“Tendência é que Palmas se consolide como metrópole da região norte”

Empresário diz que capital se tornou referência para o Norte do País e que tem potencial para triplicar de tamanho nos próximos anos

Empresário Fabiano Parafuso: uma história familiar de pioneirismo em Palmas | Foto: Divulgação

Aos 17 anos, em janeiro de 1992, o jovem Fabiano Roberto Max do Vale Filho, desembarcava em Palmas, em companhia do pai, o mineiro Fabiano Roberto Max do Vale, um visionário que segundo ele, se apaixonou pela cidade que começava timidamente a brotar do canteiro de obras aberto no meio do Cerrado. Mais conhecido como Fabiano Parafuso, ele é hoje um dos maiores empresários de Palmas e como o pai, aprendeu a ter orgulho da cidade que o recebeu na juventude e mudou o destino de sua família.

Fabiano relembra um pouco aquela aventura que foi deixar sua cidade natal em busca de fazer a vida num lugar distante o qual não tinha a menor ideia de onde ficava. “Foi uma dificuldade muito grande, foram uns três dias de viagem. Eu não nego, vim chorando de lá até aqui, com aquela dor no peito, a gente não tinha noção. Eu acredito que naquela época as pessoas em Minas não tinham noção da dimensão geográfica do Brasil nem onde era o Tocantins. Meu pai dizia que era um lugar novo, um Estado novo, que iria dar certo, que tinha futuro. Ele acreditava, veio aqui, ouviu o velho Siqueira [Campos, ex-governador] falar e se apaixonou”, relata.

Presidente da Federação das Associações Comerciais do Tocantins (Faciet), conselheiro do Sebrae e conselheiro do Conselho de Desenvolvimento do Estado (CDE), Fabiano Parafuso é um líder classista preocupado em fortalecer o setor privado, despertando nas pessoas o espírito empreendedor. “Precisamos mudar esta mentalidade de dependência do poder público. Nós temos de virar este jogo. Temos de fazer a iniciativa privada ser maior do que o poder público. Ter mais força, ter mais condições para que possamos ser um estado autossustentado”, defende, se definindo como um entusiasta de Palmas e do Tocantins.

Nesta entrevista concedida ao Jornal Opção, como parte da série comemorativa aos 33 anos de Palmas, o empresário revela que tem sido convidado a entrar na política, mas que tem resistido aos convites porque não gostaria de ser empresário e político, pois desconfia que não faria bem nenhuma das duas funções. Mas não descarta a possibilidade de disputar a prefeitura de Palmas, um dia. “Quero chegar um momento da minha vida que vou poder dedicar quatro anos, sei lá, no máximo oito, para que eu possa dar a minha contribuição pelo tanto que essa cidade me deu”, declara, informando que não tem pressa, mas não esconde o desejo.

De vendedor ambulante a um dos empresários mais bem sucedidos de Palmas. Essa é síntese da trajetória do jovem Fabiano Parafuso, o mineiro que fez história em Palmas e que de certa forma, se parece um pouco com a história de muitos homens e mulheres, que com muita garra, suor e perseverança ajudaram a construir essa cidade que no dia 20 de maio completa 33 anos. A história de Palmas é um pouco da história desses seus construtores, chamados de pioneiros.

De vendedor ambulante a um dos maiores empresários de Palmas. Como é mesmo essa história?

Essa história começou com o meu pai [Fabiano Roberto Max do Vale], o grande fundador da Fabiano Parafuso, foi o grande idealizador de nos trazer para Palmas. Somos de origem mineira, de Governador Valadares, eu, meus irmãos e minha mãe [Cleonice Magalhães do Vale]. Lá, com a situação complicada, em 1991, ele veio visitar Palmas, naquele início da cidade, quando ainda estavam abrindo as ruas, o Palácio [Araguaia] ainda em construção, então meu pai gostou do que viu e resolveu vir para Palmas. Em janeiro de 1992, ele juntou a família toda, botou em cima da caçamba de um caminhão e trouxe todos nós, minha mãe, meus irmãos, um casal de amigos, e viemos todos naquele caminhão, um Chevrolet, forrado de lona preta, com um toldo e alguns colchões, e foi uma dificuldade muito grande, foram uns três dias de viagem.  Eu não nego não, eu vim chorando de lá até aqui, com aquela dor no peito, a gente não tinha noção. Eu acredito que naquela época, as pessoas em Minas não tinham noção da dimensão geográfica, do que é o Brasil, onde era o Tocantins. Imaginava que fosse muito longe, do outro lado do mundo. Meu pai dizia, “é um lugar novo, um Estado novo, vai dar certo, vai ter futuro”. Ele acreditava, veio aqui ouviu o velho Siqueira [Campos] falar e se apaixonou.

