“Sou um homem renovado, cidadão de bem, pai de família e trabalhador”

Suplente que assumiu cargo de vereador em Palmas por 121 durante licença do titular, filiado ao PSL diz que não sente vergonha do passado nas drogas, do qual se livrou “graças a Deus”

Vereador Irmão Jairo (PSL) | Foto: Aline Batista/Câmara de Palmas

De origem humilde, o novo vereador de Palmas, Irmão Jairo – empossado após a licença do titular, Claudemir Portugal (PRP) – é tocantinense de Novo Acordo, mas radicado na capital tocantinense há 28 anos. Sua trajetória inclui atividades como feirante, caminhoneiro, comerciante e pequeno produtor rural.

Na política desde o ano 2000, quando foi escolhido pelos membros do Ministério Seta para ser candidato a vereador na capital do Tocantins, obteve 845 votos, quando ficou como suplente de vereador. Em 2004, concorreu uma vez mais a uma vaga na Câmara e acabou entre os mais bem votados, com 1.215 votos. Contudo, restou-lhe apenas a suplência novamente.

Já nas eleições de 2008, 2012 e 2016, manteve a mesma média de votos, também insuficientes para alcançar uma cadeira no parlamento. Após a solicitação de licença para tratamento de saúde por parte do vereador titular, o suplente Jairo Muniz de Amorim, o Irmão Jairo, filiado ao PSL, assumiu em agosto de 2019 o cargo de vereador em Palmas por 121 dias.

Sua trajetória de vida, como também política, não se encaixa ao perfil da maioria dos parlamentares, visto que há um contexto de superação e persistência. Poderia expor alguns fragmentos dessa história?
É praticamente um testemunho de vida e de fé, do qual não tenho qualquer tipo de vergonha. Saí de casa para o mundo com apenas 14 anos de idade. Fui para Santos, São Paulo. Como não poderia deixar de ser, ante a ausência de estrutura familiar, tive condutas equivocadas, que culminaram com o uso de drogas e entorpecentes. Foi um período muito complicado da minha vida, enfrentei a Justiça dos homens e hoje, graças a Deus, tudo está superado. Sou um homem renovado, cidadão de bem, pai de família e trabalhador.

Após esses acontecimentos, quando já estava trabalhando em garimpos no Estado do Pará, surgiu o anúncio da criação, pela Constituição de 1988, do Estado do Tocantins. Então, resolvi regressar para minha terra, para minhas raízes, reiniciar minha vida. Logo após, com a criação da capital, estabeleci residência em Palmas em 1991. Por aqui resido até a presente data.

Iniciou-se, a partir daí, o seu estreito relacionamento com a igreja evangélica?
Na verdade, quando vim para Palmas, eu já estava congregando. Contudo, a partir da minha mudança para a capital, isso se intensificou. Conheci minha esposa na igreja CIADSETA, tivemos filhos, formamos um casal feliz. A religião transformou muito a minha vida e hoje sou o presbítero Irmão Jairo.

Trabalhei no comércio, fui feirante, prestador de serviços e, por fim, pequeno produtor rural. O contato com as pessoas, pertencentes à igreja ou não, me fez despertar um lado social e, mesmo trabalhando com dificuldades para sustentar minha família, sempre ajudei as pessoas menos favorecidas.

Lembro-me que eu pedia doações aos supermercados, de verduras ou frutas e outros mantimentos, e saía distribuindo de forma filantrópica. Talvez o meu sofrimento anterior nas ruas – que eu já havia superado – me fez enxergar com mais clareza o sofrimento dos outros. Fiz e ainda faço esse trabalho social, com muito prazer.

E quanto à política?
Em 2000, todo segmento evangélico entendeu que precisávamos de um representante na Câmara Municipal. Várias pessoas se apresentaram naquele meio, mas eu ainda fiquei um tanto quanto tímido. Estimulado por amigos, também apresentei meu nome para o plebiscito interno e, para minha surpresa, fui o escolhido pelos fiéis.

Fui candidato nas eleições daquele ano, não gastei dinheiro com a campanha política – mesmo porque eu não possuía recursos –, mas obtive expressiva votação, considerando que era uma candidatura segmentada. Até consegui mais votos que alguns vereadores que assumiram o cargo, mas por razões atreladas ao quociente eleitoral, fiquei como primeiro suplente.

Disputei outras quatro eleições – 2004, 2008, 2012 e 2016 -, sempre com a mesma média de votos, mas que sempre me garantiram apenas a suplência. Tenho um eleitorado coeso, que acredita na minha pessoa, apostam no meu nome. Isto é um reconhecimento que minha vida pessoal é regida por boas condutas.

