“Saio do PSB e tiro meu apoio ao prefeito Amastha”

Vereador por Palmas revela projeto de disputar cadeira na Assembleia Legislativa
na eleição deste ano

Foto: Lourenço Bonifácio

“Sou podado, não sou recebido nos gabinetes como deveria ser um vereador que pertence à base governista, chegando a aguardar por mais de quatro horas para ser atendido na sala de espera. Isso é lá tratamento?” A mágoa destilada pelo vereador Marilon Barbosa ilustra sua contrariedade com o comando do partido que hoje é liderado pelo prefeito Amastha. Nesta entrevista, ele relata as conquistas dos seus mandatos, bem como explica as razões pelas quais vai sair do PSB e por que já se retirou do bloco de sustentação do prefeito na Câmara Municipal.

Graduado em administração pela Ulbra, elegeu-se a primeira vez para vereador em 2012, sendo reeleito em 2016, sempre pelo PSB. Pioneiro e morador do distrito de Taquaruçu, filho do primeiro prefeito de Palmas, Fenelon Barbosa, o vereador Marilon Barbosa se classifica como um lutador pelas causas locais e sociais.

Por estar no PSB há muito tem­po, o sr. ajudou a estruturar o par­ti­do no Tocantins, tornando-o forte em nível estadual. Qual é o seu papel hoje nessa estrutura partidária?
Gosto muito desse partido e das ideologias previstas no estatuto. Trouxe para o partido figuras como Carlos Amastha, Major Ne­greiros, Andrino, Laurez, entre ou­tros. Hoje o partido é forte, tem o prefeito da capital, muita re­presentatividade.

Contudo, acredito que não vou continuar no partido, porque sin­to que não tenho espaço na sigla. Não há convergência de ideias com o presidente regional, nem tampouco com o presidente me­tropolitano do PSB. Não estou fa­lan­do das pessoas que ocupam es­ses cargos, mas sim da forma como elas agem. Já tomei posição e faço, na Câmara, a partir de ago­ra, oposição ao prefeito Amastha. É incoerente para mim, perma­necer no mesmo partido do ges­tor municipal, fazendo oposição a ele, como também é contra os princípios partidários.

Eu penso diferente das pessoas que comandam o PSB hoje no Tocantins. Desde sempre, lutei pelo partido unido e, muitas ve­zes, enfrentei até mesmo diver­gências familiares para perma­necer na sigla. Já recuei e dei um, dois e até três passos para trás, com a finalidade de dar um passo à frente depois. Mas chega uma ho­ra que não dá mais para ceder, re­cuar e devo tomar um novo ru­mo na minha vida política.

Tenho outras ideias, mas elas não são respeitadas, porque o partido escolhe alguns poucos candidatos aos quais vai apoiar e fortalecer, em detrimento de outros mem­bros, e com isso eu não concordo. Esse fato já aconteceu com o prefeito Laurez Moreira, que pra­ticamente consolidou o partido comigo no Tocantins, e foi co­­locado para escanteio. Por tal ra­zão, saiu do PSB.

Particularmente, eu tenho pretensões de concorrer na próxima eleição ao cargo de deputado es­ta­dual, mas dentro do PSB isso é im­possível, porque a sigla já es­co­lheu outros candidatos que go­za­rão de todo o apoio do partido. Eu também tenho pretensões ób­vias de ser, um dia. pre­feito des­sa cidade, mas dentro des­sa sigla será praticamente impossível.

No finalzinho de 2017, o sr. co­mu­­­nicou formalmente o seu rom­­pimento com a base do prefeito Amastha. Por quê?
Essa decisão estava tomada há mais de seis meses, mas sempre pro­­curei o diálogo. Às vezes, de­moro a tomar decisões, mas quando tomo, são em caráter ir­re­vo­gável. Como disse, recuei muitas vezes em nome da coesão parti­dária. Os membros da sigla sabem disso, inclusive o presidente Alan Barbiero. Porém, não acho viável o partido trabalhar em cima de al­guns nomes, desprezando outros, mesmo que esses últimos possuam representatividade política ou cargos eletivos. Não posso fi­car num partido no qual não te­nho respaldo ou porque só sirvo se for para renunciar a alguma coi­sa (como a candidatura a pre­si­dência do diretório metropolitano, por exemplo), votar favorável ao prefeito ou ceder sempre.

