Renúncia pode encerrar o ciclo político do siqueirismo

Com um governo irreconhecível, ex-governador Siqueira Campos sacrifica mandato para tentar manter o seu grupo no poder. Inicialmente, saída foi saudada como jogada de mestre, mas agora há sérias dúvidas sobre isso

Siqueira Campos renuncia ao mandato de governador numa manobra que politicamente pode ser um tiro no pé

Siqueira Campos renuncia ao mandato de governador numa manobra que politicamente pode ser um tiro no pé

Ruy Bucar

Uma semana depois da renúncia do governador Siqueira Campos (PSDB) e do seu vice, João Oliveira (DEM), para permitir que o filho Eduardo Siqueira Cam­pos dispute o governo do Estado, e a 20 dias da escolha do novo governador por meio de eleição indireta, a “jogada de mestre” co­meça a ser posta em dúvida. A jogada de mestre, como foi saudada pelos governistas, começa apresentar dúvidas que podem comprometer o grande esforço do velho líder para fazer o filho sucessor na mais importante e talvez derradeira oportunidade.

O procurador eleitoral Álvaro Man­zano alerta que o governador in­terino, Sandoval Cardoso (SDD), e o ex-secretário de Relações Insti­tu­cionais Eduardo Siqueira (PTB) não podem ser candidatos à eleição indireta. Os dois não têm prazo de um ano de filiação partidária como rege a legislação eleitoral. O presidente interino da Assembleia Legislativa, O­sires Damaso (DEM), anuncia que a Casa vai editar resolução ignorando esta exigência legal. A medida se­ria para privilegiar Sandoval e Edua­r­do Siqueira? Mas porque arriscar por caminhos que vão levar inevitavelmente a contestações judiciais?

Siqueira não atirou no escuro, certamente. Pelo que dá a entender trocou nove meses de mandato por mais quatro anos do seu grupo — leia-se filho — no poder. Só uma razão explica a renúncia do cacique tucano: a possibilidade de eleger o governador na eleição indireta e cacifar este nome para ser candidato à reeleição, tendo como garantia o uso da máquina administrativa, algo inerente ao siqueirismo, desde sempre. Numa combinação de fatores para fugir do desgaste do governo e se apresentar como algo novo, resultado de alguma mudança que pode iludir a opinião pública.

Vice João Oliveira também renunciou pelo siqueirismo| Foto: Romilton Messias

Vice João Oliveira também renunciou pelo siqueirismo| Foto: Romilton Messias

É importante observar que esta estratégia parece que segue rigorosamente o roteiro da “aventura” do ex-governador Carlos Henrique Gaguim (PMDB) no comando do Palácio Araguaia, eleito em pleito indireto e que se tornou um candidato quase imbatível, que por pouco não desbancou o velho líder. É inexplicável que Siqueira, que tanto criticou o governo Gaguim, tenha encerrado o seu governo copiando a prática do peemedebista, como entrega de ambulâncias e viaturas para prefeitos, lançamento de obras que não se sabe se serão realizadas e concessão de benefícios para servidores para serem pagos por governos seguintes.

Voltando às indiretas apenas dois nomes aparecem nesta lista de Siqueira para repetir a façanha do peemedebista: o do ex-secretário Eduardo Siqueira e o do presidente da Assembleia Legislativa e hoje governador interino, Sandoval Cardoso. Mas se os dois preferidos são considerados inelegíveis o plano falhou redondamente ou não há impedimento para quem não é dado a observar normas? Siqueira sabe que o que às vezes passa com facilidade nos tribunais regionais, pode cair com a mesma facilidade nas cortes superiores, em Brasília.

Líderes de oposição acreditam que a eleição indireta vai despertar o interesse da sociedade. Nos bastidores se fala em levante popular para exigir transparência no processo eleitoral, que se não for bem conduzido pela Assembleia Legislativa pode desgastar ainda mais o governo. O fato novo que se supõe vai surgir da Assembleia pode eclodir com defeito de origem, como os desgastes do governo e sem a credibilidade necessária para recuperar o nível de satisfação da gestão.

Outro dado importante a ser observado é quanto à escolha do nome do candidato governista à eleição indireta. Os comentários de que o nome preferido da base é o do Sandoval Cardoso é apenas parte da estratégia para esconder que o plano foi arquitetado para levar Eduardo a suceder o pai. Neste momento de desgaste acumulado do governo só a eleição indireta possibilitaria a concretização deste feito.

Eduardo Siqueira Campos, o filho: vai adiantar?

