“Tenho serviços sociais prestados à sociedade e não abro minha casa apenas em época eleitoral” diz Issam Saado

Deputado estadual eleito pelo PV diz que deve ter pensamentos diferentes da outra parlamentar do partido, mas que pretende escutar muito antes de decidir algo

Foto: Reprodução

Radicado no Brasil há mais de 40 anos, seu sotaque ainda é carregado, típico dos estran­geiros que chegaram ao País depois de adultos. Issam Saado nasceu em Maakbara, Síria, em julho de 1948. Filho de pai sírio e mãe brasileira, foi registrado na embaixada brasileira na Síria e possui dupla cidadania.

Se estabeleceu na cidade de Araguaína no início da década de 70, destacando-se como um dos empreendedores da região no ramo do comércio e da construção civil. Após registrar candidatura em 2006, pelo antigo PL, e 2014, pelo MDB, mas desistir posteriormente, Issam foi eleito deputado estadual no pleito de 2018, desta vez pelo PV, com 9.251 votos.

Para o futuro parlamentar, é necessário ter a consciência de que o deputado é representante do povo, e não de si mesmo. E que, de algum modo, a população precisa participar do seu mandato, mesmo porque suas decisões devem estar alinhadas com a vontade de seu eleitorado.

Por quais razões o sr. desistiu das dis­putas eleitorais em 2006 e 2014?
Os amigos sempre insistiam para que eu me candidatasse, mas circunstâncias adversas e falta de apoio me obrigaram a refluir do projeto. Sempre estive muito ligado ao saudoso senador João Ribeiro, que é meu amigo pessoal. Tínhamos muitas ideias em comum. O apoiei e es­tendi a mão em todas as suas investidas na política, como deputado es­tadual por Goiás, prefeito de Ara­gua­ína, deputado federal pelo To­cantins e, por fim, senador. Então, minha ligação com a política vem desta época, mas apenas em 2018 foi possível concretizar esse projeto.

“Pelo que realizou durante a gestão municipal em Palmas, Carlos Amastha mostrou ser um empresário preparado e competente. Considero que houve equívocos e falta de habilidade dele em lidar com a classe política. Isso contribuiu muito para as duas derrotas” | Foto: Reprodução

Em que circunstâncias se deu a sua migração do MDB para o PV?
Tenho muito carinho pelo MDB, pelo ex-governador Marcelo Miranda e sua esposa, a deputada federal Dulce Miranda, uma pessoa pela qual tenho apreço e apoiei neste último pleito. Contudo, a coligação que o MDB teria que enfrentar nestas eleições era muito complicada por uma série de fatores. Em razão de uma certa proximidade à época com o Marcelo Lelis, resolvi me filiar ao PV com a finalidade de disputar as eleições com chances reais de êxito.

O problema, entretanto, residiu no fato de o não ter prestado o apoio necessário para minha candidatura, nem tampouco para outros candidatos pevistas. O fundo partidário não foi dividido, concentrando-se praticamente apenas na campanha da presidente estadual da sigla, Cláudia Lelis, que também foi eleita. Esperava, naturalmente, que o partido me repassasse as cotas as quais tinha direito. Nada além disso. Como isso não ocorreu, toquei a campanha com doações e recursos próprios. Essa falta de companheirismo me desagradou profundamente e, hoje, tenho feito reflexões acerca da minha situação partidária.

Em razão dessa propalada proximidade com o ex-senador João Ribeiro, é natural que o sr. também seja companheiro político de sua viúva e atual prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro, como também de sua filha do primeiro casamento, a deputada estadual Luana Ribeiro…
Por mais incrível que possa parecer, esses laços estão fragilizados. Cinthia frequentou muito a minha casa, tenho apreço e gosto muito dela, mas sinto que, após sua ascensão ao comando da Prefeitura de Palmas, o poder subiu-lhe à cabeça. Ela não atende mais as minhas ligações e também não retorna ou dá satisfações. Liguei várias vezes antes e durante a campanha eleitoral, deixei recados, mas não houve qualquer retorno. Para mim, significa que ela não quer diálogo e, em razão disso, não vou insistir, apesar de achar que, na condição de deputado estadual, poderia ajudá-la e direcionar emendas e benefícios para Palmas. Quanto a Luana Ribeiro, já exerci o cargo de chefe de gabinete dela. Tenho boa relação pessoal, em razão da amizade com o João, mas não assumi e não tenho compromissos políticos com ela.

Ela quer se reeleger presidente da Assembleia Legislativa. Em razão dessa proximidade, o seu voto não estaria garantido?
Não, em absoluto. Há outras candidaturas à presidência da Assembleia Legislativa e vou avaliar todas detidamente. Não vou decidir nada agora, mesmo porque, como dizia o velho ditado, apressado come cru.

Por ser novato neste meio, qual é o seu grau de relacionamento em relação à classe política de uma forma geral?
Conheço o filho da Kátia Abreu (PDT), deputado federal Irajá Abreu (PSD), agora eleito senador da República. Já conversamos algumas vezes. Também me relaciono bem com o deputado federal eleito por Araguaína, Célio Moura (PT). Devo ressaltar, ainda, que tenho uma relação de proximidade com o deputado federal Cesar Halum (PRB). Somos amigos de longa data, não apenas porque ele representa do norte do Estado, mesmo porque conheço a família dele desde quando migrei para o Brasil e me fixei, inicialmente, em Goiás. Foi uma pena ele não ter sido eleito senador nesta última eleição. Sinto que Araguaína perdeu em representatividade, pois esta vaga era do norte do Estado. Na minha modesta opinião, houve erros de estratégia, coordenação e articulação, mas que não cabe a mim julgar.