Além disso, não me sinto integrado, nem tampouco confortável, na base governista ou mesmo perante a gestão do prefeito Amas­tha. A minha insatisfação passa pela falta de acesso ou diálo­go com os secretários municipais e até mesmo com o prefeito. Faço política social, como já dis­se, e, por conseqüência, sou procurado pelo povo para tentar ajudar a solucionar os problemas de cada um deles, que vão desde a dis­ponibilização de uma ambulância para transportar uma pessoa do­ente até a revitalização de uma es­trada vicinal ou uma quadra de esporte.

Entretanto, percebi que sou podado, não sou recebido nos ga­bi­netes como deveria ser um ve­reador que pertence à base governista, chegando a aguardar por mais de quatro horas para ser atendido na sala de espera. Isso lá é tratamento? Esse desprestígio é de­sestimulante e por isso, não pos­so continuar na sigla partidária nem tampouco na base do prefeito na Câmara. Refleti e decidi: o meu tempo por aqui, chegou.

Ressalto que votei em todos os pro­jetos encaminhados pelo prefeito enquanto estive na base, a não ser a ideologia de gênero e aqueles que prejudicavam servidores, mas no resto, fui fiel à gestão. Todavia, não posso mais re­mar no mesmo sentido que o prefeito Amastha, uma vez que não tenho visto qualquer tipo de con­sideração, prestígio e reciprocidade com a minha pessoa, tanto por parte do Paço Municipal, quan­to por parte do partido que ele comanda.

O sr. considera que essa posição de prestigiar um membro do par­tido em detrimento de outro, par­te de uma questão partidária ou da própria gestão do prefeito Amastha?
Sem dúvidas, a ordem vem do gestor da capital e não necessariamente do partido. Entretanto, co­mo ele comanda regionalmente o PSB, e por consequência natural, tem influência no diretório metropolitano, há um alinhamento de ide­ias e condutas. Eles têm suas pre­ferências, e isso eu respeito. Po­rém, a partir do dia que essas pre­ferências me prejudicam, não posso aceitar. Por tal razão, infelizmente, sou obrigado a sair de um partido que eu gosto, por in­compatibilidade de ideais. Não pos­so enterrar meu futuro político. Em 2018, portanto, não caminho mais com o partido, nem tampouco com a gestão do prefeito Amastha.

Há poucos dias, quando as emen­das impositivas foram vo­tadas, ficou claro que havia um ra­cha na base do prefeito, uma vez que aliados históricos, entre os quais o sr. e os vereadores Etinho Nor­deste, Vanda Mon­teiro, Juscelino e Felipe Martins, votaram em dissonância com a base do prefeito. Há uma insatisfação desses parlamentares com o gestor?

Eles também estão descontentes com a gestão e, também, estão desprestigiados. Quando votamos a favor das emendas impositivas – existentes em âmbito federal e estadual – já havíamos discutido muito sobre o tema e tínhamos cer­teza que, naquele caso, estávamos votando em favor do parlamento. Os vereadores da base do pre­feito que votaram contra agora não honraram suas assinaturas, por­que, anteriormente, haviam chan­celado essa proposta. Mas pelo jeito, o prefeito mandou votar contra em razão de interesses não explanados, e infelizmente, eles obedeceram.

Pelos últimos acontecimentos, essa sólida base parlamentar que o prefeito construiu em 2016 está em vias de se esfacelar?
Ele tinha 14 dos 19 vereadores. Hoje conta apenas com nove e já não tem maioria. Esse bloco, denominado independente, também está insatisfeito devido à falta de valorização e diálogo. Os pro­jetos do prefeito chegam em cima da hora para serem votados, não permitindo que haja discussões sobre os temas. Há uma es­pé­cie de imposição para que os ve­readores da base os aprovem, mas não há amplas discussões sobre o teor das proposições. En­tão, esses vereadores já não estão mais dispostos a se submeterem a tais imposições.

Essa situação pode ser mudada se o prefeito renunciar para se can­didatar ao cargo de governador do Estado do Tocantins?
Particularmente, eu não acredito que essa renúncia aconteça e tenho lá minhas razões, as quais prefiro não expor no momento. Con­tudo, se ocorrer, talvez o relacionamento da vice-prefeita com o parlamento municipal seja mais fácil. Temos que aguardar.

Em relação ao concurso da Câ­ma­ra Municipal, cujo edital já foi publicado, qual é o seu posicionamento?
Considero de extrema importância sua realização.Tanto os vereadores, quanto o Ministério Pú­blico e, também, a comunidade pal­mense, anseiam pelo certame, que dará lisura ao funcionamento da Casa Legislativa. Tenho certeza que os servidores concursados terão mais compromissos com o trabalho administrativo. Eviden­temente que no âmbito dos gabinetes, alguns servidores serão sempre comissionados – uma vez que se trata de cargos em confiança –, contudo, aqueles que trabalham internamente e gerem administrativamente a Câmara, devem ser concursados, na minha opinião.