“Por que vocês não colocam uma loja de parafusos aqui em Palmas?”

Como surgiu a ideia de empreender na área de ferragens?

Em 1995, meu pai teve essa ideia de começar uma pequena empresa e um amigo nos deu a ideia: “Por que vocês não colocam uma loja de parafusos aqui em Palmas? Em Palmas não tem parafuso, se precisa de parafuso tem de buscar fora.” Não tinha nem para remédio, então era uma dificuldade muito grande. Não tinha loja de parafuso na cidade e meu pai disse “vamos tentar”. Nós nunca tínhamos mexido com parafuso. Aí ele comprou um estoque pequeno, no valor de R$ 1,5 mil, parcelado, e foi lá e começamos, uma lojinha pequena de 4 x 9 metros, 36 metros quadrados. Ele me colocou lá, tinha um caminhão e vendia material básico, areia, seixo, tinha um caminhão-pipa, que vendia água potável, a gente tinha uma renda muito baixa, muito ruim. Meu pai disse “vamos começar com este comércio” e me colocou lá. Eu já estava com 20 anos, já tinha casado, porque eu trouxe a minha namorada para cá – que é minha esposa hoje –, aí meu pai me colocou lá e disse, meu filho, toma conta disso aí, com fé em Deus vai ser uma grande empresa, um dia. Eu que sempre escutei meu pai, entrei para dentro daquele pequeno comércio e nunca mais sai. Isso tem 27 anos.

Fabiano com a mulher, Gláura do Vale | Foto: Divulgação

Aquela lojinha de parafusos hoje é um dos grandes comércios de Palmas, uma marca que se identifica com a cidade, acompanha o crescimento da cidade?

Hoje a gente trabalha com outros segmentos. Lojas mesmo de ferramentas, ferragens e parafusos são quatro lojas. Temos duas na área de acabamento. Aí a gente trabalha também com uma parte de locação, temos também uma indústria de argamassa, temos alguns outros negócios. Temos uma pequena construtora que a gente trabalha com construção civil. Então a gente acaba entrando em outras áreas. A gente mexe com algumas outras coisas pequenas que a gente vai trabalhando. Mas o nosso principal produto hoje é material de construção no geral. Tudo que envolve a construção civil a gente está envolvido. Desde a locação até a venda.

Você demonstra orgulhoso por ser palmense, Governador Valadares ficou no passado?

Gosto muito de Governador Valadares. Tenho muita saudade. Vou a Valadares todo ano. A gente não perde as origens. Temos família lá, avó, meus primos, meus tios, então a gente tem o maior carinho por Minas, mas hoje eu me sinto realmente um cidadão palmense. Agora acabo de receber o título de Cidadão Tocantinense, então já me sinto também um tocantinense, tenho o maior orgulho de estar no Estado do Tocantins, estar em Palmas, poder empreender, gerar emprego. Hoje já temos mais de 100 colaboradores que trabalham com a gente. Isso se tornou algo que a gente foi construindo de baixo, que forma uma identidade com a cidade, uma identidade com o povo daqui. Porque a gente vende a cidade o tempo todo. Eu sou um cara que defendo Palmas 24 horas por dia, onde eu ando, onde estou, se viajo, em qualquer lugar do mundo eu falo de Palmas como o maior carinho da minha vida. Eu sou muito grato a esta cidade.

Como se deu esta guinada na sua vida, de vendedor ambulante se tornar um dos maiores empresários de Palmas imagino que não é uma tarefa fácil?

Nesse meio tempo a loja de parafusos era muito pequena. Tinha um faturamento pequeno. Eu fui em Minas e lá vi uma Towner de cachorro quente e me despertou a ideia de vender cachorro quente. Pensei, vou vender cachorro quente. Fazer um negócio para agregar valor, aumentar a renda. Eu precisava melhorar a renda. Minha mulher (Gláura Jacinto Franco do Vale) já tinha ganhado o primeiro filho, o Fabiano Neto já tinha nascido e eu ganhando muito pouco, com aquela dificuldade toda, eu disse: pai eu fico no comércio durante o dia e à noite, nos finais de semana vou vender cachorro quente para poder ter uma renda a mais e fiquei durante cinco anos vendendo cachorro quente. Fui na Praia da Graciosa, comprei a primeira van cem por cento fiado, dividido em 36 parcelas e foi uma novidade em Palmas, na época. Isso foi no comecinho de 98, em um ano já tinha comprado mais dois carros. Trabalhava nas festas, nos eventos, nos pontos de ônibus, e conseguia fazer uma venda que ajudava. Ganhei um dinheiro que de certa forma me ajudou muito.

O que você traz de lição de sua trajetória que tem muito trabalho e perseverança?

