“Palmas tem que ser adensada, em vez de expandida, como foi até agora”

Vereador eleito pelo PSB, e considerado “braço-direto” do prefeito Amastha, pretende focar mandato nas áreas de educação e habitação

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Dock Júnior

Mineiro de Itajubá, Tiago Andrino migrou para Palmas a convite do então pré-candidato a prefeito Carlos Amastha, em 2009. Após a posse do gestor em 2013, assumiu o cargo de Secretário de Governo e foi um dos idealizadores do evento “Palmas Capital da Fé”. Foi também autor do programa Jovem Empreendedor e um auxiliares que mais contribuíram para a criação do “Resolve Palmas”.

Andrino tem um histórico de militância política no movimento estudantil em Santa Catarina. Antes de se tornar bacharel em direito em 2008, chegou a ser vice-presidente Sul da União Nacional dos Estudantes (UNE) e membro da Federação Nacional dos Estudantes de Direito.
Em 2014 foi candidato a deputado Federal pelo PP, alcançando mais de 36 mil votos e a suplência na Câmara Federal. Já em 2016, foi eleito vereador em Palmas, pelo PSB, alcançando a votação expressiva de 2.499 votos. Andrino, logicamente, será um dos esteios da base de sustentação do prefeito reeleito Carlos Amastha, face à proximidade de ambos. Nesta entrevista ele deixa explícito suas preocupações relacionadas aos mais variados temas como saúde, educação, habitação, empreendedorismo, inclusão social e acessibilidade.

Como e por quê, o sr. entrou na política?
Depois de ter vivido um pedaço da minha infância em Palmas, entre 1992 e 1993, morando com minha mãe, me mudei para Campinas (SP) para tentar a carreira de jogador de futebol. Aos 18 anos, eu já estava na Europa, especificamente em Portugal, porém, não me profissionalizei como atleta. Eu fiquei muito preocupado com a rapidez da carreira de jogador e, por esta razão, voltei ao Brasil para estudar. Fiz o curso de Direito em Florianópolis (SC), participei ativamente do movimento estudantil, colaborando intensamente também, em debates, com os avanços que a educação experimentou, como o Prouni, Fies, Enem, etc. Foi assim que eu entrei na política.

Na capital catarinense, conheci o então empresário Carlos Amastha, que já possuía negócios em Palmas no ramo da tecnologia de educação à distância. Surgiu, então, em 2009, o convite para que eu me mudasse novamente para Palmas, com o fito de assessorá-lo em seus negócios e projetos políticos.

Nas eleições de 2014, o sr. tentou uma vaga de deputado federal pelo PP, obtendo expressiva votação, mais de 36 mil votos, considerando que era apenas um iniciante na política. Tais votos não foram suficientes para sua eleição, contudo, foi alçado à condição de suplente. Como foi aquela experiência?
Minha candidatura naquele momento era o melhor caminho para o nosso grupo político. A capacidade de angariar recursos para a capital era em Brasília, por isso optamos por esse projeto. Precisávamos de uma pessoa de grande articulação e eu gozava de bons relacionamentos na capital federal naquela época. Antes mesmo da minha candidatura a deputado, lutamos por recursos para o BRT, para habitação e saúde. Por tal razão, se eleito fosse, cumpriria um papel importante no grupo na busca de verbas federais a serem aplicadas em Palmas.

Além disso, desde o movimento estudantil, sempre sonhei em ser o instrumento das mudanças políticas no Brasil. Creio que o país precisa de reformas políticas e tributárias, além de revisar o pacto federativo. Essas mudanças passam pelo Congresso, mas ele, infelizmente, ainda é muito conservador, não no sentido político, mas por conservar mesmo o que há de ruim. A indignação e a voz das ruas foram claras, mas o Congresso não ouviu, ou se ouviu, não escutou.

