“Para voltar a crescer e ter bancadas fortes, o MDB precisa olhar para a militância que fica nos municípios”

Reeleita para novo mandato de deputada federal, a ex-primeira-dama avalia como foi o trabalho no Congresso até agora e conta quais são os seus planos

Dulce Miranda comenta sobre os diversos fatos que marcaram seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados | Foto: Divulgação

Os admiradores dizem que Dulce Miranda tem o MDB e o povo do Tocantins no coração. É assim que ela costuma ser aclamada por onde passa, exatamente em razão da simpatia e simplicidade em suas expressões. Casada com o ex-governador Marcelo Miranda há mais de 30 anos, ela é bacharel em Direito e foi a primeira-dama do Estado entre 2002 e 2009 e, posteriormente, entre 2014 e 2017. Atuou como secretária estadual de Ação Social e do Trabalho, com especial atenção ao empoderamento das mulheres tocantinenses e em defesa das comunidades tradicionais. Em 2014, foi a deputada federal mais votada no Estado, com 75.934 votos. Em 2018, foi reconduzida ao cargo, após obter 40.719 votos.

Como surgiu seu interesse pela carreira política? Está ligado ao histórico familiar
Primeiramente, quero pontuar que trabalho com ações sociais antes mesmo de casar com o Marcelo Miranda. Aliás, o trabalho que fazia de forma tímida em Araguaína, como voluntária, foi um dos motivos que nos aproximou e estamos nessa caminhada há mais de 30 anos. Embora eu sempre estivesse envolvida politicamente em ações em todo o Tocantins, com o meu marido tendo mandato ou não, eu nunca deixei o social. É algo que corre no meu sangue. Foi por isso que entrei na faculdade de Serviço Social e depois no Direito. Porém, só após 20 anos dedicados a ajudar as pessoas menos favorecidas foi que pleiteei vaga a um cargo eletivo. Em 2014 o MDB tinha como estratégia aumentar o espaço das mulheres na vida política. Encarei o desafio. Fui eleita com quase 76 mil votos, a deputada mais votada do Tocantins.

Qual balanço a sra. faz do mandato, que lhe foi outorgado por mais de 75 mil tocantinenses, iniciado em 2015?
Foi uma legislatura singular. Tivemos o impeachment da presidente Dilma Rousseff, depois denúncias contra o presidente Michel Temer e uma série de reformas com temas complexos e relevantes à sociedade. Uma intervenção federal deixou o Congresso Nacional impossibilitado de apreciar PECs durante um período. Mas apesar de todo o cenário, considero um balanço muito positivo para o Tocantins. Consegui, por exemplo, recursos para mais de 80 municípios. Leis de minha autoria foram aprovadas. Fui vice-presidente da Comissão de Agricultura, o que para um Estado com forte produção agrícola, foi um ponto relevante. Por fim, o que me deixa muito feliz: avançamos bastante nas políticas para a primeira infância.

A sra. se reelegeu em 2018, após obter 40.719 votos. A quais fatores a sra. atribui a diminuição da votação?
Assim como ocorreu na eleição de 2014, em 2018, a sociedade pedia por renovação total do Congresso Nacional e das assembleias legislativas. Apesar de a minha votação ter sido menor que a dos quatro anos anteriores, considerei-a bem satisfatória. Eu estava numa legenda forte, com candidatos fortes e que também já tinham uma folha de serviços prestados ao Estado. Não subi em nenhum palanque da majoritária e segui minha campanha com o pé no chão, com os eleitores e candidatos que acreditavam e acreditam no meu trabalho, a exemplo de prefeitos, vereadores e deputados estaduais. Considerando toda a conjuntura, sou extremamente grata pela minha votação. Se observarmos outras legendas, muitas conseguiram conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados com o quantitativo de votos inferior ao meu.

Ainda assim, a sra. considera que houve, por parte da população, um reconhecimento ao seu trabalho no que concerne à legislatura 2014/2018?
Não tenha dúvida disso. Receber o aval de quase 41 mil pessoas, significa dizer que esses eleitores confiam no seu trabalho, que apostam no que eu posso fazer pelo o Tocantins.

Em relação ao recente julgamento acerca das contas de campanha, por parte do TRE-TO, não lhe pareceu injusta a inversão de valores que, ao invés interpretar a lei eleitoral que visa beneficiar candidaturas femininas, acabou por lhe prejudicar?
Soa como irônica essa situação: estou com contas desaprovadas, por usar o recurso destinado à candidatura feminina na minha própria campanha, em dobradinha com candidatos do meu partido, e, em votação que beneficiou a mim e me reconduziu a mais um mandato. O recurso foi utilizado em candidatura feminina e elegeu a candidata, tenho o diploma que mostra isso.

A destinação das emendas individuais seguem quais cronogramas e critérios?
Segue o critério do ensinamento de Jesus Cristo: “Batei e abrir-se-vos-á. Buscai e me acharei”. Pessoas da sociedade civil organizada, vereadores e prefeitos que batem na porta do meu gabinete e apresentam suas demandas, essas serão prioritárias. A partir delas será a minha vez de bater às portas dos ministérios para conseguir emendas e ajudar na solução dos pedidos, independente de questões partidárias.

