O consultor estratégico motivacional e palestrante, Omar Hennemam, revela que os desafios que teve que superar com a pandemia da Covid-19, o obrigou a ver a vida de uma perspectiva completamente diferente do que via até então. Ele conta que teve que rever valores e fazer escolhas difíceis e deu um novo sentido à vida. “Esse período foi maravilhoso para que eu, no meu recolhimento, ressignificasse alguns valores que eu entendia que deveriam ser repensados. E foi o que eu fiz”, explica o consultor, enfatizando que qualidade de vida passou a ser prioridade absoluta.  

Hennemam adianta que decidiu que não quer mais acumular bens, mas dedicar todo o seu tempo em retribuir o que a vida já lhe deu. Comenta que as palavras-chaves do mundo dos negócios – lucro, competividade, inovação – ainda estão muito presentes no seu vocabulário do dia a dia, mas agora dividem espaço com outras igualmente importantes – felicidade, sustentabilidade, solidariedade – “Hoje, eu sou voluntário do Hospital do Amor [prevenção e tratamento de câncer], fiz um curso de palhaçaria hospitalar durante a pandemia e estou me qualificando para ser doutor da alegria e isso me preencheu o coração de uma forma fantástica”, garante.  

Em suas palestras Hennemam ensina que para enfrentar o mundo em permanente e constante transformação é preciso ter disposição para se reinventar. Ele aponta pelo menos cinco aspectos comportamentais que precisam passar por ressignificação. Propósito de vida, adquirir novas habilidades, cuidado com a saúde, repensar relacionamentos e conexão com espiritualidade. “Nesse processo de ressignificação estou me dando ao luxo de conviver com as pessoas que eu quero e podendo deletar da minha lista pessoas que na minha visão, não me acrescentam nada”, garante.

Omar Hennemann é conferencista e consultor estratégico motivacional. Já proferiu mais de 2.500 palestras para diferentes plateias em todo o país, tendo alcançado um público de 350 mil pessoas. Graduado em Administração de Empresas, com mestrado em Inteligência Competitiva, Hennemam diz que não tem mais tempo para perder com hipocrisias alheias e que o mais importante agora é cultivar a solidariedade e produzir felicidade. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Hennemam fala da sua trajetória de empresário pioneiro em Palmas, da sua paixão pelo Tocantins e do orgulho de ser cidadão tocantinense.

Todos nós sentimos a dor de perder pessoas queridas. Eu perdi a minha mãe de Covid

Omar Henneman


Hennemam, dizem que esse foi um ano difícil de terminar. Mas está chegando ao fim, já é Natal. Não ganhamos a Copa, a Covid está voltando, patriotas antidemocráticos estão se convertendo ao terrorismo. Ainda assim temos o que comemorar?

Temos razões de sobra para comemorar. Somos sobreviventes desta pandemia. E isto é motivo de comemoração. Milhares de pessoas não estão mais aqui entre nós. Todos nós sentimos a dor de perder pessoas queridas. Eu perdi a minha mãe, de Covid. Sentimos pelas pessoas que pegaram a Covid, voaram baixo, foram entubadas, passaram muito medo de não terem recursos para um atendimento de emergência, como UTI; outros não pegaram a Covid, como eu, mas tiveram muito medo de morrer. Medo de que tudo isso fosse ficar para traz e eu só seria lembrado no dia dois de novembro, Dia de Finados. Mas não foi isso que aconteceu. Mas esse período foi maravilhoso para que eu, no meu recolhimento, ressignificar alguns valores que entendia que deveriam ser repensados. E foi o que eu fiz.

Que valores a pandemia te obrigou a rever?

Hoje, com 66 anos de idade, estou me dando ao direito de ter um estilo de vida sem protagonismo e fazendo o que literalmente eu gosto. E nesse processo de ressignificação estou me dando ao luxo de conviver com as pessoas que eu quero, e excluir, deletar da minha lista pessoas que na minha visão não me acrescentam nada. Estou curtindo demais a minha família, os meus filhos, o meu único neto, Bento, e desta forma estou me permitindo ver com muita coerência, o meu modo de entender as coisas.

