“O Tocantins ainda é carente de ações e projetos que incentivem e valorizem a cultura do Estado”

Produtor cultural está à frente de mostra de música instrumental que será realizada no distrito de Taquaruçu

Gilson Cavalcante

Gilson Cavalcante

Gilson Cavalcante

Com uma bagagem acumulada como músico, professor e produtor, Diego Britto não demorou muito para conceber o projeto Mutum – Mostra de Música Instrumental e Culturas Populares do Tocantins, que será realizado no distrito de Taquaruçu, em Palmas, entre os dias 10 e 12 de julho. A ideia do festival surgiu há dois anos, quando Diego se mudou para Taquaruçu, distrito a pouco mais de 30 quilômetros de distância de Palmas e conhecido pela natureza exuberante e pelos seus festejos tradicionais. O evento contará com espetáculos de música instrumental de grupos regionais, além de oficinas e atividades que envolverão também outras áreas artísticas, como mostras cinematográficas, de artesanato e de fotografia. “Mutum é uma proposta de programação de caráter integrado e coletivo, pretendendo reunir e estimular o desenvolvimento do que há de melhor na música instrumental e na cultura tradicional local, inserindo o Tocantins no circuito de mostras e festivais”, destaca Britto.

O nome foi escolhido por alguns motivos especiais. “Mutum é uma ave maravilhosa.

Visualmente, parece um maestro, e cantando é sensacional. Mutum é também um vale aqui de Taquaruçu, riquíssimo. Sempre houve muita festa por lá, rodas de tambores e folias”, conta. E não acaba por aí. Mutum, o vale, guarda ainda um sítio arqueológico que possui inscrições rupestres, gravuras e cerâmicas que datam de milhares de anos.

Para os indígenas do Tocantins, o pássaro Mutum aparece em várias cosmologias de seus mitos, principalmente para os Timbira, narrado como o pássaro do fogo e da toca da onça.

Diego Silva Britto nasceu em Goiânia, é músico (contrabaixista), produtor cultural e educador musical, filho do jornalista e professor doutor de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Joãomar Carvalho. Para a cultura brasileira, o Mutum é a primeira mostra de música instrumental e cultura popular do Tocantins. Um evento que, como o pássaro para os Timbira, recolhe a brasa rítmica, melódica e harmônica de um povo que no norte do Brasil se fez miscigenado e a lança ao mundo, como quem o encadeia . Durante o evento, foliões e cancioneiros e cantadores indígenas encontram-se com o jazz, o choro, o blues, o forró e o samba e inúmeros outros gêneros musicais. As cachoeiras, trilhas dos vales de Taquaruçu é o território onde essa intensa experiência cultural acontecerá. O Mutum realizará quase 100 horas de programação cultural gratuita entre os dias 10 e 12 de julho. Os espetáculos performances, oficinas, rituais, discussões e exibições de filmes transformarão a rotina da cidade, ocupando quatro diferentes espaços. Para o público e artistas convidados, acompanhar essa programação da mostra também será uma aventura pela história, gastronomia e a natureza do cerrado tocantinense. Dentre mais de 15 mil projetos inscritos, o Mutum foi contemplado no edital do Rumos Itaú Cultural 2013.

Distrito de Taquaruçu reúne belezas naturais que o tornam um lugar ideal para a realização de grandes eventos culturais

Como você concebeu o Mutum? É apenas um evento ou pode entrar no calendário cultural do Estado, a partir dessa primeira edição?
O Mutum é um projeto de vida. É o resumo de tudo que eu acredito. Acredito em um Brasil com mais música instrumental. E quando falo de cultura tradicional, estou falando das nossas raízes, matrizes africanas, matrizes indígenas e também matrizes europeias. Tem tudo isso misturado no nosso caldeirão cultural brasileiro. A parte tocantinense dessas tradições é praticamente desconhecida do resto Brasil. Não temos, em nível governamental, nada que preserve essas tradições centenárias, e o resto do Brasil e do mundo precisa saber que aqui existe toda essa riqueza. A ideia do festival surgiu há dois anos, quando me mudei para Taquaruçu, distrito localizado a pouco mais de 30 quilômetros de distância de Palmas e conhecido pela natureza exuberante e pelos seus festejos tradicionais. O evento, que será realizado de 10 a 12 de julho, contará com espetáculos de música instrumental de grupos regionais, além de oficinas e atividades que envolverão também outras áreas artísticas, como mostras cinematográficas, de artesanato e de fotografia. Mutum é uma proposta de programação de caráter integrado e coletivo, pretendendo reunir e estimular o desenvolvimento do que há de melhor na música instrumental e na cultura tradicional local, inserindo o Tocantins no circuito de mostras e festivais. O nome foi escolhido por alguns motivos especiais. Mutum é uma ave maravilhosa. Visualmente, parece um maestro, e cantando é sensacional. Mutum é também um vale aqui de Taqua-ruçu, riquíssimo. Sempre houve muita festa por lá, rodas de tambores e folias. E não acaba por aí. Mutum, o vale, guarda ainda um sítio arqueológico que possui inscrições rupestres, gravuras e cerâmicas que datam de milhares de anos.

