopularidade, o que foi de certa forma, comprovado pelas urnas se considerarmos a votação dos adversários, abstenções, nulos e brancos. Qual a sua visão a respeito do mandato dele e quais suas perspectivas para o próximo que se inicia em 2017?
Fui contra a eleição dele em 2012, devo ter sido uma das pessoas que mais discursou contra aquela candidatura. Porém, reconheço hoje que a atual gestão do prefeito Amastha não é de todo ruim. Inegavelmente houve sensível melhora em alguns setores, contudo, houve alguns excessos e ainda existem alguns gargalos.

A questão do estacionamento rotativo, por exemplo, era necessário. Mas avalio que foi regulamentado de forma excessiva. O fato da empresa que administra ficar com 90% dos ganhos auferidos, enquanto que a prefeitura fica com menos de 10%, não é admissível. O bolsão de estacionamento estava pronto e foi construído com dinheiro público. A empresa não gastou praticamente nada para implantar o serviço, uma vez que apenas pintou as faixas delimitando as vagas. A falta de tolerância mínima espantou os consumidores da Avenida JK e isso prejudicou demais o comércio do centro da cidade, que já estava combalido pela crise financeira do país.

Quanto ao IPTU, também precisa ser revisto, contudo, neste caso culpo mais a Câmara de Vereadores que o próprio Amastha. Um projeto aprovado sem estudo, ao apagar das luzes do ano de 2013, no dia 31 de dezembro, que alterou, de forma irreal, o valor venal dos imóveis. Por consequência, fez com que o tributo aumentasse. Não houve discussão com a sociedade e neste ponto está o equívoco. Deveria ter havido audiências públicas para tratar do tema, o que não ocorreu.

A questão da retirada dos ambulantes nas ruas, sem antes proporcionar capacitação ou meios alternativos de sobrevivência para eles, causou caos social, o que também é inadmissível. Evidente que sou favorável à legalização dos pequenos comerciantes e à organização do centro da cidade, porém, faltou o bom senso naquela desocupação. Desalojá-los por si só, sem oferecer alternativas, também foi um dos excessos da gestão.

admiro muito  o trabalho da deputada professora dorinha pelo seu engajamento e pela  sua coerência” | Foto: Reprodução

“Admiro muito o trabalho da deputada professora dorinha pelo seu engajamento e pela sua coerência” | Foto: Reprodução

O vereador Hiram Gomes (PSDB), em entrevista ao Jornal Opção, disse que falta de projetos para beneficiar as mulheres de baixa renda e a falta de políticas públicas para mulheres desassistidas era um grave problema social da cidade. Por isso foi criada no parlamento municipal uma comissão permanente para tratar de assuntos relativos aos anseios e necessidades das mulheres. O projeto é manter um fórum permanente de discussões acerca da implantação, pelo município, de várias políticas públicas e protetivas à mulher, visando incluí-las no setor produtivo. O que pensa desse tema e também desta comissão? A sra. pretende fazer parte dela na próxima legislatura?
Com toda certeza estarei engajada para fazer parte dessa comissão na próxima legislatura. É muito importante sua criação, contudo, mais importante ainda é fazer com que ela saia do papel. As políticas públicas para as mulheres existem, e por isso precisamos incentivá-las a se engajarem mais e tomarem consciência do poder que elas possuem. Muitas vezes elas estão desestimuladas, mesmo porque representam as consequências de uma sociedade machista. Falta muita informação, falta consciência e envolvimento delas com as políticas públicas voltadas para atender esse gênero. Vamos lutar e fazer desse mandato um mecanismo para reverter esse quadro.

Qual a sua reflexão quanto ao fato de atualmente não haver nenhuma mulher ocupando uma cadeira de vereador na capital tocantinense? Seria falta de bons nomes ou isso se dá em razão do cenário político estar desacreditado?
O que falta mesmo é o envolvimento da própria mulher. Cultu­ralmente, como já disse, nossa sociedade é machista. Muito se evoluiu, mas ainda estamos longe do ideal. As mulheres são mais sensíveis e têm mais receio de se envolverem porque se criou em torno da política um espectro de sujeira e corrupção. Outra coisa: as próprias mulheres, muitas vezes, são preconceituosas, e não votam em candidatas mulheres. Há uma espécie de disputa velada entre elas que deveria ser extirpada. Veja: somos 51% do eleitorado em Palmas, contudo, na atual legislatura não havia nenhuma mulher no parlamento municipal e para a próxima foram eleitas apenas 2 vereadoras para as 19 vagas. E a mulher candidata a prefeita foi derrotada.

O cenário político tocantinense conta com uma senadora, três deputadas federais e três estaduais, além de algumas prefeitas e vereadoras. Neste pleito, a sra. e Vanda Monteiro foram eleitas para o parlamento municipal. Como avalia, de uma forma geral, a atuação das mulheres na política no Estado?
Admiro o trabalho da deputada federal Professora Dorinha (DEM) pelo seu engajamento com a educação e pela sua coerência. A senadora Kátia Abreu (PMDB) teve inegável destaque nacional como ministra da Aagricultura. Precisa melhorar muito se considerarmos o tamanho da população do sexo feminino, mas avalio que evoluímos bastante. A minha eleição e da Vanda é um salto e um avanço para Palmas. Vamos tentar caminhar juntas e fortalecer a representação das mulheres na Câmara Municipal.

É recorrente a discussão acerca de preconceito de gênero. Qual sua opinião acerca do tema?
Penso que o preconceito é cultural e está arraigado entre a população. O respeito pela diversidade deve ser trabalhado desde a infância, de forma tal que as pessoas se torne adultas sem cultivar essas restrições. Evidentemente não é uma questão fácil e não conseguiremos mudar mentalidades de uma hora para outra, delonga tempo. Estamos avançando nesse campo, mas ainda há muito para ser feito. Sou muito sensível com as causas sociais e quero contribuir para esses avanços. Meu gabinete na Câmara estará de portas abertas para atender todos os representantes dessas minorias. l

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