O poder de Palmas no contexto do Estado

Historicamente maior colégio eleitoral do Estado trilha caminho independe e em oposição ao Palácio Araguaia

Ex-prefeitos Carlos Amastha e Raul Filho: prova de que Palmas gosta de oposição | Foto: Reprodução

Palmas nasce como cidade administrativa, uma extensão do Palácio Araguaia. Com o tempo ganha autonomia, se torna independente, se rebela e vira cidade de oposição. Desde 2004 nenhum candidato a prefeito apoiado pelo governo teve sucesso nas urnas. A partir de 2018, nomes de Palmas despontaram no cenário do Estado como líderes emergentes. O governador Wanderlei Barbosa (Republicanos), o senador Eduardo Gomes (PL) e o ex-prefeito de Palmas, Carlos Amastha (PSB) são alguns dos palmenses com forte projeção no Estado.

Em 2018, pela primeira vez um ex-prefeito da capital entra na disputa pelo Palácio Araguaia, Carlos Amastha (PSB), eleito em 2012 e reeleito em 2016 com votação expressiva, renuncia à Prefeitura para disputar o cargo mais importante na estrutura de poder do Estado. Vai para o segundo turno com o governador Mauro Carlesse (UB) que tem como vice o palmense Wanderlei Barbosa. Carlesse vence a disputa. Amastha marca posição. Supera líderes tradicionais como Vicentinho Alves (PP), Kátia Abreu (PP) e Ataídes Oliveira (Pros). Palmas mostra que tem peso no contexto estadual.

Em 2021 finalmente um líder palmense alcança do governo do Estado. Na condição de vice-governador Wanderlei Barbosa assume o governo em lugar do titular Mauro Carlesse (UB) afastado por decisão da Justiça. Com a sua renúncia Wanderlei assume se torna efetivo e disputa a reeleições com chances reais de Palmas ter o seu primeiro governador.

Nestas três décadas Palmas passa por três grandes transformações no que se refere à configuração do poder. Na primeira década permanece no domínio do siqueirismo reinante. Siqueira Campos indica o primeiro prefeito Fenelon Barbosa, numa negociação para permitir a transferência da capital para o canteiro de obras que era Palmas, no início de 1990. Em 1992 elege o filho Eduardo Siqueira Campos, primeiro prefeito eleito pelo voto popular. Em 1996 consegue emplacar o médico Odir Rocha, ex-prefeito de Colinas e 2000 elege a professora carioca Nilmar Ruiz, primeira mulher a ocupar o Paço Municipal. Todos os gestores deixaram marcas relevantes na cidade, em construção.

No segundo momento a cidade passa ao comando de líderes que se projetaram no confronto com os ocupantes do Palácio Araguaia. Em 2004 o ex-deputado Raul Filho conquista a Prefeitura como candidato de oposição, na época pelo PPS, derrotando a prefeita Nilmar Ruiz (PFL), candidata à reeleição com apoio do então governador Marcelo Miranda (MDB). Em 2008 Raul Filho é reeleito com votação expressiva, agora pelo PT. Desta vez o grande adversário era jovem deputado Marcelo Lelis (PV), da escola do siqueirismo.

Em 2012 o colombiano com cidadania brasileira empresário Carlos Amastha, proprietário do Shopping Capim Dourado, a grande obra a empolgar o palmense na época, entra na disputa um pouco tarde, quando os outros candidatos já estavam em campanha, pontuando apenas 2% de intenção de voto e se transforma no maior fenômeno eleitoral do Tocantins.

É bem verdade que foi muito ajudado por Eduardo Siqueira Campos, então homem forte do governo Siqueira Campos, que tentou exercer influência em todas as candidaturas, patrocinando o vice da cada chapa adversária, com o objetivo claro de beneficiar o favorito Marcelo Lelis. Foi assim que esteve por trás do movimento que indicou Alan Barbiero, que era pré-candidato a prefeito pelo PSB a vice na chapa da deputada Luana Ribeiro. Da mesma forma trabalhou nos bastidores para indicar o pré-candidato a prefeito Sargento Aragão (PPS) na vice do Amastha.

Na hora que percebeu que Luana poderia ultrapassar Lelis negociou para a deputada recuar. Inexplicavelmente a deputada abandona a campanha, mas retira o nome da disputa. A estratégia era esfriar a campanha da deputada para levar os seus eleitores migrar para o projeto do Lelis, ambos defendiam projetos parecidos. A estratégia deu errado. Com uma campanha morna, Luana que estava ultrapassando 30% de intenção de votos despenca e Amastha dispara. Daí para a frente não deu outra. Amastha ultrapassa inclusive o líder nas pesquisas Marcelo Lelis e se consagra como um fenômeno, visto que venceu todos, a máquina, de Palmas e do Estado, Raul Filho mais a esquerda e o siqueirismo à direita.

Amastha se elege prefeito atropelando Luana Ribeiro, filha do senador João Ribeiro e apoiada pelo prefeito Raul Filho e Marcelo Lelis (PV) candidato apoiado pelo Palácio Araguaia e que liderava as pesquisas de intenção de voto com 47%, dando início ao terceiro ciclo, em vigor.