Hennaman, seguindo o raciocínio de que a pandemia foi um momento importante de ressignificação do sentido da vida, é possível avaliar se o mundo ficou melhor ou pior depois da pandemia?

Alguns valores que eu ressignifiquei é oportuno que eu coloque aqui e depois concluo a resposta da pergunta. Eu entendo que no mínimo cinco vertentes nós precisamos ressignificar, ou no mínimo repensar para ver em que caminho estamos seguindo, como seres humanos criados à imagem semelhança de Deus. Primeira vertente, repensar o nosso propósito de vida. O que estou fazendo aqui? Estou contribuindo com o quê? Esse mundo tem as minhas mãos ajudando para que ele seja melhor? Quanto à minha identidade, eu sou o que neste universo?

Segunda vertente, o conhecimento. Aquilo que nos trouxe até aqui não nos garante ser o suficiente para nos levar adiante. Então é preciso fazer uma reflexão para ver o que eu tenho dentro da minha cabeça e deletar aquilo que não estou mais aproveitando e percebo que está sobrando e buscar, com todo esse mecanismo que temos de aprendizado, colocar coisas novas na cabeça.

A terceira vertente, ressignificar a saúde. Eu não dava muita atenção para a saúde e de repente eu fique encurralado, com o sentimento de que todos nós estávamos predestinados a morrer de Covid. E não foi isso que aconteceu. Por isso que eu preciso fazer com que a minha saúde, tanto mental, quanto física estejam bem, porque nunca se deu tanta atenção para a saúde mental, como agora. E eu estou colocando isso em prática. Fazendo meditação, cuidando da minha mente. Ninguém entende mais de Omar, do que eu. Então eu sou um especialista em mim. Todo morador de uma casa sabe onde estão as goteiras. Então eu sei onde eu preciso melhorar na minha saúde física também.

Quarta vertente, ressignificar os relacionamentos. Oh, quanto dificuldade de nós nos relacionarmos, isso ficou evidente. Nós em casa, tivermos que conviver com quem não vínhamos convivendo com tanta intensidade. Esse relacionamento vai para nossos companheiros, companheiras, os filhos, os netos, os irmãos, os pais, e também os colegas de trabalho, as pessoas da sociedade, os irmãos da igreja, os colegas de instituição, de ONGs de causas e assim por diante. O relacionamento eu dividi em duas partes. O relacionamento com o meio ambiente e com as pessoas. Eu me ressignifiquei porque até um certo tempo da minha vida, eu achava que quem cuidava do meio ambiente parece que não tinha outra coisa para fazer. Eram os “ecochatos” que ficavam por ali com aquele mesmo moído, que nós tínhamos que respeitar a qualidade da água, respeitar os rios, cuidar da natureza, dos pássaros, enfim, das queimadas. E isso com a ressignificação da minha vida eu me ressignifiquei. Hoje, eu sou um desses ativistas que prega, que luta, que defende que o meio ambiente que é a nossa casa, que Deus nos colocou aqui, sem cobrar aluguel, e nós por vezes, não cuidamos desta casa que fomos encarregados e assumimos esse pacto com Deus de cuidar da nossa casa que é o ambiente onde todos nós vivemos.

Quinta vertente, a espiritualidade.  É preciso que a gente tenha uma noção clara de que Deus cansou de ouvir as nossas lamúrias. Então a partir da minha reflexão, da minha ressignificação, não estou mais me queixando, pedindo as coisas para Deus, porque ele já sabe dos meus perrengues. Eu estou sim é agradecendo tudo de bom que eu já conquistei e pedindo força e luz para que eu possa continuar essa minha jornada.     

Hennemam, o que a pandemia trouxe de ensinamento que pode nos ajudar a viver mais e melhor?

Eu não sei se teria tomado a decisão do não protagonismo em outra fase da vida, se não fosse a pandemia para me alertar. Na fase que vivo e que percebo que é a melhor fase da minha vida, porque estou me dando o direito de dedicar uma parcela grande do meu tempo para mim. E eu estando de bem com a vida, tem efeitos colaterais extraordinários, de contagiar as pessoas que estão ao meu redor através das minhas reflexões e me permitir e aceitar que hoje eu devo devolver tudo que este mundo já me deu.

