“Palmas é uma cidade incrível”

Ex-governador diz que a capital que ele criou do nada é fruto do trabalho de cada um de seus habitantes

Siqueira Campos | Foto: divulgação

A história de José Wilson Siqueira Campos se confunde com a história do Tocantins, como também com a da capital, Palmas. O Estado, criado com a promulgação da Constituição Federal de 1988, após uma incessante luta do então deputado federal Siqueira Campos, cresceu, se desenvolveu e, face à sua privilegiada logística, se tornou com o decorrer do tempo, um canteiro de obras. Quem não se lembra do jingle: “…faz um tempão, meu irmão, uma voz se levantou… todo povo se uniu, e o progresso veio a mil…”?

Palmas – cuja pedra fundamental foi lançada em 20 de maio de 1989 – é o mais puro reflexo do referido progresso e se tornou o polo, a referência, o orgulho de todos os tocantinenses de nascimento ou de coração.

Siqueira Campos nasceu na cidade do Crato (CE) em 1º de agosto de 1928. Foi vereador de Colinas do Tocantins, à época, norte de Goiás. Foi deputado federal por Goiás de 1971 a 1988. Governou o Tocantins por quatro vezes: 1989-1990; 1995-1998; 1999-2002; 2011-2014.
Eleito governador pela primeira vez, quando várias cidades disputavam para ser a sede do poder do novo Estado, Siqueira lançou a ideia de uma nova capital, à margem direita do Rio Tocantins, na qual muitos não acreditaram. O incansável e visionário político acabou por colocar o Estado na rota do desenvolvimento, transformando-o numa vitrine a atrair investidores nacionais e internacionais. Além de Palmas, fundou também as cidades de Bandeirantes e Campos Lindos.

Palmas completou 28 anos no dia 20 deste mês. Para traçar o perfil da cidade aniversariante, sua criação, avanços e perspectivas, o Jornal Opção abriu espaço para o ícone, o homem que vislumbrou o sonho de uma cidade e o tornou realidade.

O sr. chegou no então Norte de Goiás ainda na década de 1960. Por quais razões e com quais objetivos empreendeu tal migração?
Como muitas pessoas deste Brasil, nasci numa família pobre, no interior do Nordeste. Saí muito cedo da casa dos meus pais, em busca de oportunidades na capital do Ceará, Fortaleza, época em que cheguei até mesmo a passar fome. Migrei para o Estado do Amazonas ainda na década de 40, com a finalidade de sobreviver da extração da borracha, enfim, ser seringueiro. Tive muita sorte de sair de lá vivo, visto que era um local muito violento e sem lei. Fui salvo por uma senhora excepcionalmente boa, por nome Bernadete, após ser amarrado e açoitado no tronco, como se fosse um escravo. Ela salvou minha vida, após cortar as cordas, durante a madrugada, o que me permitiu navegar o Rio Manacapuru abaixo, até encontrar abrigo. Tempos depois não pude salvar a vida dela, e isso me entristece até os dias atuais.

Ao escapar desse martírio, fui para o Rio de Janeiro, uma vez que meu pai havia se mudado para lá. Concedi entrevista ao Jornal “O Globo” e denunciei as atrocidades e o trabalho escravo existente nos seringais da Amazônia, cuja repercussão, à época, foi imensa. Morei, também, em Belo Horizonte e interior de Minas Gerais e, ainda, em São Paulo, onde empreendi no ramo de comércio de peças de automóveis, importação de produtos não disponíveis no Brasil, etc. Ganhei dinheiro em São Paulo, fui bem sucedido enquanto atuei como atacadista.

Em 1964, adquiri uma grande área de terras em Colinas, localizada no então Norte de Goiás. O projeto era montar uma serraria e explorar o comércio de madeiras, até mesmo com compradores do exterior. Tudo estava indo muito bem até que se iniciaram as perseguições políticas. Fui denunciado ao Exército como o “Che Guevara” dessa região, e por isso, cheguei a ser preso por 21 dias. Esclarecidas minhas reais atividades comerciais e agropecuárias, fui libertado. Decidi, após isso, que eu deveria entrar para a política de vez. Fui eleito vereador no ano seguinte e depois disso, empreendi viagens – num pequeno avião que possuía – pelas cidades goianas, onde pedi votos, com a finalidade de me tornar um representante dessa região, tão jogada à sua própria sorte naquele tempo, na Câmara Federal.

