“O Bico do Papagaio perderá cerca de R$ 7 milhões por ano a partir da próxima legislatura”

Ex-prefeito de Tocantinópolis, deputado estadual eleito diz que governo deve estimular o desenvolvimento da região

Foto: Reprodução

Fabion Gomes é um velho conhecido dos tocantinenses. Tradicional político da região do Bico do Papagaio, extremo norte do Estado do Tocantins, já exerceu por cinco vezes o mandato de deputado estadual, sendo eleito pelo PR, em 2018, pela sexta vez, após obter 14.367 votos. Entre 2008 e 2016, foi eleito e reeleito prefeito de Tocantinópolis, sua cidade natal.

Agente de fiscalização licenciado da Secretaria Estadual da Fazenda, Fabion Gomes de Sousa tem 59 anos. Sua plataforma política preza por ações que visam o estímulo à geração de emprego e renda, apoio ao esporte e à juventude, ampliação da rede hospitalar, assim como criação de escolas e universidades e, além disso, prioridade absoluta às pessoas mais carentes.

Nesta descontraída entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Fabion fala da sua trajetória, suas lutas, revela ocorrências que fazem parte da história do Tocantins, como também as suas perspectivas para o novo mandato que se iniciará em fevereiro de 2019.

A campanha eleitoral de 2018 foi muito diferente das outras que o sr. disputou anteriormente?
A legislação mudou e a campanha com apenas 45 dias é, sem dúvidas, mais econômica. Entretanto, ao mesmo tempo, abriu-se o precedente da pré-campanha e muitos candidatos despejam rios de dinheiro durante esse período na busca incessante pelo voto. Particularmente, acredito que, entre todas as mudanças da lei eleitoral, a força do poder econômico não foi atingida. Ainda são eleitos aqueles que possuem mais dinheiro, um mandato ou qualquer espécie de força política. Entre os dezoito deputados estaduais que disputaram a reeleição, dezesseis foram eleitos e dois só não foram porque haviam assumido há pouquíssimo tempo nas vagas de Mauro Carlesse e Vanderlei Barbosa, atuais governador e vice. Um terço de renovação no parlamento é muito pouco e a perspectiva de mudança é mínima, se não houver outras reformas eleitorais. Não existe mais aquele voto ideológico, de confiança no trabalho do agente político. Previa obter 18 mil votos, mas, na última semana, a força do poder econômico de outros candidatos em meu reduto eleitoral me abocanhou 4 mil votos. É um alto preço que a população paga posteriormente por ter deixado se convencer por ilusões.

Qual é o sentimento de voltar ao parlamento?
Tudo é muito novo e se renovou. Algumas coisas para melhor, outras para pior. Permaneci por 17 anos na Assembleia e estive fora por dez. É claro que vou ter que me adaptar e encontrar, em conjunto com meus pares, as melhores saídas para ajudar nosso Estado voltar a crescer. Que Deus nos ajude a ter sabedoria, humildade e discernimento para analisar e decidir cada voto em plenário, quer seja dos próprios projetos e requerimentos, quer seja dos outros colegas parlamentares ou do Poder Executivo. O Estado do Tocantins, assim como o Brasil, está mergulhado em uma crise financeira e institucional e, por isso, dias de dificuldades virão. Não tenho dúvidas disso. Essa nova legislatura terá uma responsabilidade muito grande e enfrentará muitos desafios, mesmo porque a gestão do governo estadual começa de verdade em 2019. O governador Mauro Carlesse não teve tempo para governar como deveria em 2018. A esperança é que as crises instaladas neste ano tão turbulento com cassação de governador e eleição suplementar sejam solucionadas.

Qual a sua reflexão sobre os mandados que já exerceu como deputado estadual?
Naquele tempo era tudo muito diferente. A Assembleia era quase um anexo do Palácio Araguaia, principalmente nas primeiras gestões do governador Siqueira Campos. Para propor um projeto de lei, tinha que haver praticamente um aval dele. Caso contrário, sequer entrava na pauta. Não havia sequer autonomia para eleger nosso próprio presidente. A indicação era do governador e pronto. A título exemplificativo, certa vez os parlamentares foram obrigados a votar favoravelmente à extinção do 13º salário dos próprios deputados devido a uma ordem palaciana. Esse projeto foi posteriormente revogado e hoje os deputados recebem o abono natalino novamente. Hoje, sinto que há uma independência do parlamento. Não há aquela vinculação extrema ao Executivo e, lógico, é assim que tem que ser. O regime democrático de direito exige que seja assim.

