Pretensões demais e articulações de menos marcam a corrida pelo Palácio Araguaia

Pelo menos nove nomes já se apresentaram como pré-candidatos ao governo do Estado, na primeira eleição sem a influência dos velhos caciques

Palácio Araguaia, sede do governo tocantinense | Foto: Reprodução

Ruy Bucar

A oito meses das eleições, a corrida pelo Palácio Araguaia, sede do governo do Tocantins, segue morna, conturbada e imprevisível. Talvez ainda no compasso de espera do resultado das investigações que levaram ao afastamento temporário do governador Mauro Carlesse (PSL), um político inexpressivo em início de carreira que alçou ao cargo máximo da política tocantinense no vazio provocado pela cassação do então governador Marcelo Miranda, em 2018, pela segunda vez. Agora parece seguir o mesmo destino do antecessor.

O afastamento de Carlesse provocou uma reviravolta na política do Tocantins e pode alterar o contexto da disputa pelo Palácio Araguaia, a depender dos desdobramentos do caso, que estão por vir.

Os carlessistas estão cada vez mais pessimistas quanto à volta triunfante do governador. Enquanto isso, o governador em exercício Wanderlei Barbosa (sem partido), aos poucos, vai defenestrando o que sobrou de quadros da gestão anterior. No meio político há fortes convicções de que Carlesse virou cadáver político insepulto. Um caso sem volta. Com pouquíssimas chances de resgatar o mandato e nenhuma de salvar a biografia. Aliados de outrora agora são adversários de primeira hora. Na cena política tocantinense se observa uma movimentação frenética de líderes na velha marcha cadente do oportunismo governista.

Carlesse se conseguir se livrar das garras da Justiça, momentaneamente, terá pela frente o julgamento político dos deputados. Na Assembleia Legislativa o processo de impeachment do governador se mantém na ordem do dia, como bomba relógio.

De vez em quando a monotonia da corrida sucessória é quebrada com o lançamento de mais um pré-candidato. Nomes e mais nomes vão inflando a lista. Já são nove os governadoriáveis, nesta, que pode ser uma das eleições mais disputadas do Estado. Estão na disputa, o senador Eduardo Gomes (MDB), o governador interino Wanderlei Barbosa (sem partido), o ex-prefeito de Palmas Carlos Amastha (PSB), o senador Irajá Abreu (PSD), o ex-senador Ataídes Oliveira (PROS), o ex-prefeito de Gurupi Laurez Moreira (Avante), o ex-prefeito de Araguaína Ronaldo Dimas (Podemos), o ex-deputado Paulo Mourão (PT), e o deputado federal Osires Damaso (PSC). Nomes de mais para projetos de menos, e segue a corrida.

É natural do processo o surgimento de muitos nomes nesta fase de articulação. A maioria dos pretensos candidatos de hoje não chega sequer às convenções, mas alguns certamente, vão ser convidados a compor a chapa majoritária, como candidato a vice ou a senador. É provável que no afunilamento do processo restem no máximo cinco nomes, dos quais apenas três disputem para valer a possibilidade de conquistar vaga no segundo turno.

Ressalta-se que alguns partidos com forte tradição no Tocantins como o PSDB, o PP, o PV e a União Brasil (fusão do DEM com o PSL) ainda não tiraram posição oficial se vão ou não lançar candidato próprio ao governo do Estado.  O mais provável é que formem aliança em torno de projetos já colocados, indicando nomes para compor a chapa majoritária. Vejamos as chances de cada um neste tabuleiro de apostas. Lembrado que a formação de federação pode inviabilizar alguns projetos regionais.

Quem é quem na disputa

Ataídes Oliveira

Empresário bem-sucedido, político coerente, mas de pouco carisma. Teve uma boa atuação como senador que assumiu em lugar de João Ribeiro, trabalho que o cidadão comum do Tocantins desconhece. Ataídes tem um sério problema pela frente, ter um partido para chamar de seu. Trocou o PSDB pelo PROS depois de perder prestígio no ninho tucano. Agora foi a vez do PROS tirar-lhe a direção regional da sigla o que o desagradou. Recentemente recebeu convite para se filiar PTB e ser o candidato do partido. Em 2014 foi candidato a governador, tendo ficado em 3º lugar com 3,54% dos votos. Também foi preterido para o Senado em 2018, tendo ficado em 5º lugar com 13,34% dos votos.

Carlos Amastha

Empresário bem-sucedido, surpreendeu o Brasil ao se eleger prefeito de Palmas na sua primeira disputa eleitoral, em 2012, tonando-se um fenômeno eleitoral, é um nome a ser considerado. O colombiano-brasileiro fez um bom trabalho em Palmas, foi reeleito e deixou a Prefeitura para disputar do governo do Estado em 2018, foi para o segundo turno com Carlesse. Amastha tem capital político para disputar o governo do Estado ou a senatoria. Tem um bom partido na mão e é ativo nas redes sociais, mas na planície perdeu visibilidade. Ainda não deixou claro para a militância o que pretende em 2022.