Eu tinha um pensamento que tinha que ganhar dinheiro. Tinha que trabalhar, levantar cedo e ser o último a dormir. Posso dizer que nos meus primeiros 10 anos de empresa eu trabalhei muito. Até hoje a gente trabalha muito. Eu brinco que no começo da loja eu tirava a máquina da caixa, expunha a máquina e expunha a caixa para tampar buraco, parecer estoque, para o cliente achar que estava cheio. Aí fui aumentando a loja aos poucos, foi chegando mais pessoas, aí fui fazer minha faculdade, em 2002 fiz faculdade de Administração de Empresas, no Colégio Objetivo, em Palmas mesmo. Então tudo foi feito em Palmas mesmo.

Qual a primeira impressão que você teve de Palmas?

No começo, a imagem de Palmas é que ia ser muito a longo prazo. Eu não esperava que com 30 anos fossemos o que somos hoje. Meu pai enxergava. Por isso que o admiro. A minha maior dificuldade foi quando perdi meu pai, que foi em 2004. Nós estávamos começando a dar uma clareada, a empresa estava começando a dar uma guinada, foi quando meu pai faleceu. Um infarto fulminante, tinha apenas 51 anos de idade, foi um negócio pesado. Foi a minha grande frustração. Porque eu tinha um porto seguro que era meu pai. Era um cara fantástico. Que não me deixava baixar a cabeça. Quando eu caia ele me levantava. Quando veio a perda, isso me machucou muito, isso me doeu muito. Daí para frente eu senti que me veio um nível de responsabilidade maior. Comecei a ver que minha mãe, minha família, tudo tinha a mim como referência. As pessoas que estavam ligadas à Fabiano Parafuso a referência já não era mais o meu pai, agora era eu. Então eu tinha que dar a volta por cima. Tinha que levantar a cabeça. Tive um apoio muito grande de um psicólogo que foi o Frei Felisberto, pároco da Nossa Senhora do Carmo, me ajudou muito com orientações e apoio na hora certa. Então de lá para cá não parei mais de crescer. As coisas foram acontecendo. Procurei sempre me capacitar, sempre busquei participar, me envolver com tudo que acontece em nossa cidade. Eu acredito que o grande negócio é relacionamento. Fazendo relacionamento você trabalha a sua empresa e fortalece o seu negócio.

Família que adotou Palmas: O casal Fabiano e Gláura, com os filhos Leandro Roberto, Maria Eduarda e Fabiano Neto | Foto: Divulgação

Qual a imagem de Palmas que mais te marcou?

O que mais me marcou em Palmas foi observar que todo mundo estava buscando o mesmo objetivo. Por mais que Minas seja um estado maravilho, mas as pessoas estavam meio acomodadas. O mineiro é muito tranquilo, recatado, desconfiado e aqui em Palmas você via todo mundo tentando empreender. Todo mundo queria fazer alguma coisa, queria vender, ousar, você estava num ambiente que as oportunidades estavam aparecendo. Isso me impulsionou muito. Eu me envolvi muito com esse clima de aproveitar as oportunidades. Acho que hoje ainda tem muitas oportunidades, ainda temos necessidade de praticamente tudo.

Como o sr. vê os desafios de Palmas do ponto de vista do desenvolvimento econômico?

Eu vejo que Palmas é uma referência do Norte do País. Na minha percepção acho que ela em pouco tempo pode se tornar uma das principais capitais da região. Lógico que temos Belém que é gigante, temos Manaus que também é muito grande, mas fora isso vai ser Palmas. A segunda maior capital do Norte do País a se consolidar como uma metrópole com capacidade para atender o sul do Maranhão, o norte do Bahia, o norte do Mato Grosso, tudo convergindo para Palmas. Eu acredito que num raio de 600 quilômetros as pessoas vão querer Palmas para viver e para morar. Então Palmas tem condições de triplicar no meu ponto de vista. Por isso, como liderança empresarial defendo muito o cooperativismo, que é o meio de promover o desenvolvimento econômico melhorando os processos de produção. Precisamos mudar esta mentalidade de dependência do poder público. Nós temos que virar este jogo. Temos que fazer a iniciativa privada ser maior do que o poder público. Ter mais força, ter mais condições para que possamos ser um estado autossustentável.

“Nos últimos 15 anos nós temos sofrido muito com essas mudanças de governo”

O governo cumpre a sua parte de dotar o Estado das condições de atratividade dos negócios, tem garantido ao menos a infraestrutura?

