Governador Mauro Carlesse | Foto: Divulgação

Em 31 de dezembro, encerra-se o mandato iniciado pelo ex-governador Marcelo Miranda (MDB) — cassado pela justiça eleitoral — e que vai ser encerrado por Mauro Carlesse (PHS).

Tratava-se de um mandato tampão e que, exatamente por isso, esteve eivado de certos “ranços”, mesmo porque — em razão da continuidade do serviço público — muitos servidores nomeados pelo ex-governador continuaram nos seus cargos, desempenhando as mesmas funções de outrora.

O novo gestor também se viu obrigado a “pisar em ovos”. Se não pela pouca habilidade de quem nunca havia assumido qualquer cargo executivo, certamente esteve vinculado a um orçamento que estava pronto, cujas amarras lhe impediram de avançar em vários setores.

A esperança dos tocantinenses é que 1º de janeiro de 2019 seja o marco de um novo tempo. Esse sim será o mandato para o qual Mauro Carlesse foi eleito — com a mais absoluta confiança da população — que lhe alçou ao cargo de chefe do Executivo ainda no primeiro turno. A responsabilidade é enorme, portanto.

O próprio Carlesse elaborou o orçamento que executará no próximo ano. O parlamento aprovou num “atma”, mesmo havendo redução de receitas para os outros poderes e órgãos fiscalizadores. Um choro contido ali, outro acolá, mas o certo é que a antiga prática da receita presumida foi cortada à metade. O orçamento, que o governador irá gerir em 2019, está mais próximo da realidade, mesmo que ocorra frustração de arrecadação.

Apertando o cinto, criando um comitê composto pelos chefes dos poderes e dos órgãos para debater o tema e, por fim, impondo limite de gastos, o governador deu um grande passo para reerguer o Tocantins. Não restam dúvidas.

Contudo, há outros problemas crônicos e o primeiro deles é o excesso de servidores contratados a pedido desse ou daquele parlamentar. No jargão popular: os “funcionários fantasmas”.

O jogo é simples e conhecido desde a criação do Tocantins: em troca de seu apoio parlamentar e garantia da governabilidade, o deputado solicita alguns “contratos” junto ao poder executivo. O gestor cede e incha a folha de pagamento. Os “contratos” rendem votos ao próprio deputado em sua base eleitoral e, de quebra, ao próprio governador nas eleições subsequentes.

O círculo é vicioso e repugnante. Fere os princípios da moralidade, da eficiência e da legalidade, constitucionalmente previstos. Entretanto, é prática comum, não apenas no Tocantins, mas em todos os Estados brasileiros.

Alguns poderiam questionar e dizer que extirpar essa prática do poder público é premissa totalmente utópica. Pode ser, por enquanto, mas é possível diminuí-la drasticamente. É necessário que não apenas o governador Carlesse, como também outros gestores, ouçam o claro recado de outubro, oriundo das urnas: a população está farta de corrupção, desvios, desmandos e ingerências.

Além de sopesar essas condutas, o governador Carlesse também precisa aproveitar o início dessa nova gestão para trocar alguns auxiliares diretos, que, diga-se de passagem, só lhe trazem desgastes midiáticos desnecessários.

Alguns atos de gestão desses auxiliares beiram o amadorismo. Já os parlamentares que darão sustentação ao governo também precisam ser articulados e escolhidos a dedo. As manchetes jornalísticas falam por si só. Não cabe aqui apontar o dedo ou indicar nomes. O gestor sabe muito bem que ajuda e quem atrapalha.

É necessário, portanto, que o governador se cerque de pessoas experientes, com espírito republicano, mas que sabem ser duros, sem, no entanto, ser arrogantes. Foi o caso do Secretário de Comunicação, João Aguiar Neto, ao se manifestar sobre o episódio da decisão liminar que determinou o retorno dos delegados aos cargos de chefes regionais, sem observar a prevalência do poder discricionário do governador.

João Aguiar Neto foi cirúrgico ao expor a posição do Palácio Araguaia, enfatizando que, dentro dos limites da lei e sem truculência, tentaria — e conseguiu — reverter a decisão junto à instância judicial superior.

Sem dúvida, o governador conta com vários outros “Netos”. Contudo, será eles têm voz? Qual a posição que eles ocupam na cadeia hierárquica? O vice-governador Wanderlei Barbosa, homem com larga experiência política, é ouvido ou chamado para as reuniões decisivas?

Outro exemplo? O presidente do Itertins, Divino José Ribeiro, procurador da Assembleia Legislativa desde a década de 1990, advogado experimentado em assessoria jurídica municipal, que poderia ser muito mais útil ao governo em outro posto estratégico.

O segredo, portanto, não é apenas equilibrar os gastos proporcionalmente às receitas. É crucial cercar-se de mentes sãs e, logicamente, se afastar dos acéfalos e daqueles deslumbrados com o dinheiro e com o poder.