Fiz a proposta e a Assembleia aprovou, que a área da capital seria 90 km por 90 km, um quadrilátero de 81 km quadrados. A área abrangia até mesmo a região onde se localiza o distrito de Luzimangues, que depois continuou com porto nacional

Como se deu o enfretamento ao presidente José Sarney, quando ele vetou, ainda em 1985, seu projeto que visava criar o Estado do Tocantins?
Questionei o presidente sobre as razões do veto e recebi como resposta que Henrique Santillo e Iris Rezende, lendários expoentes do PMDB goiano, eram contrários à divisão do território. Penso que, a rigor, eles não estavam entendendo a proposta. A bem da verdade, essa cisão era melhor para Goiás do que para o próprio Tocantins. Eles ficariam livres de muitos problemas, que não davam conta de administrar.

Em 1988, o sr. conseguiu incluir a divisão de Goiás na Carta Magna. Quais foram os mecanismos utilizados para esse propósito?
Arregimentei a colaboração de alguns amigos, dentre os quais, o senador carioca Amaral Peixoto. O projeto – que eu redigi – foi votado e aprovado no Senado Federal. Sarney vetou novamente. Fiz uma histórica greve de fome e fui acompanhado durante todo o tempo pelo meu amigo, o médico e hoje senador Ronaldo Caiado. O presidente Sarney, então, cedeu. Me disse para lutar pelo objetivo de criar o Tocantins na constituinte, enfatizando que se não pudesse ajudar, também não atrapalharia. Não tivemos nenhum voto contrário, e foi assim, após muitos percalços e longas negociações com todos os líderes partidários, que conquistamos a autonomia do Estado do Tocantins.

E quanto ao desafio de começar tudo praticamente do zero?
O presidente Sarney, por incrível que pareça, se tornou um aliado. Me concedeu “carta branca” para eu agir como entendesse melhor, naquele momento. Havia nove cidades candidatas a se tornar capital provisória, entre as quais, Araguaína, Colinas, Paraíso, Gurupi, Porto Nacional e Miracema. Estas duas últimas, localizadas em regiões mais próxima da área do centro geodésico do Brasil, onde eu já planejava instalar a capital definitiva. Depois de governar os primeiros meses em Miracema, lancei a pedra fundamental de Palmas e, praticamente, construí os prédios públicos da Praça dos Girassóis, em sete meses, ou seja de maio a dezembro.

Utilizei essa estratégia de fazer primeiro os prédios públicos – e definitivos – e isso fez com que as pessoas deixassem de lado o medo de a cidade não “ir para frente”. Elas se entusiasmavam com a construção de uma nova cidade, ao perceberem que o governo estava empenhado nisso. Construí casas para servidores públicos, abri muitas quadras e incentivei a compra de lotes a longo prazo.

Elaboramos um plano bem arquitetado e como sistema hídrico é o recurso mais precioso que nós possuímos, isso foi pensado minuciosamente, de forma a explorar a água existente, respeitando, contudo, os nossos mananciais. Fizemos o levantamento e os estudos acerca da transposição de águas, bem como de todos os recursos hídricos do Estado do Tocantins e, também, de Palmas. O lago que margeia a capital foi planejado desde o primeiro dia, em
que pese seu enchimento ter ocorrido apenas alguns anos depois da capital existir.

Momento histórico que Siqueira sobrevoa o local onde seria construída a capital

A escolha do nome Palmas surgiu por qual razão?
Na luta de Joaquim Theotônio Segurado ainda em outro século, foi proclamada a autonomia da região e instalada a Comarca de São João da Palma, Norte de Goiás. Seguindo os preceitos históricos, apenas acrescentei um “S” e homenageei a incansável luta pela criação do Estado.