Nos últimos 15 anos nós temos sofrido muito com essas mudanças de governo. Por outro lado, vejo que para o pequeno e médio empresário que é a maioria no Tocantins, algo em torno de 98% o que temos que saber é que a folha de pagamento do servidor público está sendo quitada. Isso é o mais importante para nós. Agora temos que buscar meios de nos qualificar, de melhorar, de oferecer mais serviços, mais produtos para atender mais e atrair empresas. Vejo que o Tocantins poderia incentivar mais a atração de empresas.

Ser mais atrativo?

Ser mais atrativo. A gente teria que criar alternativas para isso. Essa insegurança jurídica, essa insegurança governamental, isso faz com que os grandes grupos tenham receito de investir, isso intimida e retrai o investimento. A gente sonha que isso vá ser superado.

“Quero um dia poder retribuir o tanto que essa cidade me deu, sou grato a isso”

O senhor já foi convidado a ingressar na política. Pode ser candidato a prefeito de Palmas?

Eu não digo dessa água eu não beberei, porque isso eu não falo em relação a nada da minha vida. Já fui muito assediado, já fui muito cobrado, sou até hoje, as pessoas me cobram isso, tenho vontade, não nego isso, mas acredito que ainda tenho que me preparar mais. Não quero ser político e empresário, você não faz bem nenhuma coisa nem outra. Então eu quero chegar a um momento da minha vida que vou poder dedicar quatro anos, sei lá, no máximo oito, para que eu possa dar minha contribuição por tanto que essa cidade, essa capital me deu, então eu sou muito grato a isso. Por isso eu tenho vontade de fazer um trabalho, na área da politica é a maneira de você contribuir e ajudar. Então eu tenho essa intenção, um dia. Mas não é o momento não, meus negócios dependem de mim e minha família hoje não tem muita vontade que entre. Gosto de participar, de opinar, dar ideia, participo com o maior prazer, hoje estou envolvido em mais de 10 entidades. Envolvo no Sebrae, no Conselho de Desenvolvimento do Estado, na Associação Comercial, na Federação das Associações, na Fecomércio, então eu tenho uma vontade de poder ajudar, contribuir com as minhas ideias, com o que eu possa fazer para que a gente melhore cada vez mais o nível das empresas do Tocantins.

Muita gente faz uma associação equivocada que os empresários pioneiros bem sucedidos em Palmas se deve ao fato de que contaram com privilégios no início da construção da cidade. Esquecem que nem todos os que chegaram no início deram certo. O que dizer para essas pessoas que ainda pensam isso dos pioneiros?

Acredito que hoje a cidade esteja mais fácil do que há 20 anos. Acredito que no início era muito mais complicado. Tivemos vários casos de pessoas que abriram a 20, 30 anos atrás que hoje não estão mais por aqui. Então não foi facilidade para ninguém. Foi ao contrário, foi muito mais difícil, muito mais complicado. Hoje, eu vejo que está mais fácil, hoje temos informações de forma rápida, você pode fazer uma pesquisa melhor, pode se posicionar melhor e tem gente começando e já ganhando até mais do que pessoas que começaram há 10 anos.

A cidade continua aberta a novos negócios de todo os segmentos, como o senhor vê a atratividade de Palmas para quem deseja empreender?

A cidade continua extremamente aberta, e absorvendo pessoas, a coisa está pujante. Vejo que a cidade está totalmente com abertura para qualquer tipo de negócio, qualquer tipo de serviço, que permite a pessoa se dar bem. Depende só dela e mais ninguém.

“O que eu digo é seguinte, tem que fazer, faça com o que tem de melhor, tenho certeza que o mercado vai absorver”

Do ponto de vista da arquitetura e engenharia Palmas já nasceu com um padrão alto de construção civil, e como esse padrão tem evoluído?

Isso tem acontecido em nível de Brasil. As construções tem melhorado. Não é só Palmas. O nível das construções tem melhorado muito. Tem melhorado o nível dos imóveis, das construções e isso valoriza a cidade, valoriza a arquitetura, garante beleza, aparência, qualidade, funcionalidade, fica mais seguro, então tudo é melhor. Isso está acontecendo. Então o brasileiro está despertando por exigir coisa melhor. Não se constrói mais com telha de Eternit, por exemplo. As pessoas querem coisa boa. Se você constrói com coisa boa, vende e se você construir coisa ruim não vende, as pessoas não querem. O que eu digo é seguinte, tem que fazer, faça com o que tem de melhor, tenho certeza que o mercado vai absorver.

Qual é a sua mensagem nestes 33 anos de Palmas?

Parabéns a todos que acreditaram, a todos que acreditam. Estamos no lugar certo, fizemos a coisa certa, Palmas é um sucesso e vai ser muito melhor. o que nós precisamos é que cada um faça a sua parte, tentar fazer o melhor para que a gente seja, muito mais atraente, porque aí as coisas vão vir.

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