A sua representatividade está restrita à cidade de Araguaína?
Não. Na verdade, obtive mais votos nos municípios vizinhos e na região do Bico do Papagaio do que na própria cidade de Araguaína. Após 40 anos de luta e história, tenho conhecimento e credibilidade junto a essas comunidades e, graças a Deus, isso resultou em votos. Tenho relevantes serviços sociais prestados e não abro minha casa para a população apenas em época eleitoral. Pelo contrário, ela fica aberta o ano todo e estou sempre disposto a ouvir as pessoas, seus problemas e, se for possível, ajudá-las.

Qual será sua linha de atuação no exercício do mandato de deputado estadual?
Simples: escutar muito, falar pouco e depois decidir. Quem fala muito queima a língua e quem decide rápido, na maioria das vezes, erra e não tem como voltar atrás depois. A Assembleia Legislativa é uma casa política e não uma reunião de amigos. Portanto, cada qual defende os interesses da população que o elegeu. Eu defenderei os meus.

O sr. poderia antecipar quais são?
Ainda não. Prefiro ser diplomado e empossado primeiro e, no momento certo, os apresentarei, mesmo porque muitos deles ainda estão em fase de avaliação. Entretanto, posso garantir que os projetos estarão voltados às causas sociais.

E quanto ao municipalismo?
Penso que cada município tem suas particularidades. Em razão das distâncias, do isolamento e das dificuldades, alguns necessitam mais de ajuda do que outros. Tenho por obrigação de ajudar as pessoas, as comunidades mais carentes que residem nessas cidades, nas zonas urbanas ou rurais. Minha missão é ajudar aqueles que estão de barriga vazia, metaforicamente falando, e não os que estão de barriga cheia.

Qual será sua postura em relação ao governador Mauro Carlesse (PHS)?
Participei há poucos dias de um almoço no Palácio Araguaia promovido pelo governador com os deputados eleitos. Foi uma conversa coletiva e não houve como avaliar como o governo será norteado. Aguardarei ele me procurar para debatermos de forma individual, quando irei expor minhas ideias e ouvir as dele. O governador é quem terá que avaliar se minhas propostas e diretrizes se encaixam no perfil do governo que ele pretende implantar a partir de 2019. No mais, penso que um franco diálogo é um bom começo para iniciar uma relação institucional. Creio que, por ele ser empresário e oriundo do parlamento, nosso diálogo tende a confluir em razão das várias afinidades, mas, por enquanto, não houve qualquer conversa e nem acertos. Entretan­to, antes mesmo de qualquer conversa, posso afirmar que votarei a favor dos projetos que forem para beneficiar o povo e serei contra aqueles que trouxerem sacrifícios para a população. Em resumo, o que posso dizer hoje é que não é certo que o PV será situacionista ou oposicionista na Assembleia Legislativa e nem tampouco que votará em bloco. Sinto que os dois deputados do partido dificilmente falarão a mesma língua porque há nítidas divergências de ideias.

“Vi e ouvi Jair Bolsonaro falar algumas bobagens durante a campanha, mas, depois de eleito, senti que ele tem vontade de acertar e está muito preocupado com o caos financeiro” | Foto: Reprodução

Qual é sua avaliação sobre a eleição do presidente Jair Bolsonaro?
A sociedade brasileira fez uma escolha que deve ser respeitada. Contudo, é muito cedo para avaliar e há muitas dúvidas acerca do presidente eleito. Pode até dar certo e vou torcer por isso, mas há que se analisar a relação dele com o Congresso Nacional. Não sei se será pacífica ou conturbada. Há um caminho muito longo a ser percorrido. Vi e ouvi ele falar algumas bobagens durante a campanha, mas, depois de eleito, senti que ele tem vontade de acertar, está muito preocupado com o caos financeiro e vai buscar estabilidade. Isso é muito importante. As pessoas que ele tem escolhido para compor o governo possuem muito conhecimento e ele precisa resolver não apenas a questão financeira, mas também a saúde e a segurança pública, que estão fora de controle.

Na condição de estrangeiro, apesar da dupla nacionalidade, como o sr. vislumbra a hipótese dessas pessoas assumirem cargos políticos, como ocorreu com o colombiano Carlos Amastha?
Sempre digo que não basta ser brasileiro. É preciso amar e dar a alma a esse país. De nada adianta ser brasileiro nato e vender a nação ou quebrá-la, como fizeram os governantes dos últimos anos. Mesmo aos 70 anos, eu seria o primeiro a pegar numa arma para defender o Brasil, caso ele fosse obrigado a entrar numa guerra. Nasci onde meus pais escolheram, mas quando Deus me deu oportunidade, escolhi onde eu queria viver. Duvido que alguém ame o Brasil mais do que eu. Pode amar do mesmo tanto. Porém, mais do que eu, acho difícil.

Quanto a Amastha, não conheço profundamente. Durante a campanha, nos encontramos algumas vezes, mas sem interlocuções mais profundas. Considero que houve equívocos e falta de habilidade dele em lidar com a classe política. Isso contribuiu muito para as duas derrotas. Pelo que realizou durante a gestão municipal em Palmas, mostrou ser um empresário preparado e competente. Fala várias línguas e é reconhecido internacionalmente. Poderia, sem dúvidas, contribuir e fazer um bom trabalho em prol do Tocantins, mas a forma como ele tratou as lideranças locais o levou à derrocada. Não é possível que alguém que tinha o MDB como componente da própria chapa se recuse a subir no mesmo palanque que estava o ex-governador Marcelo Miranda. Amastha mostrou imaturidade. Perdeu apoio e muitos votos porque Marcelo é um líder reconhecido, eleito três vezes governador do Tocantins. Essa mentalidade foi infantil, na minha opinião, e, por estas e por outras razões, Carlesse venceu as eleições.

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