Pré-candidatos marcham no impasse

Dúvida marca os nomes principais na sucessão: Siqueira Campos a usa para ganhar tempo e empurrar a definição para a última hora; Marcelo Miranda, para se livrar do massacre siqueirista e levar em banho-maria seu projeto político de voltar ao Palácio Araguaia. Enquanto isso, Marcelo Lelis e Paulo Mourão tentam ocupar espaço

Marcelo Miranda, Siqueira Campos, Marcelo Lelis e Paulo Mourão: cada um está se mexendo ao seu modo para outubro | Fotos: Fotos: Assembléia Legislativa/TO

Marcelo Miranda, Siqueira Campos, Marcelo Lelis e Paulo Mourão: cada um está se mexendo ao seu modo para outubro | Fotos: Assembléia Legislativa/TO

Ruy Bucar

Os dois maiores protagonistas das próximas eleições, o ex-governador Marcelo Miran-da (PMDB) e o governador Si­queira Campos (PSDB), ainda podem ser considerados dúvida para as próximas? Depende do ângulo de observação. Os dois são dúvidas porque não podem assumir agora a condição de pré-candidatos como gostariam ou como cobram as bases. Um, porque esconde o jogo, o outro porque ainda não entrou no jogo, apesar da manifestação favorável da torcida. Mas são candidatíssimos, até que eles provem o contrário ou caminhem para a re­vanche de 2006.

Siqueira é o candidato, ainda que negue de pés juntos. A tradição recomenda que quando Siqueira nega, na verdade afirma. Mais do que candidato, ele é o único nome da base governista com condições de sonhar em manter o siqueirismo no poder. Não é mais um candidato imbatível de outros tempos, em função do desgaste do governo e da falta de motivação para o exercício do poder — há poucos dias considerou o seu governo um fardo, e não há ninguém que discorde que este governo está sendo muito pesado, desde o governador ao cidadão comum. Mas Siqueira ainda é um nome a ser considerado porque está no poder.

Eduardo Siqueira, o virtual candidato da base, está descartado. O nível de rejeição do jovem Siqueira é tão alto que nenhum governista estaria disposto a bancá-lo, pelo risco de entregar o jogo antes de a partida começar. Ainda tem o escândalo do Igeprev que colou no ex-secretário. Se deixar configurado que será o candidato estará provocando o aparecimento de dossiês e denúncias que podem resultar em novos escândalos. Eduardo sabe que isso seria comprometer a “galinhas dos ovos de ouro”, a governabilidade, o funcionamento do governo, a fábrica de capital político que o governo ainda detém.

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Sandoval Cardoso, do SDD, que ganhou evidência como possível candidato ao governo após curta passagem pelo Palácio Araguaia, não é candidato ao governo no es­tratagema siqueirista, pelo menos até agora. O deputado vem sendo trabalhado para ser vice, porque tem condições de ajudar a pagar a conta.

O senador Vicentinho Alves, do SDD, é o político mais leal ao siqueirismo, mas o siqueirismo não lhe tem sido tão leal na mesma proporção. Vicentinho vinha sendo articulado para ser uma espécie de reserva de luxo de Eduardo Siqueira Campos. O problema é que o senador foi esquecido no banco na medida em que o ex-secretário foi deixando de ser candidato. O senador é um político eficiente e atua bem diferente do siquerismo, no silêncio, sem barulho, talvez esteja aí a sua falha. Como não faz barulho parece que não trabalha. A verdade é que Vicentinho nunca foi considerado como uma opção a altura do desafio do momento. A não ser na total falta de opção. Vicen­tinho ainda está sob risco de perder a cadeira de senador, o que faria dele no máximo um candidato ao Senado.

Voltando aos protagonistas Marcelo e Siqueira, é curioso observar que eles se assemelham também nos obstáculos que terão que superar para serem candidatos. O governo não está bem. Daí a necessidade de segurar o jogo para evitar desgastes. Marcelo Miranda, que no momento é o único nome capaz de levar a oposição de volta ao Palácio Araguaia, na dúvida se será ou não elegível, prefere aguardar a desenrolar dos fatos para assumir plenamente a condição de pré-candidato. E pelo jeito terá que ter paciência. O primeiro round da eleição do Tocantins está sendo decidido em Brasília. Pelo placar no momento Siqueira está ganhando no tapetão. Marcelistas esperam uma virada surpreendente para levar a disputa para o voto popular, onde é garantia que é imbatível.