Quais fatores foram preponderantes para a não obtenção de êxito naquele pleito?
Foram vários. O primeiro é que a coligação foi feita para beneficiar o candidato que disputava a reeleição, o parlamentar Lazaro Botelho. Segundo, houve um ataque direcionado à minha candidatura a deputado federal, pelo fato de ser jovem e, principalmente, estar ligado ao prefeito Amastha. Muitos grupos políticos lutaram contra a nossa ascensão. E terceiro, estávamos aliados ao grupo político errado, que, a bem da verdade, não tinha os mesmos interesses e ideais que os nossos. E, por fim, o quarto, a minha própria falta de experiência em eleições.

Dentro desse contexto, após as eleições, o sr. e o prefeito Amastha se desfiliaram do PP e ingressaram no PSB. Por que essa opção?
Sempre tive simpatia pelo PSB. Creio que é o único partido que pode agregar e acabar com a dicotomia PT-PSDB e, por fim, unir o Brasil. O PSB é o meio do caminho, uma vez que possui grandes gestores como o PSDB e, ao mesmo tempo, uma grande vocação para defender as classes trabalhadoras, a sociedade como um todo, como tem o PT. É, portanto, uma espécie de cruzamento de uma gestão mais social, contudo, paralelamente, mais eficiente. O Amastha, eu e o vereador Major Negreiros fomos recebidos no partido pelo prefeito de Gurupi, Laurez Moreira. Inobstante a isso, já havia bons nomes na sigla, como o professor Alan Barbiero, professor Danilo, além do vereador Marilon Barbosa e o deputado estadual Ricardo Ayres. Trata-se hoje de um bom time, capaz de apresentar excelentes projetos para o Tocantins.

Nessa última eleição municipal, o PSB foi o partido que mais teve votos no Tocantins, uma vez que ganhou as majoritárias em Palmas, Gurupi e Dianópolis, além da vice-prefeitura em Araguaína na chapa liderada por Ronaldo Dimas (PR).

Ao ter seu nome lançado em nível estadual com a candidatura em 2014, a campanha lhe expôs midiaticamente e aquela votação lhe credenciou a disputar o último pleito e se eleger vereador em Palmas. Sua votação em 2016 foi, proporcionalmente, expressiva uma vez que obteve 1,85% dos votos validos – 2.499. Qual região da cidade que está o seu eleitorado e qual é o nível escolar dele?
Tive votação em todas as regiões da nossa cidade e isso me legitima exercer esta representatividade em todo município. Houve votos em todas as urnas, contudo, meu eleitorado se concentrou no plano diretor da capital.

Pelo estilo de campanha que eu fiz nas ruas, acredito que foram votos de uma população consciente, crítica em relação ao atual parlamento, e, por fim, o voto de um eleitorado muito ligado ao gestor municipal, Carlos Amastha. Esses eleitores acreditam que o prefeito pode fazer muito mais pela cidade e por esta razão o reelegeu. Na mesma linha de raciocínio, também estão confiantes que eu serei um vereador articulador e parceiro do prefeito na Câmara Municipal.

Houve significativa renovação na Câmara de Palmas, quer seja pelo fato de alguns deles não concorrerem à reeleição, quer seja porque outros deles não obtiveram êxito no pleito. O parlamento municipal é acusado de ser subserviente ao prefeito Carlos Amastha. Como o sr. avalia essa relação do Legislativo com o Executivo?
No primeiro ano do mandato do prefeito, eu era secretário de Governo e nós tínhamos uma minoria absoluta: 3 vereadores dos 19. A eleição do Major Negreiros, hoje no PSB, para a presidência da casa pode ser considerada uma anomalia. Talvez a oposição quisesse cooptá-lo ao elegê-lo, contudo, essa tentativa restou frustrada. Essa governabilidade com minoria custou muito caro, porque o modelo de gestão do prefeito Amastha é muito ousado. Ele prima pela austeridade, pelas reformas, transformações e ajustes fiscais. Isto tem um custo político alto, porque a “velha política” está culturalmente acostumada ao “toma lá, dá cá”, e isso acabou emperrando muitas votações. Então, quando se opta por essa ousadia, sempre vai haver dificuldades de relacionamento com o Parlamento.