Na vida nós precisamos de recursos financeiros para nos manter. Depois daquele recurso garantido, que é o nosso emprego, que é o nosso salário e a nossa atividade, nós acumulamos o valor acima daquele necessário, e este valor da acumulação de recursos depende de cada um. Hoje, eu não quero acumular mais. Eu acho suficiente para que eu tenha uma qualidade de vida, juntamente com a minha esposa, um casamento de 45 anos, dos filhos, do meu neto Bento, é o suficiente, então eu quero preservar isso, para ter qualidade de vida do jeito que eu desenhei este momento que estou vivendo. Não me arrependo de nada, quero ser respeitado pelo que estou fazendo atualmente e não ser lembrado pelo que eu fiz no passado. Isso tudo é menor, oque vale é o hoje. Viver o hoje, feliz da vida, acreditando que problemas a gente sempre tem para resolver, faz parte da vida. Cuidar da saúde, fazer o bem e contagiar as pessoas, provocar as pessoas. Hoje, me considero um provocador de pessoas, para que elas reflitam sobre a importância da qualidade de vida, sobre o significado da vida, e isso me deixa muito satisfeito.  

O tamanho da minha dedicação ao social hoje é muito maior. Hoje, sou voluntário do Hospital do Amor

Henneman

Hennemam, você destaca em suas palestras a importância de se reinventar nos âmbitos pessoal e professional e aponta a tecnologia como aliada neste processo. Como se faz?

Eu acho que simbolicamente eu poderia descrever que nós temos em cima da nossa cabeça uma antena parabólica. E talvez o que mais esteja precisando hoje no mercado de trabalho é aquele aparelho regulador de captação de parabólica. Porque quando a parabólica não está sintonizada não capta bem o sinal do satélite, mas quando está conectada a gente percebe este mundo de oportunidades. É claro, que para isso, dependendo da fase onde a pessoa está exige mais ou menos dedicação. Uma coisa é você ter 20 anos, outra é ter 40, 60 ou 66 como eu, já ralei um bocado na vida e estou me permitindo refazer o plano de prioridades. O tamanho da minha dedicação ao social hoje é muito maior. Hoje, eu sou voluntário do Hospital do Amor [prevenção e tratamento de câncer], fiz um curso de palhaçaria hospitalar durante a pandemia e estou me qualificando para ser doutor da alegria e isso me preencheu o coração de uma forma fantástica.

Os cursos técnicos hoje, no meu modo de entender, são extraordinários, para quem está buscando uma oportunidade de trabalho, é preciso pensar nessa possibilidade. O mercado exige pessoas versáteis. Já saiu fora da especialização, e essa versatilidade inclui conhecimento técnico, mas também o conhecimento específico. Hoje, não tem como não ficar antenado com o avanço tecnológico. As ferramentas tecnológicas para fazer no dia a dia o que precisa ser feito. É preciso ter uma coerência, estar comprometido com aquilo que faz, porque não tem meio abraço, mulher meio grávida, meio aperto de mão, e não tem meio comprometimento. As instituições, as empresas, querem pessoas comprometidas. E quem está comprometido com aquilo que está assumindo fazer, passa a ter vontade de se qualificar. Quando falo em qualificar não se trata apenas de assistir aulas, temos inúmeras possibilidades, via internet, de cursos bons, essa área teve aperfeiçoamento muito grande, mas também frequentando a universidade da vida. Conversar com as pessoas que tem mais experiencia. Acho que a junção do fogo e o dinamismo da juventude, com os cabelos grisalhos da experiência que pode produzir as respostas que hoje a sociedade busca.

“Hoje o cliente quer saber como é que a empresa trata os seus colaboradores” | Foto: Acervo Pessoal

Hennemam, você é um entusiasta do conceito de nova economia com clientes mais exigentes que se importam com os valores que as empresas defendem. Qual o impacto dessa tendência na vida real?