Eduardo Gomes

O senador Eduardo Gomes (MDB) é tido como o homem do Bolsonaro no Tocantins. O senador é um trator em termos de articulação política, fala a língua do povo e sabe aproveitar bem as relações com poder. Mas tem sérios problemas para construir uma chapa competitiva. No meio político seu nome é visto como de alguém que tem dificuldade de resgatar compromisso. Gomes ainda sofre o desgaste da imagem associada ao governador afastado Mauro Carlesse de quem era parceiro, conselheiro e defensor. Sua candidatura tem por trás a missão de formar palanque forte para o presidente Jair Bolsonaro (PL) que como se sabe está em queda livre nas pesquisas de intenção de voto.

Irajá Abreu

O senador mais jovem do Brasil, tem no DNA o gosto pela política e a disposição para o enfrentamento. Chegou ao Senado puxado pelo braço da mãe, senadora Katia Abreu (PP), mas tem luz própria. Pela sua juventude tem tempo para esperar, mas tem declarado que não descarta disputar agora o Palácio Araguaia. Um nome que se vai ouvir falar muito na política do Tocantins.

Laurez Moreira

Laurez Moreira é um político pragmático. Persistente e vencedor. Saiu da Câmara de vereadores da pequena Dueré, para virar prefeito de Gurupi, tendo passado pela Assembleia Legislativa e Câmara Federal. Em Gurupi foi reeleito e por pouco não fez o sucessor. É o principal líder político do sul do Estado no momento. Tem capital político para disputar o governo do Estado ou uma cadeira no Senado. Mantém diálogo com Dimas e com Wanderlei, dois nomes que também buscam se consolidar na disputa pelo Palácio Araguaia. É filiado ao Avante.

Osires Damaso

O deputado federal Osires Damaso (PSC) pode surpreender nesta corrida. Empresário tocantinense que chegou a Assembleia Legislativa como suplente, conquistou a presidência da Casa e alcançou a Câmara Federal. O deputado explora o nicho eleitoral do segmento evangélico e parece entusiasmado com o projeto de conquistar o Palácio Araguaia para o “povo de Deus”.

Paulo Mourão

O ex-deputado é um líder emblemático. No início da carreira era um político de direita, antigo militante da UDR, hoje figura como um herói da resistência do PT. Um dos poucos líderes políticos do Tocantins que tem um plano de governo na cabeça e é capaz explaná-lo de forma didática ao alcance de qualquer ouvinte, mas tem dificuldade de apear da sua visão elitista.  O ex-deputado já em campo movimentando a militância petista com a missão de formar um palanque forte no Tocantins para o Lula que sempre foi bem votado no Estado. Sua candidatura surge envolta em especulações de que pode compor com Wanderlei Barbosa, na condição de vice. O pré-candidato se prepara para percorrer o Estado com a Caravana da Mudança a partir deste mês.

Ronaldo Dimas

O ex-prefeito de Araguaína Ronaldo Dimas (Podemos) é o nome mais consolidado na corrida, no momento. Deixou o governo da segunda maior cidade do Estado com prestígio em alta, fez o sucessor e lidera as pesquisas de intenção de voto. Dimas precisa construir um projeto político com líderes de Palmas e do sul do Estado, se quiser formar uma chapa competitiva. Ter um nome com boa aceitação é um bom começo, mas não basta, é preciso compor com outras frentes políticas para formar uma base forte. Dimas mantem diálogo com Laurez Moreira e Eduardo Gomes, no momento dois concorrentes e não aliados.

Wanderlei Barbosa

O governador interino Wanderlei Barbosa (sem partido) saiu do ostracismo para ocupar o espaço do candidato governista. Barbosa foi quem mais ganhou com o afastamento de Carlesse. Se assumir o cargo em definitivo Barbosa ganha força para mudar o contexto eleitoral e liderar a corrida. Começa a ser citado como o filho da terra que conhece a realidade do Tocantins. O governador interino terá que agregar na chapa majoritária líderes do norte e sul do Estado, já que ele representa a região central, Palmas.

Possibilidade de renovação
Nestas eleições, há um dado importante que a difere das anteriores. Pela primeira vez em mais de 30 anos de criação do Tocantins se tem a possibilidade real de uma renovação política no comando do Estado. Será a primeira eleição sem a sombra dos velhos caciques que comandaram o Estado nestas três décadas.

Siqueira Campos, Moisés Avelino e Marcelo Miranda, que comandaram o Estado desde sua criação, já não têm mais poder para influenciar no resultado das eleições, como no passado recente. Ainda estão militando e de alguma forma participando do processo, mas não com força suficiente para bancar nomes. Quem foi eleito será por mérito próprio, pela força de suas propostas e da capacidade de aglutinar apoio.

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