O estadista que Siqueira nunca foi

Quatro mandatos de governador deram a Siqueira Campos a condição de escrever a história do Tocantins conforme suas interpretações e interesses

Ex-governador Siqueira Campos: ambição desmedida pelo poder determinou a queda de seu prestígio

Ex-governador Siqueira Campos: ambição desmedida pelo poder determinou a queda de seu prestígio

Ruy Bucar

Pouquíssimos líderes chegam ao patamar de Si­queira Campos. Quatro vezes governador do seu estado pelo voto direto, com o direito de construir monumentos alusivos as suas conquistas, escrever a história ao seu bel-prazer e posar de criador, implantador e consolidador do Tocantins.

Menos ainda encerram a carreira política de forma vexatória, saindo pelas portas do fundo, proibido de frequentar palanques, o espaço onde o velho líder melhor atuou e onde construiu a marca de mito.

Pesquisas qualitativas aplicadas às eleições e que buscam não apenas saber o que o eleitor pensa, mas compreender a fundo o sentimento das pessoas no contexto da disputa eleitoral, revelam pelo menos duas informações importantes sobre as eleições no Tocantins. Tão importantes que estão sendo usadas por todos os candidatos: o sentimento de mudança latente em todas as camadas da sociedade e o alto índice de rejeição ao siqueirismo.

Não foi por outra razão que E­duardo Siqueira Campos (PTB) não decolou como candidato a go­vernador. A rejeição o fez esmorecer. A análise desses dados também le­vou Si­queira Cam­pos a declinar do desejo de disputar as eleições para o Senado.

A reprovação do governo perante a opinião pública, lembremos, já havia provocado um grande estrago na base siqueirista. Já tinha forçado a renúncia do ex-governador como medida radical para tentar extirpar o desgaste. Os marqueteiros receitaram um remédio amargo: retirar Siqueira do Palácio e colocar no lugar um nome novo e estaria superado o desgaste.

Siqueira saiu e levou o desgaste, mas não estancou a fonte que é a ineficiência do governo com um modelo de gestão superado pelo tempo, de resultado duvidoso, obras mal feitas, programas eleitoreiros, dívidas que não são pagas e total descaso com a opinião pública.
As pesquisas talvez não tenham ainda uma resposta conclusiva ou trabalhada em relação às razões que levaram a reprovação do siqueirismo. Mas não precisa pesquisas para se concluir que o desastre administrativo aliado à obsessão pelo poder estão fazendo o eleitor mudar a sua percepção sobre a mais tradicional força política do Tocantins. Em vez de ser vista como fundamental para o desenvolvimento do Tocantins passou a ser vista como um entrave ao avanço do Estado.

No poder pela quarta vez Siqueira Campos foi prepotente. Em vez de dialogar com a oposição que tinha maioria na Assem­bleia Legislativa, preferiu massacrá-la. Reativou o mais intrigante processo de convencimento, a cooptação por meio de troca de favores e desestruturou a oposição, calou as vozes descontentes, mas não mudou a realidade do Estado como prometera fazer.

Esqueceu-se das promessas, dos 19 hospitais regionais, das 10 mil casas populares, dos grandes projetos estruturantes, da recuperação das rodovias, construção de novas vias, das escolas de tempo integral, da redução da tarifa de energia, do combate ao cartel da venda de combustíveis, perdeu o prumo, o jeito de governar.

O tocador de obras cedeu lugar a um gestor inseguro que tomava uma decisão pela manhã e de tarde voltava atrás. O que parecia no começo um governo prudente e flexível que não tinha medo de rever suas posições, revelou mais tarde um governo sem comando, dividido entre pai e filho e sem direção. Falou-se tanto de dificuldades que deixou o seu governo virar personificação da crise.

Durante o seu governo marcado por sucessivas demissões em massa de servidores públicos promoveu o inchamento da máquina administrativa, aumentou de forma descontrolada a folha de pagamento, que hoje gira em torno de R$ 3 milhões, elevando a dívida pública, que já ultrapassa R$ 2 bilhões, enquanto reduziu o poder de investimento do Estado ao índice absurdamente ridículo de 1,5%.

Neste contexto entra cena um personagem que diz muito sobre o retorno e queda do siqueirismo, E­duardo Siqueira Campos, responsável pela vitória do velho líder e pela montagem da estrutura de go­verno que tinha fachada moderna e i­novadora. Como recompensa por ter ajudado o pai a vencer as eleições ga­nhou o direito de governar. E­duar­do divide com o pai a responsabilidade pelo maior fracasso administrativo da história do Tocantins.