Quais os projetos apresentados pelo sr. na Câmara de Verea­dores que considera mais relevantes?
Pautei e ainda pauto minha vida e meus mandatos pelo cunho social. Arregimentei assessores confiáveis que trabalham comigo incansavelmente, entre os quais a minha esposa. Quando fui eleito a primeira vez, havia feito um compromisso de criar um instituto, com finalidade de oferecer fisioterapia gratuita àqueles mais necessitados. Com o apoio da minha irmã Roberta, conseguimos viabilizar a clínica de fisioterapia e convencer meus pares a tornar o instituto como de utilidade pública. Hoje atendemos mais de 200 pa­cientes e fazemos mais de mil sessões por mês, a custo zero para nossa comunidade.

O instituto é mantido com recursos próprios, ou seja, doações do meu salário como vereador, sem qualquer emenda parlamentar ou auxílio de empresas de qual­quer ramo ou atividade. Lá mantemos projetos para idosos, crianças, além de mulheres grávidas. Num futuro breve transformarei em realidade o projeto para implantar uma clínica médica e outra odontológica. Tenho muito orgulho desse trabalho, porque du­rante esse tempo, atendemos mais de 500 pessoas, que tiveram sua saúde restaurada pelas sessões de fisioterapia, uma vez que estavam entrevadas e sequer locomoviam braços ou pernas.

Outro projeto relevante é “Impacto Social Cristão de Ta­quaruçu”, já fizemos duas edições dele e faremos a terceira no final de 2018. Cada evento atendeu mais de 2.500 pessoas, o que totaliza em torno de 5 mil atendimentos. Abrimos o evento com um mo­mento cívico, envolvendo, entre voluntários e assessores, mais de 200 pessoas. Trata-se de um dia inteiro de atendimentos e pres­tação de serviços à comunidade, como cortes de cabelo, consultas médicas, agendamentos de exames e cirurgias, entrega de cestas básicas, confecção de cartão SUS, Carteira de Identidade, entre outros. No final da tarde, realizamos casamentos comunitários ao custo zero para os noivos. For­ne­cemos ternos e vestidos de noiva, maquiagem, decoração, pagamento de taxas cartorárias, além do comparecimento de pastores e pa­dres, tornando o evento ecumênico. Além disso, promovemos atividades físicas e esportivas durante todo o dia, como corridas, campeonatos de futebol, vôlei, bas­quete e outros esportes, com a consequente premiação.

Por falar em ações sociais, o sr. foi um dos pioneiros no Tocan­tins, do Partido Socialista Bra­si­leiro (PSB), cujo estatuto prega, prioritariamente, o bem-estar social. O sr. foi eleito em 2012 e re­eleito em 2016 por esta sigla. Seu elo com esse partido tem por base essencialmente a sua con­fluência com a ideologia pre­vista em seus estatutos?
Mesmo que eu fizesse parte de outro partido, minha bandeira social seria a mesma. A essência do político está nas suas realizações e não em meros discursos, mes­mo porque a comunidade não está mais acreditando nos políticos de uma forma geral, como tam­bém, nos partidos políticos.

Além de ações sociais, também tenho projetos ecológicos que visam a sustentabilidade do meio am­biente. Um projeto de lei de minha autoria, denominado Eco­turismo de Taquaruçu, destina recursos do orçamento para recuperar fontes e mananciais, através do reflorestamento. Com a colaboração de mais de 50 jovens da co­munidade, retiramos várias ca­mi­onetes cheias de entulho das margens dos córregos e plantamos mais 300 mudas de árvores na­tivas. O resultado foi rápido: o flu­xo de água nos ribeirões au­men­tou mais de 40% em 2017.

Consegui levar, durante a legislatura passada, um Cmei para Taquaruçu, baseado num modelo es­colar padrão que agregou em­prego para professores e monitores, além de conforto para as crianças. Hoje, no distrito, a demanda está atendida em 100% e isso também traz comodidade e segurança para os pais, que po­dem ir trabalhar com tranquilidade, enquanto seus filhos estudam durante todo o dia.

A raiz política da família Bar­bosa em Palmas mostra-se profunda e histórica, uma vez que seu pai foi o primeiro prefeito de Palmas, o sr. exerce o cargo de vereador tendo como par o seu sobrinho Léo Barbosa (SD). E seu irmão, ­Van­derlei Barbosa (SD), é deputado es­ta­dual. É possível descrever de on­de vem tanta força política?
Creio que está no sangue mesmo dos Barbosa (risos). O Vanderlei, o mais experiente, tem 27 anos de mandato e isso já é um fei­to histórico. Com toda certeza, o fato de todos nós estarmos en­vol­vidos com a política, é fruto de um árduo trabalho do meu pai e minha mãe. É um dom natural do velho Fenelon fazer política sem visar lucros ou retornos, apenas co­mo forma de inclusão social.

