“Temos de melhorar a nossa comunicação com a comunidade”

Prestes a ser confirmado pelo MEC para mais um mandato como reitor da UFT, geólogo reafirma a importância da instituição para o desenvolvimento do Estado

Reitor da UFT | Foto: divulgação

Reitor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Luís Eduardo Bovolato é graduado em Geologia pela UFMT, com mestrado e doutorado em Geo­grafia pela Unesp, e especialização em Geociências pela Uni­camp e MBA em Gestão Em­presarial, pela FGV.

Paulista do município de Presi­dente Prudente (SP), Bovolato migrou para o Tocantins em 1989, para trabalhar como geólogo, sondagens e pesquisa mineral na região próxima à cidade de Filadélfia, onde seu ex-empregador, Cia. de Cimentos Portland Itaú, subsidiária do grupo Vo­torantim, pretendia explorar uma jazida de minério e construir uma fábrica de cimento.
Exerceu o cargo de superintendente regional do Serviço Social da Indústria do Estado do Tocantins entre 1997 e 2002. Ingressou no quadro de servidores da UFT entre os primeiros docentes concursados, em 2003, e exerceu o cargo de diretor do campus de Araguaína de 2008 a 2016, período em que também exerceu a presidência do Con­selho Diretor, da Comissão de Avaliação Docente e do Comitê Gestor da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia. Foi re­pre­sentante da UFT no Conselho Mu­nicipal de Educação de Ara­guaí­na durante os anos de 2014 a 2016.

Antes de ingressar na UFT na condição de docente concursado, o sr. já havia exercido o cargo de diretor do Campus de Araguaína. Como classifica esse profundo histórico em atividades escolares?
O histórico é antigo e, também, muito profundo. Cheguei num ônibus da conhecida Transbrasiliana, na rodoviária de Araguaína, ainda em janeiro de 1989, absolutamente sozinho, apenas com duas malas: uma com livros e outra com roupas. Um diploma debaixo do braço e um futuro a ser construído e explorado.

Trabalhei como geólogo numa jazida de minérios, entre as cidades de Filadélfia e Araguaína, e concomitantemente, comecei ministrar aos sábados aulas em Araguaína, no curso de geografia – disciplina geologia – na antiga Faculdade de Ciências e Letras de Araguaína (Facila), que posteriormente foi absorvida pela Unitins, na qual também trabalhei por mais de dez anos.

Alguns anos depois, toda estrutura daquela universidade foi incorporada pela UFT. Em 2003, fiz o concurso e fui aprovado para professor na área de geologia e geomorfologia da UFT.
Recebi o convite do professor e ex-reitor Alan Barbiero para compor a gestão dele, e como havia eleição para diretor do campus de Araguaína, me candidatei e a chapa foi vitoriosa. Ao final de quatro anos, fui reeleito. Desde essa época, estou engajado nesta luta, que culminou com minha eleição à vice-reitoria, na chapa que foi encabeçada pela querida e saudosa amiga Isabel Auler.

Na condição de vice-reitor e em função da vacância do cargo de reitor ocasionada pelo falecimento de Isabel Auler, no dia 1° de maio, o sr. assumiu o posto interinamente. Contudo, nova eleição teve que ser realizada. O sr. registrou a chapa Viver a UFT, que foi a vencedora da pesquisa eleitoral, com 77,57% dos votos da comunidade acadêmica. Foram 492 a 114 entre os professores (81,2% a 18,8%), 470 a 97 entre os funcionários técnico-administrativos (82,77% a 17,23%) e 1.907 a 871 entre os estudantes (68,34% a 31,66%). A quais fatores o sr. atribuiu esse resultado?
Alguns fatores foram preponderantes para esse resultado. Acredito que o primeiro deles esteja ligado à própria imagem e o legado da professora Isabel. Há menos de um ano, havíamos apresentado nosso plano de gestão e nos submetemos a um processo eleitoral em que nossas propostas foram aceitas pela comunidade acadêmica, com 63% de aprovação.