Além dessa região estar localizada no referido centro geodésico, algum outro fator o influenciou?
Fiz a proposta e a Assembleia aprovou, que a área da capital seria 90 km por 90 km, um quadrilátero de 81 km quadrados. A área abrangia até mesmo a região onde se localiza o distrito de Luzimangues. Contudo, em razão de desacertos e terras em municípios conflitantes (Miracema e Porto Nacional), aquele povoado, hoje distrito, continuou pertencendo a Porto Nacional.

Evidentemente que o fato do município de Taquaruçu do Porto possuir toda a documentação facilitou, e muito, a criação legal de Palmas. Transferi a sede do município para cá, e voltei Taquaruçu à condição de distrito, tornando o prefeito de lá o primeiro prefeito de Palmas. Além do mais, era necessário desenvolver a região à margem direita do Rio Tocantins, conhecida como “corredor da miséria”. Muitos diziam que era impossível construir uma cidade no meio do nada, uma aventura desastrosa de um megalomaníaco. Hoje, está provado que isso era plenamente possível.

Para projetar a cidade de Palmas, o sr. se inspirou em alguma outra?
Basicamente, tentamos reproduzir, em menor proporção, Brasília. Sem o contexto da megalomania, mas principalmente no que se refere ao planejamento. Contudo, não é possível fazer tudo como queremos e uma das brigas com os arquitetos foi a primeira denominação das quadras. Uma confusão sem precedentes, implantando nomenclaturas a quadras internas, que só complicavam a vida do cidadão. O Walfredo Antunes – arquiteto da cidade – é um bom sujeito, mas gosta de ser “do contra” (risos). Queria que fosse simples: a alameda interna tivesse um número ou nome e pronto. Hoje, o prefeito atual parece que pretende reativar a confusão do endereço antigo e eu considero isso lamentável.

O sr. construiu e implantou um hospital e maternidade em Palmas, e homenageou sua mãe, dona Regina. O que isso significou para a cidade naquele momento?
Minha mãe morreu no parto da última filha em 15 de setembro de 1941. A falta de médicos e remédios no sertão cearense resultaram em sete dias de sofrimento intermitente. Quando fundamos Palmas, vi muitas mulheres sofrerem os mesmos problemas e percebi que era extremamente necessário viabilizar um hospital público para esse fim, para evitar mortes dessa natureza e proporcionar melhores condições de sobrevivência às próprias crianças.

Como o sr. vê a cidade hoje, após 20 anos do lançamento da pedra fundamental?
Correspondeu à minha expectativa, de uma forma geral, considerando que nossa região não é tão rica. É surpreendente como se tornou uma cidade incrível, que cresceu muito, fruto do trabalho de cada um dos seus habitantes. Pessoas que construíram suas casas e vieram exercer suas profissões ou seus comércios, ajudaram muito no desenvolvimento disso tudo. Hoje nos aproximamos de 300 mil pessoas e isso, na realidade, pode ser considerado como um significativo avanço.

Temos boas escolas e universidades e quero prestar aqui uma homenagem pública ao professor Nicolau Carvalho Esteves, que tem dado uma grande contribuição na área da educação superior no Tocantins como um todo, e agora, com instalações em Palmas, para os cursos de odontologia e medicina.

Quanto à estrutura que eu sonhei para a cidade, creio que os corredores multimodais que viabilizam as ligações da capital com as regiões metropolitanas – Porto Nacional, Aparecida do Rio Negro, Miracema e Paraíso – poderiam ter avançado mais. Em relação ao transporte interno, a Avenida Theotônio Segurado já deveria contar com um metrô de superfície, cortando a cidade de norte a sul. Não estou falando de BRT, me refiro a algo mais simples, mais barato e funcional. Tenho convicção que o transporte de boa qualidade gera desenvolvimento e crescimento para as regiões.

Seu filho Eduardo Siqueira Campos foi o primeiro prefeito eleito da capital. Qual foi o legado deixado por aquela administração?
Foi muito importante, ele participou de tudo desde o primeiro dia. Eu no comando do governo do Estado do Tocantins e ele na Prefeitura de Palmas, fizemos parcerias memoráveis para esta cidade. Há galerias pluviais, escondidas embaixo das grandes avenidas, que são um legado imensurável. Fizemos projetos estruturais de saneamento básico e esgoto sanitário, entre outros. Sou suspeito, enfim, para falar em razão do parentesco, todavia posso afirmar que o trabalho de Eduardo na Prefeitura de Palmas foi gigantesco.