Então seu eleitorado não está nos bairros e regiões da cidade, mas sim nas igrejas evangélicas…
Sem dúvidas. Não há um bairrismo de uma ou outra região da cidade. Meus votos estão concentrados no segmento evangélico. Por isso, vou lutar aqui na Câmara para aprimorar a Lei de Uso do Solo, porque muitos templos não são erguidos por esbarrar na atual legislação. É natural que eu defenda as ideias e os ideais desse segmento, porque o custo-benefício das igrejas é muito pequeno para o poder público. É minha obrigação fazer meus pares e outros governantes enxergarem isso.

O sr. está filiado ao PSL há bastante tempo, antes mesmo de o partido se tornar famoso com a chegada do presidente Jair Bolsonaro. A quais fatores o sr. atribui o insucesso nas eleições disputadas? Partido político ou coligações?
Claro que coligações erradas prejudicam a eleição. Contudo, o que é preponderante para que alguém obtenha êxito numa eleição não é a sigla e nem coligação. É a coesão do grupo político ao qual o candidato pertence, que define seu futuro eleitoral.

Por falar em presidência, e considerando que o chefe do Executivo nacional pertence ao seu partido, qual a sua percepção sobre os oito primeiros meses de mandato de Bolsonaro?
Governar um país é uma missão muito difícil, principalmente porque instalou-se na política brasileira o câncer e a cultura da corrupção. Ela é endêmica, prejudica o País e impede o crescimento da nação. Gosto sempre de repetir uma célebre frase: “O problema não é o grito dos maus e sim o silêncio dos bons”. Para estancar isso, temos de enfrentar essas mazelas, combater a corrupção com todas as forças.

Minha avaliação, portanto, é que a tarefa do presidente não é fácil. Mas Bolsonaro tem boas intenções, está no caminho certo e, exatamente por isso, tem enfrentado dificuldades por ter adotado essas condutas. Muitas vezes, não permanece calado ante alguns ataques que considera injustos e, às vezes, exagera no troco.

Porém, de uma forma geral, tem uma visão ampla da situação do País e tem apresentado soluções. Sigo firme no pensamento que Deus vai lhe ajudar a superar todas essas crises.

O sr. conhece o trabalho do seu colega de parlamento Pastor Rogério Santos (PRB), que tem objetivo recuperar pessoas do vício no álcool e outras drogas através da palavra de Deus?
Sim. Ele tem salvado algumas pessoas que estão envolvidas neste mundo dos psicotrópicos. É um trabalho louvável e relevante, sem dúvidas. A cura pela fé é um dos melhores remédios para esse mal. Posso garantir isso por experiência própria, uma vez que é o meu testemunho de vida e de fé. Quando a cura se dá apenas pela abstinência ou através de remédios ao invés da fé, a grande maioria dos usuários volta a se drogar. Isso é comprovado.

Partindo pelo lado das políticas sociais, penso que as igrejas atualmente são as maiores colaboradoras do poder público na medida em que assumem o papel de cuidar das pessoas praticamente a custo zero. O trabalho social e filantrópico dos segmentos religiosos, quer seja evangélicos, quer seja espíritas ou católicos, é admirável. Por isso, os governantes deveriam cuidar com mais zelo destas instituições.

Qual será a sua plataforma de ações e bandeiras no período que o sr. exercerá o mandato de vereador?
Sem dúvidas, a defesa da família e da moralidade. Sou totalmente contra a ideologia de gênero nas escolas, por exemplo. Não concordo, em nenhuma hipótese, com a possibilidade do Congresso Nacional aprovar leis que permitam relações incestuosas. Acho isso um absurdo.

Como parlamentar e como ser humano, vou sempre defender essa bandeira e lutar contra imoralidades. Não discrimino e nem tenho nada contra homossexuais – é necessário que isso fique bem claro –, mas não concordo com a institucionalização do casamento gay, por exemplo. São os meus princípios e deles, não abro mão. 

E quais seriam os projetos relevantes que o sr. tem em mente para apresentar ao parlamento durante o seu mandato?
Vários são os segmentos, como os feirantes e pequenos agricultores, que possuem demandas e nos procuram para ajudá-los. A assessoria parlamentar tem a missão de estudar essas questões, encontrar soluções para que nós, enquanto vereadores, possamos levar à tribuna e, posteriormente, protocolar os projetos ou requerimentos.

Evidentemente, vou fazer algumas proposições e, ainda que eu não esteja no exercício do mandato quando as matérias forem aprovadas, o que me interessa mesmo é que a população seja beneficiada.

O sr. estabeleceu uma relação de situação ou oposição ao Poder Executivo municipal?
Independente das posições políticas do titular do cargo, Claudemir Portugal, a minha postura não está atrelada à dele. Trata-se de um cidadão cumpridor de seus deveres, responsável, trabalhador e honesto. Porém, se no campo político ele tem divergências com a prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB), eu me posicionei como parceiro e aliado da base de sustentação dela. Vejo com bons olhos suas realizações e boas intenções, inclusive, com as constantes menções a Deus, o que considero muito importante.

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