No que concerne às suas próprias emendas, um vulto muito grande de recursos foi destinado aos mais diversos municípios do Tocantins, quer seja com a finalidade de adquirir ônibus escolares ou ambulâncias, quer seja para construção de creches, escolas, quadras, poços artesianos ou mesmo recuperação de estradas vicinais. Há algum tipo de preferência nestas destinações em relação aos municípios comandados por prefeitos do MDB ou aliados?
Adversário o é, apenas no período de campanha política. Como disse: minhas emendas são destinadas a quem procura o meu gabinete. No meu primeiro mandato atendi vários prefeitos que não eram do meu partido e que não me apoiaram na campanha eleitoral. Muitos gestores se surpreenderam com a minha forma de fazer política e passaram até a me apoiar. Como frisei: o meu intuito é ajudar a população e lutar pela melhoria de todos os municípios. Reitero que o social está no meu sangue, ajudar é o que sei fazer de melhor.

E no que concerne a emendas de bancada, qual a sua percepção acercas das destinações de 2017 e 2018?
A bancada do Tocantins, apesar das disputas no campo eleitoral, é muito unida no Congresso Nacional. Sempre tem trazido muitos recursos e benefícios para o Estado. Nos últimos anos foi muito municipalista, destinando implementos agrícolas e ônibus escolares para todos os 139 municípios do nosso Estado.

O Tocantins possui várias reservas indígenas e as mais diversas etnias, inclusive, com áreas demarcadas. Contudo, algumas aldeias vivem em situações precárias. A sra. considera que ainda falta comprometimento de todas as esferas de governo com a causa indígena?
Acho que as questões indígenas têm avançado, mas precisam melhorar. Temos de olhar para os povos indígenas com muito respeito. Eu sempre visitei aldeias e sei um pouco das suas necessidades. Em outubro de 2017, levei o então ministro de Desenvolvimento Social, hoje ministro da Cidadania, Osmar Terra, à Aldeia Brejo Comprido, em Tocantínia. No local, sugeri a implantação de um projeto-piloto do Programa Criança Feliz. O ministro e uma comitiva da China conheceram o sucesso do programa implantado para as crianças da Aldeia. Enfatizo que o projeto Criança Feliz tornou-se referência nacional. Os povos Indígenas sempre farão parte das minhas discussões políticas, não só na resolução de problemas, mas também na apresentação de sua arte, a exemplo da Artística Literária Cultural Indígena, montada no hall do Palácio Araguaia, em julho de 2016.

Qual o seu posicionamento acerca das chamadas travessias do Araguaia, na Ilha do Bananal e também em Xambioá? Qual é o grau de importância dessas duas alças viárias para o Estado do Tocantins?
Uma importância logística ímpar, pois permitirá baratear o custo logístico para escoar a nossa produção. Mas não poderemos deixar de analisar os impactos socioambientais de uma obra dessa relevância na região da Ilha do Bananal. As tragédias de Mariana e Brumadinho são exemplos da seriedade que temos que tratar a questão, pois são vidas e meio ambiente lutando por sobrevivência.

Quais são as suas expectativas em relação ao governo de Jair Bolsonaro?
O Brasil atravessa uma fase de recuperação de esperança por parte da população, onde tem na figura do presidente Jair Bolsonaro, a solução de todos os problemas. O discurso do governo federal é de resgate dessa esperança, de patriotismo, de credibilidade, de país sério para morar e investir. Eu contribuirei no que for preciso para que realmente possamos avançar com políticas públicas que alavanquem a qualidade da vida das pessoas, ajudar o Brasil. Teremos matérias importantes e polêmicas para serem votadas, porém necessárias, pois definitivamente o Brasil não pode ficar como está. Na condição de brasileira e, estando deputada, também quero que o presidente faça um bom mandato e contribuirei para que isso ocorra.

Como a sra. avalia a recente filiação do senador Eduardo Gomes ao MDB?
O MDB ganha muito com a filiação do senador Eduardo Gomes. Ele é um colega que tem muito prestígio nacional, com perfil aglutinador e um exímio articulador. O MDB e o Tocantins ganharão muito com o senador.

Qual a sua sintética visão do MDB no Estado do Tocantins?
O MDB é o maior partido do país. O que tem mais prefeituras e uma força muito grande na base. O partido lutou pela redemocratização do Brasil e após muitas lutas, conseguimos resgatar a democracia. A força da sigla não está nos mandatos que o partido tem, mas sim na nossa militância. Temos uma base muito forte, e isso fica claro quando andamos nos municípios e lugares longínquos do País. Acredito que o MDB voltará a aumentar suas bancadas, mas é preciso uma autoanálise e se conectar novamente aos anseios da população. No Tocantins, tivemos uma boa performance nas últimas eleições. Mantivemos o mesmo número de parlamentares nas bancadas estaduais e federal. Com essa base sólida que temos no Estado e com novos filiados, a exemplo do senador Eduardo Gomes, acredito que agora o partido deverá voltar os olhos para sua militância, principalmente aquelas que ficam na ponta nos municípios. Com essas observações, defendo que o MDB tem tudo para repetir os excelentes desempenhos que sempre teve no Tocantins.

Como a sra. acredita que será norteada a atuação da maior bancada de deputados estaduais eleitos, pelo MDB (Jair Farias, Nilton Franco, Valdemar Junior, Jorge Frederico e Elenil da Penha), considerados como figuras exponenciais dentro da sigla?
São deputados com grande experiência política e grandes quadros do partido. Acredito que desempenharão um belo trabalho na Assembleia Legislativa.

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