Marcelo Miranda não assumiu o Senado como vinha planejando. Além da frustração, Miranda vem sendo obrigado a manter o pé no freio, na verdade, com o projeto político quase estacionado. Os números das pesquisas nunca foram tão alvissareiros para o peemedebista como agora. Mi­randa tem mais de 50% de intenções de voto, sem participar da pré-campanha. A indefinição favorece seus adversários internos e externos. A saber, deputado Júnior Coimbra (PMDB) e o governador Siqueira Campos, respectivamente. Sem Marcelo na disputa o siqueirismo avalia que tem chances.

Siqueira tem dupla responsabilidade nesta história. Além de ter que criar condições para ser candidato tem que criar obstáculos para Marcelo não ser candidato. Não será fácil avançar nestas duas frentes ao mesmo tempo. As articulações para barrar Marcelo estão servindo para impulsionar a aceitação do peemedebista a um patamar jamais imaginado. A estratégia de patrocinar Júnior Coimbra para desconstruir Mar­celo Miranda está furada.

Veja-se o que aconteceu recentemente em Gurupi. Em uma reunião da pré-candidatura o deputado foi vaiado por fazer críticas ao ex-governador, quem imaginaria que isso poderia acontecer? Neste caso se pode dizer que o tiro saiu pela culatra. Na pressa de desconstruir Miranda com o argumento da inelegibilidade Coimbra está ajudando a transformar o peemedebista em vítima, o que sempre provoca comoção popular. Coim­bra está tornando Marcelo cada vez mais forte.

O siqueirismo precisa se dar conta de que eliminar Marcelo da disputa não resolve a eleição no Tocantins. Do jeito que vem sendo conduzido o processo, se Marcelo ficar impedido de disputar as eleições certamente vai assumir a condição de fator decisivo, ou seja, terá força para ajudar eleger o governador. Pelo menos é que apontam as pesquisas. E convenhamos, o governo não fez nada para mudar este panorama. Os desacertos, que não são poucos, só ajudam a consolidá-la.

Bem, o mundo não é feito só de marcelistas e siqueiristas, há outros “istas” crescendo à sombra da indefinição das grandes forças políticas que controlam o poder no Estado. Distante deste cenário de dúvidas o deputado Marcelo Lelis, do PV, corre atrás de cer­tezas. Uma delas é que há espaço para ocupar. Está tendo a certeza que seu nome é leve e tem boa aceitação. Tem certeza que a polarização entre os dois grandes favorece os pequenos com visão grande para aproveitar as oportunidades. Tem certeza que está no rumo certo, pois tem constatado nas andanças pelo interior que sua postulação está num crescente.

Lelis tenta consolidar o seu nome na disputa percorrendo o interior levando a mensagem de alternativa de mudança. A receptividade ao projeto do deputado é bem melhor do que os verdes imaginavam. O deputado com a sua caravana PV na estrada já percorreu o Sudeste, o Bico do Pa­pagaio e mantém empolgação com a pré-campanha. Avalia que tem muito espaço para crescer e faz planos para unir a oposição em torno do seu nome. Não é nenhum devaneio, pode sim virar a alternativa.

Lelis tem demonstrado que está sabendo jogar. Não ofende nin­guém, demonstra ter projeto próprio e vai aos poucos avançando. Diferentemente de Júnior Coimbra, que mal começou a andar pelo Estado já se considera governador e faz campanha quei­mando todos os que estão na sua frente, adversários e aliados que nem ele mesmo sabe diferenciá-los. Será que está tão difícil assim diferenciar entre governo e oposição, ou para o deputado tudo é farinha do mesmo saco, só ele não?

O PT desistiu do empresário Nicolau Esteves e deu um grande passo para assumir papel de relevo nestas eleições, compatível com a sua importância no cenário estadual, ao referendar o ex-prefeito Paulo Mourão como pré-candidato a governador. Mourão terá uma missão espinhosa pela frente: recuperar a imagem do partido desgastada com o apoio automático dos seus deputados ao governo e construir um diálogo com a oposição que a sigla vinha perdendo. Neste sentido é interessante observar que as mesmas correntes que defendem candidatura própria sem diálogo com o PMDB são as que apoiam o governo. Mourão é o melhor nome do PT e sua entrada na disputa dá segurança. É um político experiente, foi deputado federal por quatro mandados e prefeito de Porto Nacional, onde deixou a marca de gestor inovador. Tem tudo para pegar o time principal de candidatos com chances reais de se tornar alternativa das oposições.