Recentemente, o governador promoveu um almoço no Palácio Araguaia na tentativa de confraternizar e se aproximar dos deputados estaduais eleitos. Qual a sua percepção sobre este encontro?
Ele foi muito receptivo, mas não houve conversas individuais. Apenas coletivas. Carlesse discursou no sentido de pedir apoio ao parlamento, visando fazer uma boa administração e tirar o Tocantins do estado de penúria em que se encontra atualmente. Certamente, ele procurará cada um dos eleitos individualmente para traçar estratégias de ação para 2019.

A região do Bico do Papagaio sofre com a falta de estrutura básica e necessita de políticas públicas governamentais para sobreviver. Como é possível mudar esse quadro?
A região já chegou a ter cinco deputados estaduais, mas, para a próxima legislatura, serão apenas três, o que diminui a representatividade e, por consequência, os recursos por meio de emendas parlamentares destinados àquela comunidade. Se o Bico perdeu dois deputados, isso significa uma perda de cerca R$ 7 milhões de reais por ano, o que faz muita diferença por lá. Nos últimos anos, representantes do sul e do centro do Estado do Tocantins tem ido por lá, na época das eleições, captarem votos, em razão da região ser muito populosa. Cada qual coopta, por intermédio de líderes comunitários, duzentos ou trezentos votos e, uma vez eleitos, se esquecem daqueles eleitores, não direcionando emendas ou outros recursos para aquela região.

Na condição de prefeito de Tocantinópolis por dois mandatos, logicamente o sr. conhece a realidade do município e das regiões circunvizinhas. Qual seria, na sua visão, a mola propulsora capaz de mudar a realidade do Bico do Papagaio?
É necessário que governo faça investimentos na região, haja vista que várias administrações estaduais se esqueceram do Bico, tornando precárias até mesmo as infraestruturas já existentes. Pequenas emendas parlamentares não solucionam problemas tão relevantes. É preciso que ocorram ações governamentais de fato, como na saúde, por exemplo. O hospital de Augustinópolis, referência para a região, passa por intermináveis reformas há mais de uma década, Contudo, não consegue atender à população de maneira adequada. Nossas estradas também estão sucateadas e precisam de recapeamento. A segurança pública, desculpe o trocadilho, é caso de polícia. Equipes da PM são obrigadas a atender duas ou três cidades, o que, evidentemente, gera o caos. Além disso, é necessário frisar que os repasses das verbas estaduais às prefeituras também não seguem um padrão, havendo atrasos reiterados que inviabilizam o planejamento e execução das ações. Isso causa prejuízos enormes para a população pobre e carente, que depende de ações dos governos municipais. Esta será a minha na Assembleia Legislativa.

Como seria possível gerar mais empregos na região, evitando-se que a população fique tão dependente do poder público?
Certamente, o estímulo a novos empreendimentos por parte do governo estadual por meio de incentivos fiscais, por exemplo, poderiam alavancar a região e gerar novos empregos. Além disso, é crucial a revitalização e retomada do empreendimento denominado Projeto Sampaio, que compreende a implantação de infraestrutura para irrigação de mais de mil hectares para o cultivo de frutas e grãos. Estas obras estão paralisadas desde 2009. É necessário dar andamento junto a nossa bancada estadual e federal, mas é preciso também que não haja desvios de recursos públicos, roubos, pagamentos de propinas, ou seja, corrupção. O povo precisa que os projetos funcionem e nós, como políticos, temos que parar de pensar mais nós mesmos e pensar no bem-estar da população. Aquele companheiro, coitado, que mora lá nos rincões, agoniza por auxílio e sequer dá conta de dar um grito de socorro. Quando consegue dar um sussurro, sequer é ouvido. Temos que mudar essa realidade. Particularmente, sou um político sem ambição financeira e sobreviverei apenas dos meus subsídios como parlamentar. Farei um mandato nesses moldes e não admitirei negociatas em meu gabinete. Minhas ações serão voltadas e dedicadas exclusivamente para a população mais pobre e sofrida que vive na minha região, como também em todo Estado do Tocantins.

Há uma espécie de dependência do Estado do Maranhão por parte do Bico do Papagaio?
Muitos ribeirinhos desenvolvem atividades em empresas localizadas no Maranhão, principalmente na cidade de Imperatriz. O cultivo e exploração do eucalipto nos territórios maranhense e tocantinense por parte da Suzano Papel e Celulose emprega muita mão de obra tocantinense.  Já o carvão ativado, oriundo do côco de babaçu, também é explorado naquela região por parte da Tobasa Bioindustrial, estabelecida em Tocantinópolis. O parque industrial é grande e gera mais de 100 empregos diretos. Contudo, se houvesse mais incentivos governamentais, a indústria poderia explorar, além do carvão, o óleo, o álcool, entre outros subprodutos, o que poderia gerar mais empregos diretos, indiretos e mais renda. Além disso, falta recursos médicos à população. Os hospitais de Augustinópolis e Araguaína não conseguem atender ao fluxo. Isso obriga nossos enfermos a procurar socorro no Maranhão, o que nos torna ainda mais dependentes daquele do Maranhão.