Quando nem sequer se imaginava dividir o Tocantins ou criar a cidade de Palmas, ele já recebia os viajantes, numa espécie de rancho que ele construiu em nosso terreno para tal finalidade. Para se ter uma ideia, quando o pioneiro Jai­me Câmara resolveu ser candidato a deputado – ainda por Goiás –, meu pai conseguiu angariar mais de 100 votos para ele, sem nunca ter pisado em Taquaruçu, um pe­que­no reduto eleitoral. Então, isso já demonstrava o exercício de uma liderança muito grande.

Por sua vez, minha mãe também era uma mulher muito determinada e compenetrada em tudo que fazia. Exerceu o magistério por mais de 30 anos em Porto Na­cional e teve um trabalho prestado à comunidade portuense, tendo sido, inclusive, candidata a vice-prefeita. Na mesma época, meu pai se candidatou pela primeira vez a vereador e só não foi eleito em virtude do coeficiente elei­toral. Ambos nos ensinaram, por­tanto, inúmeros princípios, va­lores e, por consequência, cidadania.

E quanto ao fato de ele ter aceitado ceder a documentação de Taquaruçu, uma cidade emancipada à época, para criar Palmas, voltando apenas a ser um distrito da capital?
Considero essa decisão do meu pai como de extrema valia para o desenvolvimento da margem direita do Rio Tocantins, an­tes totalmente esquecida. Várias foram as oportunidades para pessoas se graduarem em cursos técnico ou superior, conseguirem em­pregos melhores e terem melhor qualidade de vida.

Enquanto fez política, meu pai sempre foi homem de grupo e essa decisão, que marcou todos os nossos destinos, foi discutida com a família, como também com to­dos vereadores no exercício dos seus mandatos. A cessão da documentação para a criação de Pal­mas teve apoio unânime do parlamento municipal. Hoje, por exemplo, se fosse proposta uma emancipação para o distrito de Taquaruçu, penso que a população optaria por continuar vinculada a Palmas, em razão da enorme gama de benefícios que a comunidade usufrui.

Falando nesse assunto, qual o seu pensamento acerca das dificuldades impostas pela legislação para emancipação dos distritos, que já possuem estrutura de cidade, como Luzimangues, por exemplo?
Luzimangues está pronto para ser emancipado e sou favorável a is­so, uma vez que possui totais condições de andar com as próprias pernas, por assim dizer. A legislação, com o intuito de barrar emancipações de distritos que não possuíam condições de sobreviver sozinhos, foi alterada para exigir dois terços dos votos na Câmara, em dois turnos de votação. Dessa forma, dificultou muito e agora, nem aqueles que têm condição de se emancipar, conseguem obter êxito. É necessária uma mobilização dos nossos parlamentares federais, como também do governo estadual, para atender a de­manda daquela comunidade.

Verificando suas votações em 2012, quando obteve 1.905 vo­tos e, em 2016, quando conseguiu convencer 1.978 eleitores, per­cebe-se que o eleitorado con­fiou no seu trabalho, uma vez que o número de votos au­men­tou de um pleito para o ou­tro. Há uma espécie de reduto elei­toral, o qual sempre lhe garante mandatos?
Sem dúvidas, uma parcela do eleitorado, faz parte das raízes que cultivo há muito tempo. Na primeira eleição, houve uma certa dificuldade por não ser detentor de mandato. Contudo, tive o apoio completo da minha família e amigos, além de um forte trabalho no sentido de aglomerar pioneiros em torno da minha candidatura.

Na segunda eleição, quando pensei que fosse mais tranquilo, o problema foi o número de candidatos no mesmo distrito, Taquaruçu. O meu sobrinho Léo Barbosa resolveu concorrer também ao cargo de vereador, além do Major Negreiros. Os três fomos eleitos, o que prova que nosso distrito tem força política e está bem representado, pois além dos três, temos também um deputado, meu irmão Vanderlei. Nós, representantes da região, estamos empenhados em fazer esse resgate histórico e cultural que o distrito merece.

Contudo, devo ressaltar que a minha linha de ação não se resume àquela localidade. Sou vereador da cidade de Palmas e não apenas de Taquaruçu e minha obrigação é expandir meus horizontes para todos os bairros da capital, de norte a sul, de leste a oeste.

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