E a fila anda e desanda. Vão ficando para trás alguns nomes que se apresentaram com chances de pegar a dianteira. Estão nesta condição o empresário Roberto Pires, do PP; o senador Ataídes Oliveira, do Pros; e o procurador da República Mário Lúcio Avelar, sem partido. Os três seriam bons candidatos se tivessem estrutura partidária e disposição para percorrer o Estado mostrando seus projetos. Eles são apenas nomes cogitados, mas ainda não se apresentaram como pré-candidatos.

Pires atrasado

Roberto Pires é o mais atrasado nessa corrida porque é o que tem maior potencial e pouco fez para aproveitar o cenário favorável. Tem perfil que se supõe que seja o que o eleitor deve buscar nestas eleições, e tem estrutura financeira para bancar uma campanha. Já andou até desfilando com o marqueteiro Duda Mendonça. Mas não se tem notícias de suas andanças pelo interior nem tem explicação para essa ausência. Precisa se apresentar.

O senador Ataídes Oliveira anunciou que vai percorrer todos os municípios com a caravana do Pros, levando a proposta de candidatura própria. Será indiscutivelmente uma experiência decisiva. Verá que ainda é um nome desconhecido da grande massa do elei­torado e que o seu partido ainda é um amontoado de líderes em busca de uma direção. Ataídes tem obrigação de dar um norte ao Pros, não precisa necessariamente ser com candidatura própria. É bem verdade que candidatura própria ajuda, mas se não tiver viabilidade eleitoral, atrapalha. Por enquanto a senatória toma todo o tempo do líder do Pros, que bate ponto no Senado, mas se ausenta da pré-campanha.

Mário Lúcio Avelar ainda está em Goiânia, negociando com o Ministério Público Federal, em Brasília, seu afastamento e esperando que o PSB lhe caia nas mãos por intercessão da líder do Rede, Marina Silva, e da generosidade do governador de Per­nambuco, E­duardo Campos, enquanto o Palácio Araguaia trama para isso nunca acontecer. Ainda que o PSB venha ser colocado à disposição do procurador ele terá pouca chance de emplacar. Os 16 prefeitos do partido o desconhecem e, além disso, aguardam as promessas do governo de ajuda para os seus municípios.

Teve mudança também no rabo da fila. O sindicalista Cley­ton Pinheiro, do PTdoB já está declinando da candidatura ao governo do Estado, prefere a­creditar na possibilidade de uma vice. Pessoas mais próximos ao presidente do Sisepe revelam que seu verdadeiro objetivo não é ser candidato a governador e sim a deputado estadual.

Ainda assim a fila de trás está bem representada. Três competidores se organizam para fazer bonito na corrida: professor Élvio Quirino, do PSol, o empresário Toninho da Brilho, do PMN, e o professor Adail Gama, do PSDC. Adail é escolado nesta disputa. Já foi candidato a governador e sabe que o jogo é pesado, sobretudo para os pequenos que não têm recursos para campanha e muito menos poder de barganha.

Resumindo: Marcelo e Siqueira podem se confrontar na revanche que remonta 2006, quando Mi­randa derrotou o mito e deu início a desarticulação da maior coligação política do Estado. Se Siqueira não for candidato e não tiver condições de impor o filho, só aí entrariam as alternativas Sandoval Cardoso e Vicentinho Alves. No outro lado, se Miranda não puder ser candidato, Kátia Abreu certamente será convocada. O projeto da senadora é ser candidata à reeleição, mas tem dito que não foge à luta, se for convocada. Mas só entra em campo se o titular pedir para sair.

Marcelo Lelis e Paulo Mourão de alguma forma se beneficiam destas dúvidas, mas são figuras gregárias, só andam em bando. Trabalham para ser candidatos, mas primeiro buscam unir as oposições. Sabem que as oposições unidas podem eleger o próximo governador e a chance de ser um deles é muito grande. O resto, os nanicos que lutam por um lugar ao sol ainda terão que provar que estão mesmo competindo.

No momento é isso, mas é preciso considerar que surpresas podem acontecer a qualquer momento, até mesmo quando tudo parece estar decidido, mas principalmente quando tudo está por decidir.

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