Ex-prefeito de Dianópolis diz que gerir uma cidade “é para quem tem credibilidade, para quem tem currículo, além de canais em Brasília e Palmas”

Ex-prefeito de Dianópolis, José Salomão | Foto: Koró Rocha/Asleto

José Salomão foi prefeito da cidade de Dianópolis por dois mandatos consecutivos, entre 2005 e 2012. Em 2014, se candidatou a deputado estadual, restando-lhe a suplência, após obter pouco mais de 10 mil votos. Nas eleições de 2016, disputou novamente a Prefeitura de Dianópolis.

Em que pese ter obtido 35,17%, foi derrotado prefeito Padre Gleibson. Nesta entrevista, o ex-prefeito assume a condição de pré-candidato à Prefeitura de Dianópolis nas eleições de 2020. Graduado em Direito e Administração de Empresas, funcionário público aposentado da Câmara de Deputados, José Salomão está filiado ao PT há mais de 20 anos.

Apesar de já ter governado Dianópolis por dois mandatos, em 2016 o sr. foi candidato a prefeito da cidade. Contudo, não obteve êxito. O candidato vencedor estava filiado ao PSB, um partido de centro-esquerda com ideologias bem próximas às do PT. Quais fatores o sr. considera que foram decisivos para a definição daquele pleito?
A disputa foi um tanto quanto atípica, visto que aquele momento político do País era muito negativo para o PT. A cassação da ex-presidente Dilma Rousseff foi um verdadeiro tsunami. Influenciou sobremaneira nas eleições municipais de todo o País e não apenas em Dianópolis. O impeachment refletiu na base e todos nós do Partido dos Trabalhadores sofremos as consequências. Essas circunstâncias influenciaram, sem dúvida, no resultado final.

Inobstante a isso, o adversário fez uma campanha propositiva e, em que pese eu ter saído da prefeitura com uma boa avaliação, como também ter obtido votação expressiva para deputado estadual, o eleitorado quis mudar as peças. A vontade popular é soberana, faz parte do processo democrático e coube a mim respeitar a decisão advinda das urnas.

Como petista histórico no Tocantins, o sr. viveu as glórias do partido enquanto Lula da Silva governou o País. Mas também sofreu os reflexos de tempos difíceis após o impeachment da ex-presidente Dilma. Qual sua avaliação sobre os erros, acertos e o que pode ser mudado para os pleitos de 2020 e 2022?
Creio que o momento é propício para dar a volta por cima. Quiseram aniquilar o PT, mas não conseguiram. Está demonstrado, pelo Intercept e por outros meios, que essa trama foi arquitetada pelo Sergio Moro e Deltan Dallagnol, que deveriam estar presos, mas estão livres. Juntamente com a Rede Globo e a nata da falsa elite, foram os responsáveis pela queda que sofremos.

Logicamente, com milhões de filiados, reconheço que no PT, assim como em vários outros partidos, há pessoas que cometeram deslizes e devem ser punidos por isso. Não vamos passar a mão na cabeça de ninguém ou assinar embaixo corroborando erros. Cada um que pague por suas condutas inidôneas.

Vejo um excelente momento para uma reflexão profunda, repensar os comportamentos do partido, de seus membros e filiados. O próprio estatuto do partido indica que as condutas devem, doravante, ser diferentes. É isso que devemos priorizar e reconstruir nossa sigla.

No período em que o sr. foi prefeito, entre 2005 a 2012, quais foram as grandes conquistas da sua gestão?
Não quero parecer cabotino, mas procurei nestes dois mandatos atender as necessidades básicas da população. Consegui algumas realizações marcantes, mesmo porque o auge do governo Lula também contribuiu para a minha gestão. A população reconheceu isso certamente. E, nas eleições de 2014, obtive mais de 5 mil votos só na cidade de Dianópolis.

Deixei a prefeitura arrumada, com dinheiro em caixa – aproximadamente R$ 1 milhão e mais R$ 7 milhões no Funprev. A gestão estava organizada e com todos os equipamentos públicos funcionando. Implantamos a Faculdade de Dianópolis, que depois foi encampada pela Unitins, como também trouxemos um campus da IFTO para a cidade.

Não estou me vangloriando disso. Ser honesto e trabalhar pela minha cidade não foi mais do que minha obrigação. Apenas estou expondo as ocorrências para responder o seu questionamento.

A representatividade de Dianópolis não está, atualmente, comprometida ante à ausência de deputados da Região Sudeste nos parlamentos estadual e federal?
Sem dúvidas. Estamos na orfandade. Não contamos com deputados na Assembleia Legislativa e nem tampouco na Câmara Federal ou Senado. Infelizmente a população não teve essa percepção nas eleições e isso acaba repercutindo na pouca destinação de recursos para a região.

Os prefeitos são obrigados a perambular por Palmas ou Brasília com o pires na mão atrás de uma emendazinha aqui ou acolá. Particularmente, acho esse negócio de emenda parlamentar uma excrescência, apesar de estar previsto na Constituição Federal. Essa troca não tem nada a ver com atividade parlamentar. E o pior: desequilibra a disputa eleitoral. Como disputar em igualdade de condições com um sujeito que detém milhões de reais para repassar aos prefeitos a título de emendas?