Amastha, um estreante na política com enorme dificuldade de se comunicar, num portunhol carregado, consegue passar a mensagem de mudança e cai nos braços do povo. Dizia durante a campanha. “Os adversários dizem que não entendem o que falo, mas o povo não os entende”, rebatia com ironia a falta de clareza dos adversários que desconheciam os anseios da sociedade.

Histórico

Palmas surge como cidade administrativa, o primeiro ato formal de construção da futura capital é o lançamento da pedra fundamental, que se dá em 20 de maio de 1989. O então governador Siqueira Campos consegue mobilizar 10 mil pessoas para este ato inaugural. Uma verdadeira multidão que assiste perplexa as máquinas roncarem na abertura do que viria a ser as primeiras avenidas da cidade. Passada a euforia daquele ato simbólico, quase nada restou no sítio, apenas os fazendeiros desapropriados e poucos trabalhadores.

No começo o governo tratou de tudo. Da abertura das ruas, da construção da infraestrutura, dos prédios públicos e comercialização dos terrenos, que se dizia seria para financiar as despesas de infraestrutura. Sem população, nem recursos, a nova cidade se projetava como um distrito estadual, extensão do Palácio Araguaia. Até aí foi fácil. Palmas era uma invenção do governo que bancava a sua construção e mantinha a ideia de controle do poder da capital.

Já no primeiro momento o governador Siqueira Campos encontra dificuldade para manter o controle político da cidade. O governador tentou impor o filho, então deputado federal Eduardo Siqueira Campos, administrador da cidade em construção que logo seria capital. A situação se complicou bastante quando o governador decidiu que aquele canteiro de obras já podia ser declarado cidade e que tinha por direito receber a parcela do Fundo de Participação dos Municípios, na condição de capital. O prefeito de Miracema do Tocantins, capital provisória, Sebastião Borba contesta na Justiça e consegue aval.

O governador esqueceu que a Constituição de 88 que criou o Tocantins, também fixou que gestor público com poder para administrar recursos repassados pela União só poderia ser se eleito pelo voto popular. Palmas não tinha sequer morador muito menos eleitor. Como iria eleger prefeito. Em tese, Palmas não poderia sediar a capital, pois não tinha prefeito eleito para gerir os seus recursos. E sem recursos pouco adiantava ter status de capital.

Foi assim que a pequena Taquaruçu do Porto surge como solução para os planos do então governador Siqueira Campos. A capital poderia ser transferida para Taquaruçu que tinha prefeito eleito e em ato contínuo Taquaruçu passaria a ser distrito da capital com sede no canteiro de obras da cidade que recebia o nome de Palmas. Operação realizada, por sugestão do promotor de Justiça Lucas Bernardes, Palmas pode então virar capital, no dia 1º de janeiro de 1990, quatro meses após o prazo desejado pelo governador Siqueira Campos que seria 15 de setembro de 1989.

Siqueira consegue a muito custo e algum desgaste político retirar a capital e o capital das mãos do prefeito de Miracema Sebastião Borba e coloca nas mãos de Fenelon Barbosa, mas não confiou tudo ao novo prefeito. Na negociação para a transferência exigiu que parte considerável dos recursos do município fossem administrados pela Companhia de Desenvolvimento do Tocantins (Codetins) uma espécie de Novacap de Brasília, encarregada da construção das obras de infraestrutura de Palmas. A prefeitura administraria apenas 24% dos seus recursos. A astúcia de Siqueira, neste caso, viraria contra o siqueirismo, mais adiante.

Em 1992 se elege prefeito de Palmas o filho do governador, Eduardo Siqueira Campos que não pensou duas vezes. De imediato resolve contestar as medidas legais que davam à Codetins, o direito de administrar parte dos recursos de Palmas. Moisés Avelino era o governador da época, adversário tradicional do siqueirismo e deu ao jovem administrador de Palmas a resposta que certamente ele jamais pensou em ouvir. Avelino disse que não poderia desfazer atos do antecessor em respeito ao ex-governador.

Eduardo teve que ouvir calado. Os recursos só seriam devolvidos integralmente à Prefeitura de Palmas, quando Avelino já estava encerrando o mandando em 1994. Avelino aproveitou os recursos para plantar obras por toda a cidade e se projetar como o governador que ajudou na construção da capital. Concluiu o Palácio Araguaia, construiu novos prédios de secretarias, construiu os prédios da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça, iniciou o asfaltamento da principal avenida da cidade, a Teotônio Segurado, implantou o sistema de água tratada, pavimentou as principais rodovias de ligação com Palmas, TO-050, ligação com Porto Nacional, TO-080, ligação com Paraiso e a TO-010 que liga a Miracema, dentre outras obras.

Mas o que mais irritava o siqueirismo era o fato do governador Avelino de fazer aniversário, em 20 de maio, dia que o governador Siqueira Campos lançou a pedra fundamental da capital. Todos os anos o governo Avelino fazia festa em Palmas para comemorar o aniversário da cidade e do governante que tinha forte atuação na capital. O prefeito Eduardo teve que mudar a data comemorativa de Palmas, passou a ser 1º de janeiro, ‘em referência ao dia em que o canteiro de obras se tornou capital.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.