No fundo, o projeto visa fomentar a discussão sobre a patrimônio cultural do Estado?
Pois é, o nosso patrimônio, não apenas do Tocantins, mas do Brasil inteiro, está se perdendo. Existem os pontos de cultura, mas aqui no Estado ainda está muito amarrado, com o atraso no repasse das parcelas, o que faz com que esses pontos de cultura ficam desprotegidos. Os foliões, por exemplo, que mantêm as tradições de origem portuguesa, de Natividade, ainda têm uma verba pelos festejos. Quer dizer, todo esse patrimônio imaterial tem que ser levado para as salas de aula. Fizemos um seminário, há uns três anos, sobre o patrimônio cultural, com amigos da Associação do Patrimônio Cultural de Palmas. A construção de uma imagem do Cristo no alto da Serra do Carmo, em Palmas, foi um episódio polêmico, porque ali é um sítio arqueológico, tanto que a obra foi embargada. Coisa de megalomaníacos.

A ideia é fazer do Mutum um fórum permanente de discussão do patrimônio histórico e cultural do Estado?
Exatamente. Precisamos fomentar essas discussões. Eu estou focado na minha parte musical, porque sou músico, mas defendemos que a questão seja ampliada, envolvendo também os aspectos sociais e ambientais também.

Você escolhe como cenário para a realização do evento o distrito de Taquaruçu. Algum motivo especial?
Já moro em Taquaruçu há três anos, mas já frequento o distrito há uns oito anos e é muito curioso como o local, depois que passou à condição de distrito de Palmas, as tradições foram rapidamente, foram esquecidas. Taquaruçu é um Vale onde existiam várias manifestações culturais, como giro de folias, cantos de trabalho das quebradeiras de coco, dança de São Gonçalo, benzedeiras, etc. Taquaruçu sempre foi um ponto de encontro dos tropeiros, onde há muita e havia muita fartura. No site da prefeitura de Palmas, por exemplo, cita o distrito apenas como um lugar de sossego e de recreação e lazer. O Museu Cada Vitor está abandonado, a maior parte do tempo fica fechado. Ali tem um pouco da história do local. O Centro de Criatividade Maria dos Reis é o único patrimônio tombado e onde escolhemos para ser um dos locais onde vai rolar parte da programação do Mutum.

O projeto é flexível, existe muita gente envolvida?
A I Mostra de Culturas Populares e Tradicionais de Taquaruçu foi feita sem nenhum financiamento. O Mutum já existia, agora tomou forma de Mostra de caráter nacional com esse apoio do Itaú Cultural, via Lei Rouanet. Eu nem lembrava que havia escrito para o Rumos Itaú Cultural. Foi uma surpresa boa, até pelo formato do edital, que acima de tudo, compraram a ideia, e nos deixaram livre para moldar o Mutum da melhor maneira possível. Vejo que o Tocantins ainda é carente de ações e projetos, que incentivem e valorizem a cultura do Estado. Inclusive, uma grande parte das pessoas ainda acredita que o Tocantins se limita a ser apenas uma mistura de culturas do GO, PA, MA e outros. Sei que o Mutum é uma oportunidade para que essas mesmas pessoas conheçam o que temos de melhor, e que entendam a importância das nossas manifestações culturais. O Mutum é isso. Não é um projeto meu, é uma ideia de que precisamos somar esforços, nos valorizar, aproveitar que a internet está aí pra ajudar a divulgar nossa história, nossas tradições culturais.

Qual a programação do festival?
A programação da mostra abrange uma infinidade de manifestações culturais do Estado, além de elevar artistas regionais á protagonista da cultura local. A escolha da programação foi difícil, porque o Tocantins é rico demais, tem uma infinidade de artistas bons, escondidos no meio dessas serras e beiras de rios. Além dos artistas que já se apresentam em shows e eventos culturais. Então, eu procurei focar nos artistas de música instrumental para os shows noturnos e vivências com o pessoal das culturas tradicionais. Ao todo, são mais de 100 artistas. Dentre eles estão foliões, artesãos, músicos, cantadores indígenas, tamboreiros e mestres da sabedoria popular. Escolhemos por regiões (basicamente região Sudeste ). A região do Jalapão, por exemplo, é famosa pelo artesanato do capim dourado, pelos instrumentos de buriti, a violinha de vereda e a rabeca. Escolhemos também Monte do Carmo, onde os festejos tradicionais ainda são bastantes presentes na vida da comunidade. E por último, Natividade e região, onde temos dos últimos mestres tamboreiros, a catira e as folias. Tem também os indígenas, que estarão presentes com quatro 4 etnias: Apinajés , Krahôs, Karajás e Xerente.

Fale um pouco da programação do festival.
Destaque para três encontros inéditos promovidos pelo Mutum 2015: 1° Encontro de Cantadores In­dígenas, Encontro de Tam­boreiros do Tocantins e o Encontro de Violeiros e Rabequeiros de Buriti. Os destaques nacionais do evento ficam por conta de dois cancioneiros populares: Juraildes da Cruz e Xangai, que remontam no palco Redondo, um show que tem se destacado em diversos estados do Brasil. Da primeira linha do instrumental no país vem o duo Felix Júnior e Gabriel Grossi, dois dos maiores destaques da nova música instrumental brasileira. Fechando esse panorama nacional teremos ainda Paulio Celé Grupo, Leandro Medina (Bar­batuques) e Deuller Andrade.

O que se esperar do Mutum?
Que ele tome vida própria. Precisamos entrar urgentemente no cenário das Mostras e Festivais de Cultura e Música instrumental que existem pelo país. O Mutum vai envolver oficinas de produção cultural, audiovisual, construção de instrumentos de buriti, dentre outros. O Mutum já está tomando vida própria. Vamos montar um estande do Mutum na FLIT (Feira Literária Tocantinense), que acontecerá em outubro ou novembro. Para mais informações acesse o site oficial do Mutum – http://www.mutum.art.br
/ – e também o site oficial de Diego Britto – http://diegobritto.wix.com/
diegobritto.

 

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