Qual seria o seu grande legado como prefeito de Tocantinópolis?
Sem dúvida, a assistência social. Não medi esforços para ajudar aqueles mais necessitados, principalmente os que estavam doentes e necessitavam de tratamentos e cuidados contínuos, como pacientes renais e oncológicos, por exemplo. Também priorizei a educação, construí creches, escolas, quadras poliesportivas, UPAs [Unidades de Pronto Atendimento], além de postos de saúde. Revitalizei os dois estádios e, além disso, ergui a praça mais linda da cidade sob uma área degradada que, antes, era refúgio para utilização de drogas e prostituição.

O mote do seu mandato como deputado também será a priorização das causas sociais?
Com toda a certeza. É prioritário gerar emprego e renda para a região do Bico do Papagaio. Os deputados oriundos dali tem que ter essa preocupação. Como já disse, a revitalização do Projeto Sampaio é importante, mas também é preciso alavancar o porto fluvial interestadual de Praia Norte, viabilizando o transporte de cargas e da nossa produção até o oceano atlântico, visando a exportação e os mercados internacionais. Evidentemente que ambos os projetos necessitam de um grande aporte de recursos, mas é possível mobilizar os pares e a bancada federal, além do próprio governador e o presidente da república para que todos façam esforços no sentido de viabilizar as estruturas, que gerarão milhares de empregos na região.

Sofrendo na própria pele os percalços da falta de recursos, o sr. é favorável à revisão do pacto federativo?
Em que pese achar que não sai do papel, se não houver uma reforma tributária e política, sou favorável à revisão. O governo federal não tem interesse em dividir o bolo, pois está cômodo para ele repassar apenas cotas do IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] e do Imposto de Renda. Mas e os outros tributos e taxas? Nada disso é repassado. O município absorve todos os impactos e problemas da população, mas quem fica com a maior parte dos recursos é a União. Esse modelo está ultrapassado. O municipalismo deve ser a tônica, porque quem está lidando diretamente com os problemas é que merece mais prestígio e apoio financeiro.

Na sua região, há grandes aldeias indígenas. Como o sr. lidou com essas comunidades e quais são as perspectivas de melhorias para esse povo após sua posse como deputado estadual?
A etnia Apinajé tem cerca de 2.800 indígenas e cerca de 900 eleitores. Em que pese os cuidados essenciais a eles estejam a cargo da Funai e da Funasa, eu, enquanto prefeito, pude contribuir muito no combate à fome. Esse é o maior problema deles. Perambulam nos gabinetes das autoridades em busca de cestas básicas. A caça e a pesca estão escassas, a lavoura de subsistência de mandioca muitas vezes não vinga e eles sofrem com a falta de alimentos. Destinei, após conseguir autorização especial da Câmara Municipal, muitas cestas básicas àquelas comunidades indígenas, uma vez que os agentes políticos compreenderam que tratava-se de um problema de relevância social. Atendemos muitos deles também no nosso Hospital Municipal, curando suas enfermidades ou encaminhando-os para onde havia mais recursos, sempre com transporte adequado. Como deputado, a intenção é apresentar projetos de lei que possam contribuir para que as dificuldades que eles enfrentam sejam minimizadas.

Como o sr. viu a eleição do Presidente Jair Bolsonaro?
Com bons olhos. Porque, depois de eleito, suas indicações para as pastas importantes foram bem técnicas, em um claro sinal que ele pretende ser o agente das mudanças. Ele demonstra querer interromper o círculo vicioso e generalizado da corrupção instalado em nosso país. E digo mais: é necessário que os governadores de cada Estado da federação caminhem juntos com ele e façam reformas estruturais, extirpando a corrupção dos órgãos públicos, como também promovendo o enxugamento das máquinas administrativas. O que precisamos neste país é que os políticos e governantes parem de roubar. Veja o exemplo da Petrobrás. Foram trilhões de reais desviados, que seria suficiente para construir uma creche e um hospital de pequeno porte em cada cidade brasileira, por exemplo. Isso foi o que descobriram. E o que ainda há escondido que sequer foi objeto de investigação? Essa realidade brasileira tem que mudar. Caso contrário, jamais deixaremos de ser subdesenvolvidos. Creio que Bolsonaro tem o perfil adequado para promover tais mudanças.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.