É sabido por todos que a maior frustração de Siqueira Campos não foi deixar o poder pelas portas do fundo de forma apressada como quem antevê o pior, mas não ter conseguido deixar um herdeiro a altura da grande obra que julga estar deixando para a posteridade. Con­venhamos, esta é a maior derrota do siqueirismo.

A derrocada do siqueirismo está na proporção da queda do prestígio do velho líder. É verdade que ex-governador ainda manda no governo e não poderia ser diferente, afinal o governo é seu, cedeu a cadeira para Sandoval Cardoso sob condições especiais, o que inclui permitir que Eduardo continue governando de longe para não afugentar eleitores que repelem a ligação de Sandoval com o siqueirismo, algo muito difícil de separar. Só o governador acha que está conseguindo disfarçar.

Siqueira tem poder para trocar candidato na chapa majoritária, como fez há pouco ao determinar a inclusão do empresário João Stival como candidato a suplente do Senado, mas não conseguiu emplacar a sua candidatura ao Senado, a qual vinha sendo trabalhada como coroamento da carreira vitoriosa do velho cacique. Ainda chegou a anunciar a pretensão, mas teve que renunciar diante da repercussão negativa para a chapa do governo.

Outro dado que denuncia o desprestígio dos Siqueira é o rebaixamento do filho Eduardo para deputado estadual. Ainda que venha a se eleger não será nenhuma vitória diante da renúncia do governador, que jogou para o alto nove meses de governo para permitir que o filho fosse candidato ao Palácio Araguaia. Pelo menos foi essa a explicação dada pelos governistas para a renúncia do ex-governador. Se o filho não conseguiu ser candidato a governador do que valeu jogar fora nove meses de governo?

O ato da renúncia ainda criou a ideia do lapso do poder, da ruptura dos Siqueira com o poder. Em outro momento se quiserem, e certamente vão querer, como provar que têm disposição para governar o Tocantins se renunciaram ao mandato popular que o povo lhes confiou? A renúncia para o eleitor não foi só uma manobra para salvar o siqueirismo de uma derrota, mas a superação de um modelo de governar que já se exauriu. Foi o próprio Siqueira quem sugeriu esta interpretação com a renúncia mal explicada.

Se não foi esse o motivo da renúncia qualquer outro que for apresentado não deixa de revelar a decadência ou a derrota do siqueirismo. Afinal de contas se toda essa articulação de eleição indireta foi para eleger Sandoval Cardoso, o que isso tem a ver com a recuperação do prestígio do siqueirismo? Sandoval não melhora o siqueirismo, pelo contrário, só piora. A suspeita de que Eduardo opera na sombra de Sandoval virou bomba de efeito retardado. É questão de tempo para explodir.

A falta de prestígio político de Eduardo Siqueira Campos é o próprio retrato da decadência. O ex-prefeito de Palmas, ex-senador e que foi preparado para suceder o pai no comando do Estado é hoje um político emblemático. É tido por todos como uma figura desagregadora que só pensa em maldade, só em exterminar os adversários, não é à toa que está sendo chamado nesta campanha de “príncipe das trevas”.

O suicídio político cometido pelo deputado Júnior Coimbra, que perdeu o comando do PMDB e complicou uma reeleição que tinha como certa, dizem que foi arquitetado pelo ex-secretário de Relações Institucionais, que não teve escrúpulos em usar o deputado para executar um ousado plano de controlar o maior partido de oposição, uma estratégia para esvaziar a candidatura do ex-governador Marcelo Miranda. Se desse certo como foi a coligação do PSDB com o PMDB na eleição de Palmas, o mérito seria seu, se não desse seria incompetência de quem executou o plano. Coimbra, além de ter traído o PMDB, é visto como um incompetente pelo Palácio Araguaia por não ter conseguido apoio em nível nacional para se manter no comando da legenda. Os governistas dizem que não foi por falta de apoio. Coimbra chegou a ter apoio até de governadores peemedebistas de outros Estados para cumprir a sua missão, mas perdeu a batalha, o que fragiliza ainda mais o poder dos Siqueira.

Qualquer que for o resultado das eleições já se pode prever que terá um derrotado: o siqueirismo. Os indícios como se pode ver são bastante evidentes do processo de decadência desse agrupamento político que está no poder desde que o Estado foi criado. É bem verdade que teve que construir a sua trajetória intercalando seus governos com períodos de gestões da oposição, até hoje as mais bem avaliadas pela opinião pública, e isso também diz muito.

Ao longo de uma trajetória política que lhe rendeu quatro mandados de governador, Siqueira Campos construiu uma imagem que pairava acima do bem e do mal, de um estadista que nunca foi. A obsessão desmedida pelo poder é a razão do sucesso, mas também da queda do velho líder.

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