Em relação à próxima legislatura, penso que pode melhorar muito, visto que conseguimos eleger um bom número de vereadores – dez no total – e o Amastha terá condições de fazer uma maioria política, capaz de garantir a governabilidade.

Como braço direito do prefeito por longos anos, o sr. é candidato natural à presidência da Câmara?
Eu creio que não é o momento para lançar essa candidatura à presidência. Tenho uma visão crítica acerca do formato e composição da nova mesa diretora, que praticamente ocorre entre o Natal e o ano-novo. Acho pouco democrático e deveria haver debates na tribuna para que a sociedade pudesse avaliar o que o próximo presidente pretende fazer ao assumir o cargo. A população realmente não escolhe o presidente daquela casa, contudo, o Legislativo é mantido com dinheiro público, principalmente agora que foi objeto de questionamento em rede nacional.

Considero até mesmo que deveria haver sessões noturnas para o debate das questões de impacto social, na medida em que o cidadão, muitas vezes, quer participar das discussões, porém, não pode deixar seu trabalho e afazeres para comparecer ao Parlamento. É uma das minhas propostas, inclusive. Outro projeto de urgência é a instalação da TV Câmara, com a finalidade de dar publicidade às sessões e trâmites da casa legislativa. Os questionamentos acerca da falta de transparência das contas da Câmara, além da ausência de concurso público, são outros temas que afligem a população e também a mim.

Portanto, considero que neste momento eu serei muito mais útil apresentando propostas e questionando irregularidades, do que me colocando como candidato à presidência, num formato eleitoral que está comprometido e não permitiria essas transformações.

"Prouni federal permite abatimentos no Imposto de Renda. podemos incentivar as faculdades privadas da capital a aderirem ao programa” | Foto: Reprodução

“Prouni federal permite abatimentos no Imposto de Renda. podemos incentivar as faculdades privadas da capital a aderirem ao programa” | Foto: Reprodução

A Prefeitura de Palmas tem promovido audiências públicas para discutir o plano diretor da cidade, e já fez isso junto aos mais diversos segmentos da sociedade, entre os quais as universidades e os movimentos sociais, além de ouvir a própria população em vários setores da cidade. Qual sua visão sobre esse tema?
O prefeito tem como um dos eixos centrais da sua gestão, o desenvolvimento urbano. Isso envolve diretamente a qualidade de vida das pessoas, tanto na parte do desenvolvimento econômico, quanto no que concerne ao cotidiano das pessoas que vivem na capital, como transporte, mobilidade, ciclovias, arborização, etc.

Nesta revisão, Palmas tem que ser adensada, em vez de expandida, como foi até agora. É uma preocupação constante desta administração, diminuir os vazios urbanos. O IPTU progressivo, aliado aos ajustes fiscais e atualização da planta de valores, bem como todos os mecanismos constantes no Estatuto das Cidades, tem sido executados pelo prefeito. A revisão do plano diretor vai permitir que Palmas se torne ainda mais sustentável e economicamente viável para as futuras gerações.

Um das constantes reclamações da população é o estacionamento rotativo sem carência. A crítica ao prefeito se avolumou exatamente em razão do fato dele ter construído um shopping na cidade e este estabelecimento particular oferecer tolerância de dez minutos aos motoristas que estão de passagem, enquanto que no estacionamento público não há essa exceção. Qual é a justificativa e como a gestão encara essas críticas?
Nos últimos pronunciamentos do prefeito, ele pontuou acerca do paradoxo de como fazer com que o estacionamento rotativo tenha qualidade para o contribuinte, e ao mesmo tempo, seja viável para a empresa que opera o sistema. Fizemos muitas exigências à concessionária, contudo, ela alega que estacionamento ainda é deficitário. É passível de discussão, sem dúvidas. Contudo, o que eu me proponho a fazer na Câmara é defender os interesses do con­tribuinte/cidadão. Luto, avidamente, pela bandeira dos direitos do consumidor. Caso for necessário, discutiremos o monitoramento eletrônico dos bolsões de estacionamento, a tolerância ideal, etc. Firmei um compromisso com o cidadão palmense na campanha eleitoral: irei defendê-lo.