Estamos vivendo um novo mundo ou um mundo novo como queiram e dentro de uma nova economia, porque o mundo mudou de uma forma avassaladora e muito rápido. Nós somos frutos de uma ruptura nunca antes vista. E essa ruptura deixou na poeira da estrada, muitas coisas que estão fora de discussão. É preciso perceber que o cliente mudou, está muito mais exigente. Hoje o cliente quer saber como é que a empresa trata os seus colaboradores, quer saber como esses colaboradores foram tratados durante a pandemia, o cliente procura qualidade e não aceita mais ser levado na conversa, porque ele vai reclamar, tem mecanismo para isso e um instrumento fabuloso que é reclamar nas redes sociais. Todo mundo vai ficar sabendo do comportamento daquela empresa. Isso, de um lado e do outro. É preciso ter orgulho de vestir a camisa da instituição, e não ter vergonha de dizer onde está prestando serviço. Encantar as pessoas no atendimento, ser feliz, produzir felicidade, porque nós só temos o direito de consumir felicidade se a gente produzir.

Henneman, você é um pioneiro de Palmas e do Tocantins, dos primeiros momentos, o que o levou a deixar o Sul e se aventurar pelo Norte?

Eu estava no Rio Grande do Sul, minha terra natal, assistindo ao Jornal Nacional [Rede Globo] do dia cinco de outubro de 1988. Quando vi a notícia da criação do Estado do Tocantins, eu disse para minha esposa e os meus dois filhos que estavam comigo no sofá: este é o lugar para a gente ir. No dia seguinte eu já estava tratando da minha transferência para o Tocantins. Na época, funcionário do Banco do Brasil, vim para cá, fiz uma carreira maravilhosa, prestando serviço como funcionário público, duas vezes no Sebrae, no Senar Nacional, como palestrante, como consultor, eu tive a oportunidade de conhecer todos os 139 municípios do Tocantins. Isso é um privilégio porque me deu a noção muito clara das necessidades e do potencial do Estado. Esse privilégio eu procuro compartilhar. Não quero sair desse Estado, aqui é o meu lugar. Aqui é onde eu quero viver até o fim da minha vida. E essa paixão pelo Tocantins já foi correspondida de várias formas. Entre elas, o título de Cidadão Tocantinense que eu recebi da Assembleia Legislativa e também o carinho das pessoas. Então como empresário, como consultor, palestrante, como um voluntário social, mas acima de tudo, como ser humano, eu quero me dedicar para que o Tocantins alcance o pleno desenvolvimento. Eu sou o primeiro morador da quadra onde resido aqui em Palmas, já comi muita poeira, já passei por alguns perrengues, algumas dificuldades, mas o resultado é muito positivo. E ainda hoje, digo às pessoas: venha para o Tocantins. Aqui você sentirá o aconchego de um povo simples e hospitaleiro e tenha em mente que aqui é o lugar para se viver, criar os filhos, os netos e produzir a felicidade.

É Natal, qual a sua mensagem nesta data tão festejada em todo o mundo?

O Peninha tem uma música que ele canta magistralmente. Todos nós podemos ser Papai Noel. Eu acho bonito isso. Porque de fato todos nós podemos ser Papai Noel. Em levar a esperança, uma palavra amiga, um abraço, um carinho, um perdão para as pessoas. Você não precisa exagerar na tua ceia de Natal. Não precisa exagerar nas comilanças, mas compartilhe com pessoas que talvez seja o único panetone que vão ganhar. Faça isso, porque esse gesto de solidariedade pode fazer alguém feliz. Faça visita, não só no Natal, mas qualquer dia. Vá a um hospital, leve um abraço às pessoas que estão lá doentes que estão sofrendo. Leve conforto para aquelas pessoas que estão fazendo companhia para os enfermos. Pessoas que perderam seus entes queridos; professores, que estão terminando a jornal letiva e buscam uma energia para o ano seguinte; dê um abraço nos profissionais da saúde, que foram heróis durante a pandemia, diga a eles, muito obrigado, se você não esteve hospitalizado, dê graças a Deus, mas agradeça em nome daqueles que lá estiveram. É preciso a gente interagir e fazer com que essa humanidade toda fique conectada com essa energia boa de um mundo melhor.