Eduardo Siqueira Campos, o filho: vai adiantar?

Os governistas nutrem a confiança de que se Eduardo Siqueira assumir o comando do governo vira um candidato forte. Sandoval é reserva. Só será convocado se o nível de desgaste de Eduardo impedi-lo de ser. E a imagem de Eduardo não vai mudar com a renúncia nem com a eleição indireta. Se assumir o governo pode se queimar de vez, se não assumir não terá poder nem influência para ser tornar um candidato competitivo. Este candidato pode ser o governador indireto. Neste caso, Sandoval passa a ser o mais cotado.

Se a intenção da renúncia era beneficiar o filho, o ex-governador estará inevitavelmente sendo obrigado a pendurar a chuteira. Se Eduardo for candidato ao governo Siqueira não poderá disputar a cadeira do Senado. Sem mandato durante quatro anos dificilmente voltará ao poder, a não ser que resolva trilhar o caminho percorrido por Iris Rezende, que buscou na Prefeitura de Goiânia a retomada da carreira depois de duas derrotas para o governo e para o Senado. Siqueira pode ser candidato a prefeito de Palmas. Estaria em 2016 com 88 anos. Teria motivação e condições físicas para tal?

Sobre a eleição indireta o go­verno tem maioria na As­sem­bleia e condições de eleger o go­vernador seja qual for o nome. Eduardo ou Sandoval correndo o risco de impugnação ou apresentação de outro nome que venha manter o governo nas mãos do siqueirismo. Mas é preciso fazer uma distinção importante, tem deputado governista que não é necessariamente siqueirista. Neste caso poucos são os nomes que depois de eleitos manteriam reverência ao ex-governador. Portanto a renúncia abriu as portas para o poder escapar do controle siqueirista ainda que alguém da base seja eleito.

Aos olhos dos analistas políticos e observadores a renúncia do governador e do vice, que criou perplexidade no meio político, independentemente do resultado da eleição indireta marca o fim de um ciclo político que se convencionou chamar de siqueirismo, e o início de um novo período que ainda não se sabe o que vai ser. Isso está tão claro que até o próprio governo trabalha com esta tese. No plenário da Assembleia Legislativa tem deputado da base apontando o fim do ciclo siqueirista. O deputado José Bonifácio (PR) ressalta que Siqueira faz parte do passado.

A rigor a renúncia foi uma aposta nesta possibilidade de rompimento radical com um ciclo que se exauriu com o tempo e a tentativa de apresentar algo novo, ainda que a estratégia seja para manter a continuidade e não para promover mudança. Como preceitua o príncipe de Lampedusa, mudar para tudo continuar como está. Uma tentativa que pode ou não vingar. Para o governo que estava desgastado e sem opção, se livrar do desgaste e contar com alguma alternativa já significa muito. Daí a invenção da ruptura.

É possível que o governo consiga obter algum resultado concreto com esta manobra de sacrificar o mandato para se manter no poder. Tem maioria na Assembleia Legislativa e não terá muita dificuldade para eleger o novo governador. Mas será que ao impor um jogo de cartas marcadas que intriga até aliados vai conseguir se fortalecer para as eleições diretas? O que a sociedade vai pensar, ao tomar conhecimento dos verdadeiros interesses que motivaram a renúncia? Se o apoio ao governo já era pequeno pode reduzir ainda mais.

Nos últimos quatro anos o Tocantins já teve quatro governadores – Marcelo Miranda, Carlos Henrique Gaguim, Siqueira Campos e Sandoval Cardoso – e pode chegar ao quinto até o final do ano. A disputa que começou tão logo foi lida a mensagem de renúncia do ex-governador expõe as mazelas e fragilidades do Estado, que passa por momento especialmente dramático, talvez o pior em termos administrativos desde que foi criado. Aumento significativo da violência, crise na saúde, estradas em péssimo estado de conservação, falta de investimento em obras de infraestrutura e aumento exagerado das despesas de custeio em função da política de cooptação por meio de emprego público.

É neste contexto de instabilidade que acontece a eleição indireta e que pelos interesses políticos envolvidos pode contribuir para agravar ainda mais a crise. Indiferente à crise de gestão o siqueirismo tenta mudar para continuar tudo como está. O plano pode dar certo, como poder fazer a sociedade acordar para manobra política que não tem foco na gestão, mas no resultado eleitoral. Neste caso a renúncia que foi saudada como jogada de mestre pode paradoxalmente apressar o fim do siqueirismo.

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