Penso que se ele tivesse sido, ou caso ainda venha ser um dia, governador do Estado do Tocantins, não tenho dúvidas que seria o melhor gestor que já passou pelo Palácio Araguaia. Eduardo não é um homem vaidoso, e sim um homem de equipe, mas sabe exercer a liderança. Além disso, ele é um estudioso das matérias e problemas que lhe são expostos, e por fim, tem muito boa vontade com os mais necessitados, o que daria um grande impulso aos projetos sociais.

Registro histórico da abertura das primeiras avenidas de Palmas, a futura capital

E quanto ao seu legado ao Estado do Tocantins? Qual a sua avaliação?
Isso não é o mais importante. Talvez haja sim, um pequeno legado, entretanto, nada mais do que minha obrigação, visto que fui eleito exatamente para isso. Talvez eu tenha dado exemplo de como se faz política séria e resolutiva. Não sou visionário, como muitos dizem. Sou um homem comum, simples, mas cheio de aspirações como qualquer outro, solidário às causas do nosso povo e que busca, incessantemente, mecanismos que possam amenizar o sofrimento dele. Luto, com todas minhas forças, contra a desigualdade social. Cada qual tem a sua missão e creio que cumpri a minha, mas não há mais louvores por isso do que para aquele pedreiro, por exemplo, que veio para Palmas ajudar a construir a cidade.

O sr. encerrou sua carreira política ao se desfiliar do PSDB e não se filiar a outra sigla partidária?
Não tenho pretensões de exercer mais cargos públicos, já ofereci minha dedicação e contribuição. Creio que já está de bom tamanho. Em relação ao partido, elegemos aqui um suplente, Ataídes, que virou senador com o falecimento de João Ribeiro. Foi uma escolha minha, inclusive, no entanto, verifiquei posteriormente que ele tem alguns problemas por ser novo na política. Ele tem criado algumas dificuldades internas dentro dos diretórios do partido. Para não criar desentendimentos, saí da sigla, deixando ele à vontade, uma vez que ele tem mandato e eu não. Se eu ficasse, certamente, causaria um problema, uma espécie de desconforto, para a direção nacional do PSDB.

Gosto muito desse partido, mas também poderia me filiar ao DEM, uma sigla que eu ajudei a criar, visto que ela é o resultado da UDN, Arena, PDS, PFL, etc. O senador Ronaldo Caiado me convidou a filiar, me senti honrado, mas, por enquanto, não quero ingressar em nenhuma sigla. Quem sabe mais para frente?

Qual é a sua mensagem para o povo palmense, nesse 28º aniversário de Palmas?
A todos os leitores, gente amiga de Palmas, quando você estiver lendo essa mensagem, nesse importante veículo de comunicação, leve em consideração que temos sim, condições de unir pessoas em prol de objetivos comuns, e isso ocorreu em nossa capital.

Fizemos obras que atenderam as necessidades básicas da população e atraíram pessoas de todos os lugares do país e até do exterior, hoje, todos palmenses. Já somamos quase 300 mil pessoas e sabe quantas eram quando idealizamos tudo isso 28 anos atrás? Zero. Aqui era um imenso e esquecido vazio, de maneira que hoje é uma cidade viva, de gente bonita, um povo bom e especial, maravilhoso mesmo.

Se você, leitor, é de Goiânia ou qualquer outro lugar do país, e não conhece a capital do Tocantins, convido-lhes a conhecer e partilhar da nossa alegria e orgulho de termos construído uma cidade que trouxe desenvolvimento para o nosso povo. Meus agradecimentos a todos aqueles que contribuíram, de forma direta ou indireta, com esse crescimento.

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Cícero junior

Siqueira Campos, um visionário e muitas vezes taxado de “louco”, qdo idealizou esse estado, e hj vemos uma belíssima cidade, ainda com problemas, mas muito linda. Parabéns a todos os Tocantinenses.