Começamos colocar em prática este plano de gestão em agosto de 2016, que rapidamente surtiu efeitos. O relacionamento e a dinâmica com os diretores de campus foi modificado e as grandes discussões acerca da distribuição e rateio do orçamento e capital de custeio, passou a ser decidido em conjunto, com a participação de todos, de forma democrática e transparente. Isso foi um diferencial que nos aproximou ainda mais da comunidade acadêmica.

Em segundo lugar, o resultado da avaliação institucional também contribuiu. Se a nota máxima é 5, a UFT tem nota 4. Isso é o resultado da aplicação prática do plano de gestão.

Por fim, a análise dos perfis das chapas também contribuiu muito. Quando a comunidade avaliou os candidatos da chapa adversária, composta pelo professor Adão e pela professora Marluce, houve uma inevitável comparação no que concerne às trajetórias político-partidárias. Essa efusiva militância e esse discurso partidário, por parte do professor Adão, certamente afastou muitos “eleitores” no âmbito acadêmico, porque, por mais incrível que possa parecer, a comunidade acadêmica é muito conservadora. Todos se mostravam engajados e envolvidos no processo político, contudo, uma política institucional em vez de partidária.

Além disso, considero que a bagagem profissional que eu trouxe também pesou nessa decisão. Trouxe experiências que adquiri fora da universidade, enquanto gestor do Sistema “S”, como também, dentro da própria UFT, como gestor de campus e também como vice-reitor e, posteriormente, reitor em exercício. Acredito que essas experiências foram preponderantes e levadas em consideração por grande parte da comunidade acadêmica.

“Evasão escolar é um problema de todas as federais. As portas de entrada existem, mas o desafio é garantir a permanência dos alunos” | Foto: GovBA

Este resultado ainda será submetido ao Conselho Universitário (Consuni), que deve votar e encaminhar ao Ministério da Educação (MEC) uma lista tríplice com a indicação de nomes para o mandato dos próximos quatro anos à frente da Reitoria (2017-2021). Geralmente, o ministro da Educação acata o resultado desta pesquisa eleitoral. O sr. crê que o ministro Mendonça Filho também o fará?
Sim, acredito. É uma praxe adotada há muitos anos. Os ministros têm, por tradição, nomear o primeiro colocado, o que prestigia o processo democrático, dentro das universidades.

Ao vencer a disputa interna, o sr. reafirmou a intenção de seguir defendendo legado e o programa da antecessora e, também, pregou união total da instituição. Poderia expor os principais pontos desse modelo de gestão e em qual contexto enfatizou o termo “união total”?
Considerando a votação maciça, que aproximou-se de 80%, houve uma sinalização de que há um ambiente muito favorável, uma verdadeira sinergia para fazer com que, até mesmo aqueles que não votaram, possam fazer parte desse grande projeto da universidade, do ponto de vista participativo.

Além disso, há um ambiente propício para que temas engavetados ou polêmicos sejam levados à pauta novamente. Há um nível maior de maturidade, nesse momento, para que essa discussão ocorra.

Nas nossas caminhadas na campanha, o apoio das direções dos campus também foi inquestionável e atribuo isso ao fato de fazermos uma gestão mais técnica, mais transparente. Isso gerou transparência, essencial para o processo democrático. Em contrapartida, não podemos deixar de considerar que as cobranças e responsabilidades são proporcionais ao porcentual de votos recebidos, e por tal razão, o trabalho será dobrado.

Em conformidade com o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI 2016), os quatro pilares estratégicos da UFT, são atuação sistêmica, articulação com a sociedade, aprimoramento da gestão, e valorização humana. O sr. poderia enumerar as condutas e preceitos capazes de colocar tudo isso em prática?
Acredito que o gestor de uma instituição como esta deve dar e ser o exemplo, enquanto lida com as questões pessoais ou profissionais. Há que se prestigiar a humanização das relações, externas ou internas. Está implantada na UFT uma política de valorização de técnicos, professores e demais categorias, que têm vez e voz ativa nas decisões. Esta ou qualquer outra instituição de ensino não pode ser gerida apenas pelos preceitos do reitor ou do vice-reitor. É um conjunto de ideias, uma ampliação do espaço para os debates, que resultam no aprimoramento da gestão.