Neste caso, o sr. é favor do voto distrital?
Plenamente. Essa influência nefasta do poder econômico torna a disputa desigual. Não temos nenhum representante da Região Sudeste do Estado no atual modelo porque esses candidatos poderosos, na época das eleições, passam o trator em cima dos candidatos daqui, mas nunca tinham sequer pisado nesse pedaço de terra.

Outro problema é o fundo eleitoral. Um absurdo sem precedentes a destinação desse tanto de recursos públicos para os partidos fazerem política. Essa regra não faz o mínimo sentido.

Voltando às eleições municipais de 2020, o sr. é pré-candidato a prefeito de Dianópolis?
Estou trabalhando para construir essa candidatura. Temos um grupo político e alguns partidos apalavrados conosco. Sou pré-candidato, portanto.

Caso seja eleito, quais serão as prioridades da sua gestão?
As demandas são recorrentes. Precisamos melhorar o atendimento à saúde. O Hospital Regional de Dianópolis é um caso de polícia. Ele não atende apenas o município, mas sim toda a Região Sudeste.

Prevalece a prática da ambulancioterapia para Brasília, Palmas, Gurupi etc. É muito descaso! É preciso um basta, porque nosso povo está sofrendo e, muitas vezes, morrendo.

Existem recursos destinados e carimbados para a saúde e temos que exigir investimentos. Apesar de a unidade hospitalar estar sob a responsabilidade do Estado do Tocantins, a gestão municipal tem o dever de cobrar melhorias, quer seja aumentando o número de médicos, enfermeiros e farmacêuticos, quer seja exigindo que o estoque de medicamentos seja suficiente para atender a nossa comunidade.

Outro problema é o desemprego na região. Temos o projeto Manoel Alves, coincidentemente inaugurado na época que eu era prefeito, com a histórica presença do ex-presidente Lula. Muito mal explorado, hoje não emprega nem a metade das pessoas que poderiam estar trabalhando e gerando renda.

São 20 mil hectares no projeto, mas apenas 5 mil estão sendo aproveitados. Cada um desses hectares irrigado empregaria, em média, três ou quatro pessoas. Se estivesse funcionando na sua plenitude, seria um multiplicador de emprego e renda. Mas tanto o governo federal quanto o estadual não impulsionam isso e, por consequência, nosso povo sofre.

O que o sr. sugere para modificar esse cenário?
Tem de haver uma sintonia, uma parceria entre o município e, principalmente, o Legislativo federal. Uma bandeira municipalista que eu defendo é a revisão do pacto federativo, mas não do modo que o ministro Paulo Guedes mandou para o Congresso, extinguindo municípios. Na verdade, os recursos estão mal distribuídos, pois a União fica com toda a riqueza, sobrando apenas migalhas para os municípios.

E essa relação, caso o sr. seja eleito, começa pelo único deputado federal petista do Tocantins, Dr. Célio Moura?
Sim. Começaremos pelo gabinete dele, petista histórico e nosso companheiro de lutas. Mas não a partir de janeiro. Temos de começar a peregrinação em Brasília a partir do dia que ganhar a eleição. O orçamento de 2021 será votado em novembro ou dezembro e as articulações para destinação de recursos para os municípios têm de ser feitas ainda em 2020.

Dianópolis tem de ser elevado ao lugar que merece, uma cidade próspera, com mais de 23 mil habitantes e mais de 13 mil eleitores. Uma cidade pólo e referencial para a Região Sudeste. Por tal razão, é necessário promover articulações não apenas com o deputado Célio, mas também com os outros membros da bancada tocantinense, para que o município seja beneficiado de forma republicana e sem discriminações.

No que concerne à sua chapa de vereadores, em que estágio encontram-se as articulações dos nomes para o pleito?
São 11 vagas na Câmara de Vereadores de Dianópolis. Estamos nos organizando para lançarmos uma chapa completa, inclusive com 30% de candidaturas femininas. Apesar de não ser possível mais as coligações partidárias, nosso grupo político é composto por vários partidos de esquerda e centro-esquerda. Creio que seja possível eleger parlamentares suficientes para dar sustentação parlamentar ao nosso mandato, caso sejamos vencedores das eleições.

Levando a derrota de 2016 como lição aprendida, como o sr. pretende convencer o eleitorado em 2020 que seu nome é o melhor para governar o município?
Acredito que o povo já entendeu que administrar a prefeitura de uma cidade não é coisa para estagiários ou amadores. É para quem tem credibilidade, para quem tem currículo, além de canais em Brasília e Palmas.

As pesquisas internas mostram que o eleitor dianopolino se arrependeu, uma vez que o atual gestor tem o maior índice de rejeição da história política da cidade, que se aproxima de 90%. Expectativas frustradas geram o sentimento de mudança, naturalmente.

Por isso, acredito que represento a seriedade, a honestidade e a transparência sem vender ilusões. Vamos administrar de forma simples e sem tentar inventar a roda. Já fizemos outras vezes. Sabemos como funciona e, naturalmente, vamos recolocar as coisas nos trilhos.