Quais são as suas perspectivas para o mandato que assumirá a partir de 2017?
A revisão do plano diretor, sem dúvida, será um dos temas mais importantes no primeiro ano de mandato. Entretanto, escolhi alguns eixos – porque analisando outros mandatos legislativos – percebi que muitos vereadores assumem sem planejamento ou com poucos compromissos práticos. Por esta razão, escolhi algumas áreas com as quais me comprometi na campanha eleitoral: habitação e regularização fundiária são algumas delas. Pretendo propor a criação de um fundo permanente, em que parte dos recursos municipais iria diretamente para esse fundo municipal de habitação, e com isso atrair novos parceiros, na tentativa de resolver o problema da moradia em Palmas, que é gigante.

Tive orgulho de ter participado da regularização fundiária do Jardim Taquari e o Santo Amaro, mas ainda há muito para ser feito em vários setores, como Irmã Dulce, Lago Norte, Taquaruçu 2ª etapa, St. Universitário, o Fumaça e o Tiúba, entre tantos outros.

Quanto ao acesso à universidade, também tenho projetos, porque pude percebi que com a queda do Fies — inclusive alimentada por essa discussão nacional acerca do teto de gastos —, o município tem que assumir essa parceria para fortalecer e ajudar os jovens a ingressar num curso superior. A ideia é lançar uma espécie de Prouni municipal criando incentivos para abatimento no ISS. Ora, se o Prouni federal permite abatimentos no Imposto de Renda, porque não criarmos um mecanismo para incentivar as faculdades privadas da capital a aderirem ao programa? Isso permitiria que o abatimento de seus impostos gerassem bolsas de estudos a estudantes menos favorecidos. Já apresentei o projeto ao prefeito e às universidades particulares, que gostaram muito da ideia. Apresentarei esse projeto de lei no primeiro ano do meu mandato.

Também me preocupo muito com a acessibilidade. Os portadores de necessidades especiais sofrem nesta cidade, mesmo porque ela não foi concebida para pedestres e sim para carros. A ausência de arborização, espaços nos estacionamentos, entre outros problemas é preocupante. A gestão avançou muito na acessibilidade no transporte coletivo, todavia mais de 50% da frota ainda não atende esse segmento da população. Isso compromete a qualidade de vida dessas pessoas e me entristece. Tenho compromisso com eles e vou lutar pelos direitos que já estão garantidos e muitas vezes não são respeitados, além de suas inclusões nos meios sociais.

Em nome do Jornal Opção, ciente da sua capacidade, desejo-lhe sucesso nesta nova empreitada e que o sr. faça um bom mandato, honrando os votos que lhe foram concedidos no último pleito.
Agradeço a oportunidade concedida por esse veículo de comunicação e dizer que nesse momento de tanto descrédito com a classe política, espero que meus colegas naquela casa e todos aqueles que exercerem cargos de representação, tenham sensibilidade e zelo com a coisa pública. Rever e repensar conceitos – algo que eu também estou fazendo – é necessário.

É o momento de humildade, simplicidade e generosidade política. Muitos conceitos arraigados precisam ser modificados e isso passa pelos municípios e seus representantes. Minha função precípua na Câmara de Vereadores será aproximá-la da sociedade. Espero fazer um mandato extremamente participativo.

O sr. pretende implantar um gabinete aberto?
Aberto a boas discussões. Àquelas questões que envolvam os direitos das pessoas, do consumidor, das minorias, estarei sempre receptivo. Contudo, para algumas demandas estarei fechado. Aquelas que visem burlar a lei, contrárias ao interesse público, esquemas de corrupção, favores inescrupulosos ou que vão contra aos interesses da cidade, serei absolutamente contrário. O que houver de ruim, terei coragem para trancar as portas. l

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