Um dos grandes desafios — que não se resumem a concluir obras em andamento — é melhorar a nossa comunicação com a sociedade. Em nossa avaliação institucional, a pior foi a comunicação, tanto interna, quanto externa. As pessoas não conhecem a magnitude e a importância desta Universidade, com campus espalhados por todo Estado do Tocantins, e nós não estamos sabendo divulgar o quão importante é esse impacto político, econômico, social, etc. Por isso, é necessário primar por melhorar a nossa forma de comunicação com a comunidade, mostrando quem somos e qual é a nossa importância.

Para tanto, iniciaremos no segundo semestre, um novo projeto denominado Seminário UFT e Sociedade, a ser realizado em todos os nossos campus, quando reuniremos prefeitos, vereadores da cidade, além da sociedade civil organizada para debater a universidade como um todo.

Neste contexto, a UFT FM e o Hospital Universitário não poderiam contribuir para esse estreitamento entre a instituição e a população?
Esses instrumentos, viabilizados através dos cursos de comunicação social e medicina, são de máxima importância para essa interação. A rádio já está funcionando – em que pese cumprir seu papel cultural e difusão da informação, pode ser melhor explorada. Já a estrutura do hospital está sendo viabilizada, visando permitir que funcione dentro de pouco tempo. São necessários alguns repasses federais, e entraves burocráticos muitas vezes atrasam a operacionalização dos projetos.

No que concerne à evasão escolar, como o sr. tem enfrentado ou administrado tal questão?
A base é a graduação e há de ser ressaltado o problema que todas as universidades federais têm experimentado, a evasão escolar. No Tocantins, aproximadamente 80% dos nossos acadêmicos se enquadram no critério de vulnerabilidade. Desse porcentual, a renda familiar gira em torno de um salário mínimo e meio.

Por muito tempo, essas pessoas sequer tinham acesso às universidades públicas. Melhoramos nesse aspecto, uma vez que agora as oportunidades e as portas de entrada existem, contudo, o desafio é garantir a permanência deles. Contribui para isso, o calendário escolar — atualmente disforme —, que em razão das greves que não coincide com as datas do Sisu. Em razão deste fato, houve muitas perdas de alunos e isso causou impactos diretamente nas estatísticas do MEC, e por consequência, no repasse de recursos.

A busca constante de fontes de energia alternativa socialmente justas, economicamente viáveis e ecologicamente corretas e o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de energia renovável, com ênfase no estudo de sistemas híbridos – fotovoltaica/energia de hidrogênio – e biomassa, visando definir protocolos capazes de atender as demandas da Amazônia Legal é uma das áreas de atuação prioritária da UFT. Quais são os avanços nessa área?
Temos programas de mestrado e doutorado em agroenergia, na busca por fontes alternativas. Outro grupo da área de engenharia elétrica tem realizados estudos sobre energia fotovoltaica.

Estamos muito preocupados com este tema e criamos uma diretoria de sustentabilidade e meio ambiente. Gastamos mais de 7 milhões de reais por mês com energia elétrica, considerando todas as nossas unidades. Além disso, temos obras para serem inauguradas e este fator vai gerar ainda mais gastos com energia. Se considerarmos, também, o aumento da tarifa, esse valor chegará em pouco tempo a 10 milhões de reais mensais, um montante mais do que considerável, se levarmos em conta, ainda, o contingenciamento do orçamento.

Estamos trabalhando para implantar o projeto piloto de compra de energia diretamente do fornecedor, sem passar pela concessionária, no caso, a Energisa. Essa compra direta no mercado, plenamente legal, vai permitir baixar o custo e promover uma economia sem precedentes aos cofres da universidade.

Levando-se em consideração que todos estes projetos (adquirir painéis fotovoltaicos e compra direta) são de longo prazo, já implantamos o sistema que utiliza grupos geradores de energia, que são acionados entre 18 e 22h30. É que o custo do diesel para alimentá-los é muito menor que o custo da energia elétrica, uma vez que o valor do kilowatt/hora é majorado neste horário. No campus de Palmas, por exemplo, quando estivermos operando em plena carga, a estimativa é que economizaremos entre 120 mil e 150 mil reais por ano.

Em relação às verbas federais, fruto de emendas parlamentares, sempre foram de crucial importância para o crescimento e desenvolvimento da universidade. Como o sr. lida com essa realidade e aproximação com os parlamentares federais tocantinenses?
Tenho um bom relacionamento com vários deles. As portas dos gabinetes sempre se abrem quando o tema é educação. Após ser nomeado pelo ministro e tomar posse definitivamente como reitor, irei até Brasília para visitar cada um dos gabinetes. Entretanto, historicamente alguns parlamentares há muito tempo têm destinado emendas parlamentares para a UTF, entre os quais os deputados César Halum (PRB) e Professora Dorinha (DEM).

As emendas parlamentares são de crucial importância para o desenvolvimento das universidades, porque estão separadas do orçamento anual da instituição. Este por sua vez, além de não ser suficiente para todos os investimentos em graduação, pesquisa e extensão, ainda vem sofrendo costumeiros contingenciamentos, em razão da crise que o País enfrenta. Assim sendo, as verbas previstas no orçamento, se bem geridas, apenas sustentam e mantêm a universidade, mas não permite outros investimentos. Estes só são possíveis através de recursos externos, tais como emendas parlamentares ou captação de verbas por convênios, através de projetos.

Em maio de 2017, a UFT inaugurou um novo prédio no campus de Arraias, região Sudeste do Estado. Esse O bloco integrado conta com 27 salas de aula, laboratório de informática e um auditório com capacidade para 200 pessoas. Há previsão para construção ou ampliação de outros campus?
Não há projetos para novos campus. O que há em andamento é uma política para consolidação dos campus que já existem. São obras em andamento, reformas e ampliações, iniciadas em 2014, ou seja, ainda na gestão anterior, mas que foram paralisadas face ao contingenciamento de verbas por parte do governo federal.

A meta, em conformidade com a orientação do MEC, é concluir todas as obras já iniciadas, até o final da gestão, que ocorrerá em 2021, entre as quais, o novo prédio da Reitoria, no campus de Palmas.

Como o sr. avalia uma possível criação d a Universidade Federal do Norte do Tocantins as ser desmembrada da UFT, cuja proposta já tramita no Congresso Nacional e foi aprovada na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara?
O projeto é antigo, mas foi reaquecido na última greve. Seria o desmembramento da UFT dos Campus de Araguaína e Tocan­tinópolis. À época, a senadora Katia Abreu (PMDB), aproveitando-se de sua proximidade com a presidente Dilma Rousseff, comprou a ideia e, às vésperas do impeachment, apresentou o projeto de criação de cinco novas universidades federais. A primeira seria esta, denominada Norte do Tocantins, a segunda, desmembrada da UFG, seria a de Jataí, a terceira, também em Goiás, Catalão. a quarta, desmembrada da UFMT, em Rondonópolis, a quinta seria em Parnaíba, no Estado do Piauí.

Vejo como um processo natural e positivo. As novas Instituições Federais criam, por consequência, novos campus, situados em outras cidades, ampliando o alcance social da educação. É um compromisso meu com aquelas comunidades e vou trazer o debate para o Conselho Superior da UFT. Acho a ideia válida. O Tocantins estaria privilegiado e bem servido com duas Universidades Federais e um Instituto Federal com vários campus espalhados pelo Estado. A bem da verdade, eu ficaria muito triste se, ao invés de criarmos novas universidades, estivéssemos planejando criar novos presídios.

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